Gil Scott-Heron: (1949 2011

Homenagem sugerida pelo Lauro

Diante da escalada dos trogloditas americanizados , me parece apropriado:

Last night I saw Lester Maddox on a TV show
With some smart ass New York Jew
And the Jew laughed at Lester Maddox
And the audience laughed at Lester Maddox too
Well he may be a fool but he’s our fool
If they think they’re better than him they’re wrong
So I went to the park and I took some paper along
And that’s where I made this song

We talk real funny down here
We drink too much and we laugh too loud
We’re too dumb to make it in no Northern town
And we’re keepin’ the niggers down

We got no-necked oilmen from Texas
And good ol’ boys from Tennessee
And colleges men from LSU
Went in dumb. Come out dumb too
Hustlin’ ’round Atlanta in their alligator shoes
Gettin’ drunk every weekend at the barbecues
And they’re keepin’ the niggers down

CHORUS
We’re rednecks, rednecks
And we don’t know our ass from a hole in the ground
We’re rednecks, we’re rednecks
And we’re keeping the niggers down

Now your northern nigger’s a Negro
You see he’s got his dignity
Down here we’re too ignorant to realize
That the North has set the nigger free

Yes he’s free to be put in a cage
In Harlem in New York City
And he’s free to be put in a cage on the South-Side of Chicago
And the West-Side
And he’s free to be put in a cage in Hough in Cleveland
And he’s free to be put in a cage in East St. Louis
And he’s free to be put in a cage in Fillmore in San Francisco
And he’s free to be put in a cage in Roxbury in Boston
They’re gatherin’ ‘em up from miles around
Keepin’ the niggers down

No one likes us-I don’t know why
We may not be perfect, but heaven knows we try
But all around, even our old friends put us down
Let’s drop the big one and see what happens

We give them money-but are they grateful?
No, they’re spiteful and they’re hateful
They don’t respect us-so let’s surprise them
We’ll drop the big one and pulverize them

Asia’s crowded and Europe’s too old
Africa is far too hot
And Canada’s too cold
And South America stole our name
Let’s drop the big one
There’ll be no one left to blame us

We’ll save Australia
Don’t wanna hurt no kangaroo
We’ll build an All American amusement park there
They got surfin’, too

Boom goes London and boom Paris
More room for you and more room for me
And every city the whole world round
Will just be another American town
Oh, how peaceful it will be
We’ll set everybody free
You’ll wear a Japanese kimono babe
And there’ll be Italian shoes for me

They all hate us anyhow
So let’s drop the big one now
Let’s drop the big one now

E depois da onda de inventar fontes, a imprensa brasileira agora faz questão de fazer campanha aberta contra o trabalho da diplomacia brasileira. O caso da negociação com o Irã é ridículo. O Brasil claramente marcou um golaço e a imprensa – a mesma que inventa fontes que nunca deram entrevistas e que compra spams da Internet como se fossem documentos reais – trata a história como um retumbante fracasso. O nosso amigo Pablo Pires, jornalista da área de internacional comenta o caso com muito mais propriedade.


Hipocrisia e oportunismo, por Pablo Pires Fernandes

A suspeita sempre ronda os inimigos dos EUA

O programa nuclear do Irã tem sido um dos pontos de maior debate e fonte de divergências na diplomacia internacional dos últimos tempos. Mobiliza esforços e campanhas de todo tipo e, geralmente, fazem ecoar vozes extremas e dissonantes pró e contra. Faz-se necessária a discussão a respeito da proposta e do acordo firmado entre o Brasil, a Turquia e o Irã, na segunda-feira, e do percurso e das expectativas antes e depois da assinatura do documento, claro. Dá pano pra manga. Mas, antes disso, gostaria de apontar um aspecto interessante que tenho observado na mídia brasileira e internacional que, a meu ver, distorcem o cerne da questão.

Em geral, o que pega é a questão dos direitos humanos. Todos sabem que o Irã é um regime opressivo, que limita a liberdade de imprensa, que reprime, prende, tortura e até mata seus opositores. Fato. E, claro, fato absolutamente condenável. O governo brasileiro até pode ser criticado por não tocar no assunto ou se abster de votar contra o Irã no Conselho de Direitos Humanos na ONU. Mas, como tenho visto com freqüência, é uma condenação a priori da política brasileira de fazer contato com o Irã por causa da falta de respeito aos direitos humanos. Isso é hipócrita, falacioso e oportunista.

Alguns exemplos. O jornal O Globo publicou na quinta-feira uma entrevista com a advogada Shirin Ebadi, Nobel da Paz e defensora dos direitos humanos, na qual ela pede que Lula visite os prisioneiros políticos do Irã. Outros meios também reivindicam o mesmo. O Washington Post fez um editorial na mesma toada no sábado (misteriosamente, não o encontrei na internet). E ontem (segunda-feira), o Wall Street Journal publicou uma Carta Aberta ao Presidente do Brasil, assinada pelo trabalhista britânico Dennis MacShane. Esses exemplos são apenas alguns, mas não deve ser novidade para nenhum leitor desse blog que esse tipo de associação ou argumento é freqüente na mídia internacional e brasileira, sempre a reboque.

Além de deslocar a questão central da viagem do presidente Lula ao Irã (comércio, negociação sobre a questão nuclear), os argumentos não se sustentam por qualquer base comparativa ou princípio de equidade. Por que ninguém exige que o governo fale sobre os direitos humanos quando o presidente Lula vai à China ou à Arábia Saudita? São regimes mais opressores do que o iraniano. Porque com a China ninguém pode, porque ninguém vai ousar ficar de mal com os donos da economia do futuro.

É simples assim? Hipocrisia pura. Uma coisa é a mídia americana usar esse argumento, pois reflete a campanha clara de demonização da República Islâmica, pois interessa aos neocons manter o estado de guerra e render a indústria armamentista. A associação de Lula com os direitos humanos é uma falácia completa. Ou os EUA não compram 80% do petróleo da Arábia Saudita nem toneladas de produtos chineses? Ou não são aliados dos regimes autoritários como o Egito de Mubarak?

Outra coisa é a apropriação desse discurso pela mídia brasileira, que tem outro viés. O argumento é usado quando convém para criticar o governo, de maneira oportunista, ou seja, quase sempre. Não vejo nada de errado em expor as péssimas condições dos direitos humanos no Irã, muito pelo contrário, mas dizer que o Brasil não deve fazer comércio com o Irã por causa disso é falta de noção da realidade. Imaginem se ninguém negociasse com a China por causa da ausência de democracia ou porque eles reprimem os tibetanos? Ah, tenha dó, vira o disco…

Algumas dúvidas: qual seria o comportamento do eleitorado de qualquer país se o governo federal acabasse de instituir que a saúde que até ontem era paga poderia também ser pública, gratuita e acessível a todos os cidadãos? E se a carga tributária fosse a menor desde 1955? Provavelmente o presidente seria erguido em praça pública e saudado por todos como um grande herói. Em quase todo lugar do mundo, mas existe um país muito louco onde isso não acontece.

E se um presidente colocasse um país em uma guerra sem fim e, graças a uma política econômica irresponsável – com o apoio dos grandes conglomerados empresariais –, arrastasse o país –e o resto do mundo a reboque – a uma crise com proporções nunca antes vistas? Provavelmente, as pessoas iriam as ruas para derrubá-lo e o presidente seria considerado, no mínimo, um aventureiro incompetente.

Pois é, nos Estados Unidos, a coisa é estranha. Se Bush só afundou depois que a vaca chamava o brejo de casa e passou a maior parte do governo em nuvens de popularidade,  o governo Obama mergulha num descrédito gigantesco (80%) e é apontado como uma ameaça às liberdades individuais. Tudo em meio a uma batalha de recuperação econômica.

A oposição americana fala que, além de não precisar de um sistema de saúde, não tem obrigação nenhuma em salvar o sistema financeiro. O partido Republicano vive sem horizonte algum e nesse cenário se alimenta de intolerância e fundamentalismo.

Os conservadores por Deus e contra o sexo anal e a nova ordem mudial

Muito dessa reação violenta e escandalosa contra o governo é atribuído ao movimento Tea Party.  Você pode imaginar o que vem no caldo especial dessa turma: homofobia, xenofobia, a oposição ao sexo anal e a tudo que não se encaixa ao perfil dos “fundadores” da nação.

Esse é o ponto que me chama mais atenção. Os tea partiers, pelo pouco que acompanho se dividem entre Ron Paul e Sarah Palin. De um lado, estão os inimigos mortais da alegria, de um mundo mais desinibido; querem os valores protestantes como regras oficiais do país. São os fãs da Sarah Palin (eles são fãs mesmo, uma vez que a falta de debate político é outra característica do movimento).

Por outro lado, tem os libertarians que se juntam ao senador texano Ron Paul. São contra qualquer tipo de regulação ou intervenção do Estado na economia, a ponto de defenderem a falta de necessidade de Corpo de Bombeiros bancados pelo Estado.

Segundo o próprio Paul, Obama é um corporatista. Ou seja, trabalha pela dominação dos grandes conglomerados, com isso  sufoca a iniciativa individual. A posição desse pessoal é um pouco melhor do que o republicanismo radical, mas a falta de compreensão do papel do Estado é a mesma, ainda mais depois da crise financeira de 2008 que tem nos 30 anos de políticas de desregulamentação um dos seus principais vilões. Pelo menos são contra as intervenções militares americanas e radicalmente a favor da divisão entre estado e religião. Em uma recente pesquisa Rasmussen, o senador libertarian aparece empatado com Obama.

Na maior parte dos casos, os manifestantes das Tea Parties se rebelam contra o establishment político em geral e contra as instituições. O movimento se baseia em um fundamentalismo que remonta à independência dos Estados Unidos  e a uma paranóia em que o Estado é um inimigo e que os servidores públicos trabalham noite e dia para espoliar a vida do “cidadão de bem”.

A paranóia de que o governo federal é um monstro hobbesiano que irá chegar de dsco voador e dominar a liberdade de escolha está presente em todo imaginário dos EUA.

Tal desespero de que o comunismo, o totalitarismo e a invasão alienígena estão à espreita tem sido o combustível do radicalismo anti-Obama. A justificativa número um é o possível aumento de impostos por causa da criação do sistema de Saúde Pública e ajuda aos grandes conglomerados no pós-crise. O engraçado era que poucos reclamavam quando o aumento de impostos era para combater o terrorismo no Iraque.

O medo do centro e da esquerda política americana é que essas manifestações de rua descambem pra mais capítulos de violência nos EUA. Por causa disso, Bill Clinton recentemente comparou a ascensão do Tea Party ao atentado ao Oklahoma City Building há 14 anos atrás. Assim como a galera que reclama da “Nova Ordem Mundial”, o responsável pelo atentado, Timothy McVeigh, também participava de manifestações contra os impostos, o controle de armas e a intervenção do governo federal na vida dos americanos.

O atentado matou 168 pessoas e para McVeigh o atentado serviu para um “bem maior”, pois as pessoas que “traem a constituição são inimigos domésticos e deveriam ser punidas de acordo”.  É uma relação muito louca com a Constituição (que serve mais ou menos como o Corão ou a Bíblia) e com os outros regimes de governo, que são uma espécie de grande Satã. Também é um discurso que sempre ganha em agressividade quando os democratas estão no poder.

A não ser que tenha guerra. Quando um democrata assume o poder, o estado se torna um inimigo automático, os políticos e funcionários públicos são chamados de gangsters e tratados como uma ameaça permanente aos direitos individuais (nada muito diferente da reação da direita por aqui).

É claro que a euforia em torno da Tea Party pode ser exagerada. Mas esse discurso foi o que fortaleceu a bancada republicana no primeiro governo Clinton. Na ápoca a reação era contra uma Lei Criminal de 1994, que entre outras coisas previa a admissão de gays nas forças armadas.

A movimentação contra essa legislação nos estados americanos mais conservadores deu brecha, entre outras coisas para o aumento da bancada republicana nos EUA  de 94 até 2006. Essa ascensão fez o ex-presidente democrata fritar no óleo da Monica Lewinski e empurrou o governo Clinton para uma administração mais à direita.

Isso certamente pode acontecer e, seguindo o gosto da direita americana, pode força-los a novas intervenções militares, avanço do protecionismo e perseguição de estrangeiros. A coisa toda ainda está pra ser escrita, mas até agora a oposição ao Obama no Congresso Americano faz de tudo para barrar qualquer proposta que o poder executivo propõe.  O cenário é bem pouco animador.

Amigo nosso de BH, o jornalista Pablo Pires acompanha pelas redações os conflitos mundo afora há um bom tempo. Hoje no Estado de Minas e também na incrível revista Graffitti 76% Quadrinhos. Pouco se falou, mas uma crise profunda balançou a relação carnal entre Israel e Estados Unidos.  A análise do Pablo rende uma ótima conversa (inclusive sobre o Brasil e a relação dos conservadores com a política internacional).

Netanyahu vira as costas pro mundo todo, mas o lobby não sai da mão

A crise entre os EUA e Israel, detonada com o anúncio da construção de 1,6 mil casas em Jerusalém durante a visita à cidade do vice-presidente norte-americano, Joe Biden, não se limitou à diplomacia e foi o estopim também de outros movimentos.

A reação da secretária de Estado, Hillary Clinton, que telefonou para o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, dando-lhe um verdadeira bronca – “insultante” e “negativo para o processo de paz” foram alguns dos termos divulgadas pelos porta-vozes. – foi o ápice da tensão entre a potência e seu fiel e maior aliado no Oriente Médio. Houve quem apontou a rusga diplomática como a maior desde 1975, quando os EUA forçaram Israel a se retirar do Sinai.

No entanto, as consequências e, como é de praxe quando se lida com o conflito israelense-palestino, são exacerbadas. De um lado os conservadores dos EUA, em grande maioria fiéis ao poderoso lobby judeu, condenaram de pronto a reação de Hillary, classificando-a de exagerada e equivocada.

Também serviu a organizações mais aliadas à direita israelense e aos republicanos nos EUA, como a American Israel Public Affairs Committee (Aipac) ou a The Israel Project para pressionar o Congresso norte-americano a demonstrar publicamente o apoio ao Estado judeu.

Do outro lado do espectro político, a organização J´Street, que se se diz um lobby pró-Israel, mas que defende a paz e tem posturas mais liberais, acredita, assim como o presidente brasileiro – que a crise pode servir como uma oportunidade para relançar as negociações de paz sob um novo ângulo, menos submisso à postura radicalmente direitista e ortodoxa que domina o gabinete de Netanyahu.

A J´Street também denunciou o uso, por setores conservadores, da crise como fomentador de uma campanha contra o presidente Barack Obama. E manteve firme a sua posição de recolher assinaturas para que o governo dos EUA mantenha a postura firme em relação à administração israelense. Ou seja, continuar falando grosso para as coisas andarem.

O imbróglio diplomático entre os dois aliados refletiu nos EUA a provocou a mobilização dos dois setores de maneira radical, refletindo a divisão, não apenas da postura dos judeus-americanos em relação ao governo israelense, mas o próprio racha da sociedade norte-americana, que opõe liberais e uma classe universitária cosmopolitas a um poderoso grupo conservador que faz campanha de medo e terror, com apoio da mídia, e consegue mobilizar os que temem o “socialismo” de Obama ou que se alimentam do pânico do radicalismo islâmico.

A fúria anti-Estado vai até a hora em que as empresas passam o chapéu Citibank e GM bem sabem disso

A fúria anti-Estado vai até a hora em que as empresas passam o chapéu Citibank e GM bem sabem disso

A comparação entre Lula e Obama é recorrente. Ambos prometeram mudança na campanha. Os dois substituiram um grupo que há anos dominava a política local e ganharam a preferência popular em meio a uma enorme crise econômica.

Pelo jeito, os dois enfrentam uma oposição com o mesmo grau de tensão e agressividade. E travam uma batalha sobre qual deve ser a influência do Estado na economia e na sociedade.

Se Lula briga pelo controle estatal do pré-sal, no caso de Obama o buraco é mais embaixo. A briga é pela saúde pública e universal. É uma luta para trazer o Estado como agente de saúde  gratuita para as pessoas. Com isso, o democrata briga com um dos mais poderosos lobbies americanos, o dos planos de saúde.

Desde que Obama começou essa batalha, já foi acusado de um monte de coisas pelos republicanos. As comparações com Adolf Hitler são as mais recorrentes na oposição cada vez mais raivosa e babona do hemisfério Norte (calma que ainda tem mais semelhanças com o “Gigante da América do Sul”). Por outro lado, isso até já alimenta alguns bons sites de piada.

O engraçado é que o discurso da escalada autoritária sempre esteve presente nos momentos em que o governo tentou intervir no setor privado: Ancinav, a mudança nos critérios das agências reguladoras, a lenda orquestrada do terceiro mandato até o recente chilique dos banqueiros por causa da facilitação do acesso ao crédito nos bancos públicos. E agora a conversa fiada se repete na discussão do pré-sal.

Nos EUA, a proposta de um sistema público de saúde já começou cheia de acusações e traições. O nível de tensão teve início nos desacertos e brigas dentro do próprio partido Democrata, como nos mostra o sempre bem informado André Kenji.

O nível ontem atingiu o bizarro do deputado republicano Joe Wilson chamar Obama de mentiroso durante o pronunciamento do presidente dos Estados Unidos no Congresso. A agressividade foi tamanha que o deputado teve de se desculpar, mas imagina a neurose? O motivo do bate-boca é a extensão da saúde pública aos imigrantes ilegais.

Ao apelarem para a mentira de que os imigrantes serão cobertos pela saúde públicae, republicanos jogam eleitoralmente com a base democrata em sindicatos, extremamente nacionalista, preconceituosa e ciosa de que a entrada de imigrantes pode dificultar o seu acesso à saúde.

O que parece ser relevado no debate nos Estados Unidos é que os sistemas de saúde privados com essa oposição ostensiva reconhecem a sua incompetência. Já que o sistema público vai ser tão ruim, pra eles não faz diferença. A saúde pública brasileira é exemplo disso. Existe e é usada por todas as classes sociais. Mas a demora (e muitas vezes a precariedade) do atendimento leva muitas pessoas pros planos privados. Por que a “eficiente” saúde privada americana não deixa o setor público existir? Eles não ganhariam dinheiro do mesmo jeito?

A crise econômica mundial e o protagonismo dos bancos públicos brasileiros mostram que nem sempre esse postulado liberal de eficiência privada é verdadeiro.

Tanto no Brasil como nos EUA, a estratégia de humilhar o líder do executivo é uma cortina de fumaça para defender o lobby dos grande grupos internacionais privados. Seja do petróleo, seja da saúde pública. E olha que os dois governantes, em momentos diferentes salvaram os setores privados de seus países. Não tem jeito, o leviatã privado sempre quer mais. Ou como Bruno Pinheiro exemplifica brilhantemente: Não existe almoço grátis, a não ser que seja pra mim.

E quando os defensores dos mais ricos ficam desalojados do poder, a saída mais comum parece o hospício, mesmo quando o setor privado se comprova muito menos eficiente que o setor público. Esse é e deve ser o cerne da campanha eleitoral no Brasil.

Cheguei duas horas antes para poder olhar as obras e o arquivo no prédio do Merce Cunningham Studio. Por todos os lados havia meninas e meninos se esticando com roupas colantes. O elevador subiu mais devagar do que o normal, enquanto a porta pantográfica abria no andar errado, eu parecia ter chegado no meio de uma peça coreografada pelo próprio Cunningham: os dançarinos se mexiam sem olhar uns para os outros. Eram gestos econômicos, mas que não se coordenavam, mas criavam eventos paralelos.

No dia, um dos heróis da música experimental norte americana tocaria lá: Gordon Mumma. A reunião foi marcada nesse dia por isso. O meu amigo Kenny me disse: “será uma inflação do que a cultura dos Estados Unidos produziu de mais radical”. Era mesmo, a melhor pintura de um grande artista sobre o maior coreógrafo do país dele. Mumma, um compositor com a radicalidade de William Carlos Williams, tocaria piano junto com o trombonista, compositor, improvisador e escritor George Lewis. Não podia estar em outro lugar.

Logo encontrei o David Vaughn, o historiador que toma conta do arquivo a quase quarenta anos. O Kenny me avisou: “o sujeito conhece tudo sobre essa cidade”. Muito simpático ele me levou direto à tela que o Andy Warhol fez a partir de movimentos da dança de Cunningham. Só depois ele me mostrou as imagens do Rainforest (1968) espetáculo com música de David Tudor e cenário de Andy Warhol.

Cunningham & Cage

Cunningham & Cage românticos

Com tudo isso, não dava para ser uma visita pouco proveitosa, mas bem depois, já no saguão do salão de dança, onde eu esperava o concerto começar, ficou melhor. Eu estava sozinho, o meu amigo ainda não havia chegado, e muita gente que viveu com personagens da vanguarda novaiorquina dos anos sessenta começou a sair pela porta pantográfica. Era uma homenagem ao recém-falecido Sol LeWitt, um dos artistas mais conhecidos da minimal e responsável pelo termo conceptual art. Empinei e escutei uma porção de histórias. Visões nostálgicas dos grandes artistas americanos, gente que esteve ou teve algum parente no Black Mountain College e muitos depoimentos sobre John Cage, o grande amor da vida de Merce Cunningham.

De repente, Cunningham aparece por detrás de uma porta do estúdio. Já estava muito velho e provavelmente não mexia mais que 20% do corpo. Na sala diziam que o pintor Robert Rauschenberg estava muito mal e dificilmente agüentaria outro ano e ele não agüentou. Todos sabiam que aquele mundo que eles criaram já estava se esvaindo. A saída era criar novas formas de lidar com o que vinha por aí, sem saudade, sem utopia e com muita sede de fazer. Mais que isso, era conviver. Mas, eu confesso, não quis que aquilo fosse passado.

A sensação de morte é aterradora, talvez como a idéia de movimento na tela de Andy Warhol.

Andy Warhol, "Merce" (1963)

Andy Warhol, “Merce” (1963)

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