Sim , sim, o blog anda meio parado e o acúmulo de tarefas dos três responsáveis por este espaço tem impossibilitado aquela atualização ágil e o debate moleque que sempre rolou nessa linda plataforma. Não temam, as coisas estão ficando mais tranquilas e acho que a alegria deve voltar a ser mais frequente por aqui. Pra começar, publicamos  o texto da nossa grande amiga Carol Trevisan – que é jornalista e trabalha com iniciativas da área social – sobre sua participação no primeiro evento da Copa do Mundo de 2014 e todas as cores que o império absolutista da bola brasileira pode ter. Para ler, recortar e comentar:

Pontapé inicial – Impressões sobre a bizarra experiência de participar  do primeiro chute da Fifa para a Copa do Mundo 2014, por Maria Carolina Trevisan

Bom humor e muita emoção...

Rio de Janeiro, 29 de julho. Seis e meia da tarde. Hora do rush na cidade maravilhosa. Ônibus lotados, carros e pedestres se misturam a um lusco-fusco que cega. As luzes vermelhas das lanternas em fila contrastam com a Baía de Guanabara, o cheiro da maresia e uma temperatura amena, o que faz do calçadão de Copacabana o melhor lugar para se estar.

Mas era hora do compromisso. Os ônibus com convidados da Fifa para o banquete que antecede o sorteio das eliminatórias da Copa 2014 partiam do luxuoso hotel Windsor Copacabana rumo ao Pier Mauá. O convite, assinado por Joseph Blatter, presidente da Fifa, e Ricardo Teixeira, presidente da CBF, sugeria como traje “bussiness atire”. Pouco a pouco os assentos foram ocupados por homens de terno-uniforme azul escuro, idênticos e com a palavra FIFA bordada no canto esquerdo do paletó. Para acompanhar, loiras perfumadas, cabelos em laquê, vestidos longos e brilhos mais adequados a casamento de princesa.

Esse foi o primeiro choque. O segundo, golpe bem mais forte, foi perceber que esse veículo cheio de desconhecidos e desimportantes seria escoltado por pelo menos quatro batedores da Polícia Rodoviária Federal, montados em uma bela Harley Davidson vintage. A população, espremida nos coletivos, era literalmente apartada para deixar passar sem atrasos tão distinguida turma. Foram pelo menos 10 desses. E assim, a Fifa, o governo e a prefeitura do Rio, começaram a mostrar que a elite brasileira, política e futebolística, é capaz de organizar uma Copa do Mundo. Deu vergonha.

Na chegada ao pier, os convidados eram recebidos com champanhe Chandon rose, caipirinhas, claro, e vários petiscos típicos de sabores irreconhecíveis. Carros pretos brilhantes, com motoristas negros brilhantes, estacionavam em uma área ultra vip (VVIP, segundo a Fifa O que seria? Very Very Important People? #medodessagente). Desembarcavam ali cartolas, ministros, prefeitos, secretários e secretários dos secretários. Perceber essa divisão entre as pessoas foi o choque número três. Mas não acabou.

Choque número quatro: com tantos VVIP, o mar seria um meio de ataque terrorista óbvio e fácil. Para evitar qualquer atentado, um barco da polícia esteve de prontidão do começo ao fim do evento, garantindo a segurança de todos nós. Enquanto isso, conversava-se, fumava-se e bebia-se a vontade. Até que as portas para o banquete foram abertas.

Cartões nominais espalhados sobre as mesas guiavam os comensais. No mapa de lugares, mais um choque: a Fifa guardou para a área de responsabilidade social uma mesa no lugar mais importante, primeira fila, cara a cara com o palco. Era a patota da “Corporate Social Responsibility” dividindo espaço com o Ministro do Esporte, Orlando Silva, o governador do Rio, Sergio Cabral, o prefeito do Rio, Eduardo Paes, o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, o prefeito de Belo Horizonte, Marcio Lacerda, o ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes, além de Blatter, Teixeira, Havelange, Cafu, Bebeto, entre outros. O que isso significa?

Estava, então, claríssimo que faz parte da reconstrução da imagem da Fifa dar importância à sua área de responsabilidade social. E o cheiro do poder é ludibriante. Pode mesmo embriagar a vista de quem não estiver atento e preparado. Os “privilégios” não paravam: o cardápio em português e inglês anunciava fettuccine de palmito pupunha, camarão ao gengibre com couscous marroquino, filet em crosta de ervas e haricot vert, além de mil sobremesas. E champanhe a vontade. Para nós, serviço na mesa. Para o resto, só buffet.

Havia cerca de dois mil convidados. Na mesa VIP da responsabilidade social éramos nove. Bem poucos para tamanha missão. Em meio ao rega-bofe, o “muito obrigada” em português forçado do Mr. Blatter. Assim que o jantar terminou todo o mundo saiu correndo de volta para o hotel, em um estranho movimento de fuga. Na volta, a mesma escolta vergonhosa, agressiva e, ao mesmo tempo, muito reveladora.

O sorteio

Mas o grande show aconteceria no dia seguinte, na Marina da Gloria. Gastou-se cerca de R$30 milhões, entre prefeitura e governo local, para que o sorteio das partidas preliminares da FIFA World CUP fosse um sucesso e continuasse mostrando a capacidade do país em receber o megaevento. Fui com a convicção e a esperança de que alguma coisa importante pudesse acontecer, além das bolinhas, mas decidi não mais aproveitar a carona em ônibus escoltado. As presenças ilustres contrastavam com a manifestação do lado de fora que pedia “uma Copa do povo” e “ fora Teixeira”.

Para adentrar o local do evento, era necessário passar pelo controle da Polícia Militar, pelo raio x e pelo scanner de bolsas, além de deixar isqueiros ou outros objetos “perigosos” para trás. Na entrada, um corredor com estandes das cidades-sede mostrava as promessas de cada uma, seus merchandisings, marketing propositions, presentations e folders. Tudo em inglês, logicamente. O mundo do futebol internacional não fala português. Mas parece que ama o Brasil.

Soou o sinal e era momento de entrar. A TV Globo não poderia tolerar atrasos. Ventava muito e a tenda ameaçava sair voando. De novo, a elite estava ali, ocupando suas praças reservadas. E o grupo da responsabilidade social, outra vez, na primeira fileira. Foi o choque número seis: apenas dez metros nos separavam de Blatter, Grondona, Teixeira, Havelange, Pelé, Cafu, Neymar, Bebeto, Zico, Zagallo, Ronaldão, e, mais tarde, da Presidente da República do Brasil, Dilma Roussef. Não dava para acreditar.

Choque número sete: repetiu-se muitas e muitas vezes, para todos os cerca de 600 milhões de telespectadores de mais de 200 países, que a Copa do Mundo 2014 é, agora, a “Copa do Mundo da FIFA”. No Brasil, fala-se Copa do Mundo e ponto, sempre foi assim. Agora, a “Copa do Mundo da FIFA” é marca registrada e tem preço.

Os discursos que se seguiram foram elucidativos. Estava claro que Pelé (escolhido como embaixador honorário da Copa) e Teixeira não estão de amizade, que o rei é aliado de Dilma e que a presidente não dá a menor bola para Teixeira ou Blatter. As falas do governador e do prefeito do Rio mencionaram o legado da Copa e ressaltaram avanços nos campos esportivo, estrutural e econômico, na mobilidade urbana e no saneamento. Eduardo Paes passou quase perto ao dizer que “futebol não tem classe social” e que é “um meio de transformação”, porém, não disse nada sobre sua função e seu papel em um mega evento para diminuir as diferenças sociais. Mas citou o ex-presidente Lula e declarou: “o maior legado da Copa é a auto-estima do povo brasileiro”. Mas, e se o Brasil perder a Copa? Suicídio geral?? Choque número oito.

A situação melhorou quando a presidente Dilma subiu ao palco. Falou em liberdade, justiça social e paz como legados. Não era possível iniciar esse evento sem que ao menos essas palavras fossem lembradas. Em resumo: a Copa do Mundo da Fifa é uma coisa. A Copa do Mundo de Futebol, no imaginário do povo brasileiro, é outra coisa. E é de todos.

A partir daí começou o momento bolinhas, uma espécie de bingo. Estrelas como Neymar, Cafu, Ronaldo, Bebeto e Lucas sortearam a teia de jogos eliminatórios até a Copa. Os cerimonialistas vestidos de gala, Fernanda Lima e Tadeu Schmidt, apresentadores da TV Globo, anunciavam cada passo. O deslize ficou por conta de Schmidt, que equivocadamente chamou Ronaldo de Romário, sendo este último persona non grata na Fifa, a ponto de nem aparecer em nenhuma das imagens de futebol brasileiro que se mostrou. Entre um sorteio e outro, com pequenos shows nos intervalos, vídeos de pessoas como Gisele Bündchen (expert no tema), Paulo Coelho (!!) e até Oscar Niemeyer tentavam convencer os presentes da capacidade brasileira de receber a Copa, lembrando que futebol é a paixão nacional, mas esquecendo de seu componente tóxico, o ópio do povo.

Como vocês viram, saí chocada de todo esse espetáculo. Preocupada também. Mas entendi que há um espaço que precisa ser ocupado por propostas e ações e que o momento é agora. Se a Fifa está precisando da ala da responsabilidade social para mudar a sua imagem e nós queremos uma Copa do Mundo com o mínimo de efeitos sociais nocivos – queremos o contrário -, é preciso aproveitar (com olhar crítico, sempre), impôr o papel da sociedade civil e propor alguma alternativa. Porque o pontapé inicial (kick off) da Copa foi dado. Mas é o povo brasileiro que está sendo chutado.

Quando chegamos do bar do Alemão, todo mundo se meteu no elevador e foi ver como terminariam os jogos. O Israel vinha confiante,  2 a 0 no primeiro tempo não garantia a vitória mas já despertava aquela coceira na mão de partir para as quartas de final da Libertadores da América. Os tropeços de primeiro semestre do ano do centenário não pareciam mais sinais de mau agouro. Agora era esperar acabar o segundo tempo sem nenhum susto. O Leandro, torcedor do Bahia, achava graça, todo estóico diante daquela ansiedade.

Antes de o elevador deixar o primeiro da turma, os flameguistas já comemoravam o gol do Vagner Love.

O Israel foi o último a aparecer para o almoço no dia seguinte. O Idelber apareceu cedo, mas nem falou no terceiro gol do Santos. Passou a manhã lendo o livro do Zé Paulo (que deixou a gente mais cedo, na noite anterior, depois de um tímido lamento de palmeirense doente que não quer nem mais saber de futebol, nunca mais, nunca mais mesmo), sobre a democracia corintiana, o que meio que equilibrava as coisas. Campeonato tem todo ano.

O Rodrigo aprontou um negócio incrível aqui em Curitiba, junto com a Celise e o pessoal todo do SESC Paraná. E eu não fui o único a dizer – mas eu, para falar de futebol? O Idelber, que esqueceu mais sobre futebol do que eu jamais vou saber, também não entendeu o convite no começo. Acho que essa reação só confirmou a sacada do Rodrigo: futebol, como diria o Aristóteles, se diz de muitas maneiras. Larga um microfone na mão de um pessoal que, quando não tem microfone, quase não fala de outra coisa, que com certeza algum papo bom sobre bola aparece. Eu estava na primeira mesa e, tirando a minha participação, que não vi por causa das luzes e do nervosismo, foi uma noite memorável.

A ideia era discutir futebol, as eleições, copa do mundo, política. O Israel tomou conta da mesa, que era o Leandro Fortes, o José Paulo Florenzano e eu. O Leandro explicou por que o jornalismo esportivo e o jornalismo político são tão ruins no Brasil: a passividade profissional, a falta de preparo e o mau gosto assombram as duas áreas. O José Paulo, que carrega na cabeça todo o universo do futebol brasileiro sob a ditadura, lembrou que a cooptação da seleção de 1970 foi apenas mais um ato de arbitrariedade e violência do regime militar: as práticas de liberdade da delegação brasileira espelhavam e reforçavam um movimento subterrâneo idêntico ao de muitos setores da sociedade brasileira, e que culminou com a seleção de 82, numa derrota tão sublime quanto a do movimento das Diretas Já – que não por acaso carregou como símbolo a mesma camisa amarela, o traje de celebração da liberdade e da alegria oficial do país. Eu tentei reclamar da Copa do Mundo como megaevento privado, danoso e contrário à condução democrática do desenvolvimento das cidades.

O encontro ainda segue, hoje e amanhã. A platéia estava cheia de pessoas interessadíssimas, e interessantes: estudantes de jornalismo, jornalistas, escritores, curiosos. Hoje sentam para conversar sobre arte e profissionalismo na era da imagem, sob a batuta do Lauro Mesquita, Francisco Bosco e André Mendes Capraro. Amanhã, depois da mesa sobre a democracia corintiana, a seleção brasileira e a abertura política, com Idelber Avelar, Marcos Guterman e Sócrates Brasileiro Sampaio de Oliveira, o Dr. Sócrates (sob os cuidados do Rodrigo Merheb), José Miguel Wisnik e Sócrates vão arriscar umas músicas sobre futebol. Eu trouxe uma camisa do São Paulo para ver se o Sócrates leva pro Raí assinar.

Hoje chegou um flamenguista, um santista e um dos dois torcedores do América MG da redação do Guaciara.  O Rodrigo foi cuidadoso o suficiente para garantir a representação plural da sociedade brasileira no evento.

Está sendo duca. Quem está em Curitiba e não veio precisa vir. O serviço está no post logo aí embaixo.


Vale muito a pena ler a entrevista com Zidane que o El Pais publicou nesse domingo. É uma história muito louca o abandono desse que foi o maior craque a ter jogado no século 21. De acordo com relatos publicados na matéria, ele ainda hoje tem condicionamento físico para aguentar os dois tempos nos campos de futebol. Ao invés disso, prefere passar tempo com os amigos e a família e se dedicar aos projetos sociais que ele toca.

Zidane ainda sai do que é mais típico na história do futebol e não mostra interesse nenhum em ser cartola ou técnico:

“nunca havia pensado em ganhar a vida como ganhei. Não jogava futebol pra ganhar dinheiro. Jogava porque não pensava que pudesse fazer outra coisa da vida. O futebol me deu tudo.”

Na entrevista, o craque presta mais uma homenagem ao uruguaio Enzo Francescoli “”um ideal de nobreza trabalho e esforço…”) e a Ronaldo (“um companheiro que me fazia rir todos os dias, um craque em
todos os sentidos”). E essa relação de admiração de Zidane com os jogadores sul-americanos (também fala de Kaká) diz muito sobre sua opinião sobre o futebol:

“Se começa a jogar futebol na rua. Lá  se aprende que você não está só no mundo e que há outros que querem o mesmo que você, que podem te ajudar, se você ajudá-los. Gosto de assistir tênis, mas nunca poderia ter feito uma carreira no tênis. Um das coisas que eu gosto é estar com os companheiros. Quando você troca coisas com os outros, você melhora (…)

Agora os meninos vivem sob muita pressão, mas o futebol é assim. Eu também vivia sob muita pressão aos 15 anos, a pressão de estar sempre entre os melhores, de ter de ganhar… E pra isso, tinha de dormir bem, comer bem… Se impor a comer saudável é uma pressão boa, uma pressão que eu queria. A pressão ruim é essa que te obriga a ser o melhor do mundo. Digo a meus filhos que podem jogar sem ter que ser os melhores. Eu também não fui o melhor, mesmo que tenha tentado.”

O francês ainda diz que preferia estar apodrecendo debaixo da terra a perdir perdão ao otário do Materazzi (valeu Marko Mello) e faz questão de exaltar os times mais ousados e voltados ao ataque : “El fútbol es bonito cuando no se sabe nunca lo que va a passar”.

São raros uns caras tão admiráveis como o Zidane em campo, talvez a falta dessa ideologia do sucesso e de demostrar sucesso tenha a ver com isso. O francês argelino é um dos jogadores mais completos da história  e sempre mostrou uma atitude porreta fora do campo também, mesmo abrindo a boca tão pouco pra falar sobre as coisas.

Representa o futebol europeu e os imigrantes na Europa,  joga um futebol parecido com o brasileiro e foi o maior carrasco da seleção, tudo numa pessoa só.  Zidane é foda, foda mesmo.

Qualquer um que acompanha o Guaci já sabe que o Rafa é nosso ídolo. Se já não bastasse as histórias em quadrinhos cada vez melhores, as esculturas, instalações e traquitanas, ele ainda tem muito a falar sobre futebol e arte.

Por causa disso ele produziu uma série de vídeos sem som em que explica a relação entre gênios da pintura e da bola, sem saudosismo e nem caretice – como sempre, diga-se de passagem. Vale a pena assistir tudo, inclusive vale a pena ver tudo que ele faz (a página dele no YouTube tá demais):

Romário é Mondrian

Rivaldo é Courbet

Zidane é Velásquez

Lionel Messi é Wilhelm Sasnal

E, de brinde, uma entrevista com o Rivaldo, também indicada pelo Rafa.

2010 é ali, ó!

2009 está chegando ao fim e eu me mudei de cidade mais uma vez. Vida nova de novo. O Guaciara deu uma desaparecida nesse final de ano por causa da correria geral do seu staff.

O Joaquim acaba de assumir como editor da prestigiada Novos Estudos do Cebrap. O Tiago, além de continuar com suas aulas na faculdade, tá mandando brasa em uma curadoria grande e também tá cheio de trabalho. E eu estou em Brasília, desenvolvendo um projeto bem legal no Ministério da Cultura.

Deixo esse momento “meu querido diário” de lado e passo ao que interessa. O Guaci em 2009 não dormiu no ponto e falou um pouco sobre tudo: crise financeira, os ataques israelenses, a eleição de Obama, os 100 anos da morte de Darwin, Brasil, a escalada reacionária e sem noção na imprensa, política cultural, Internet, democracia, artes visuais, cinema, música, pensamento, quadrinhos, cidades, meio ambiente, pornografia, Pouso Alegre, São Paulo, Brasília, Olímpiadas no Rio e até previmos a ascensão do Adriano.

2010 já tá aí e vai ser um ano pra se repensar profundamente o Brasil. Primeiro por que é ano de eleição e Copa do Mundo e nos dois assuntos o Brasil vive um momento de transição. Na África do Sul vai ser a primeira vez que essa geração capitaneada pelo Kaká e Luís Fabiano assume de fato a liderança da competição.

Além disso, e o primeiro mundial em muitos anos com a presença de todas as seleções campeãs, só pra melhorar os jogos acontecem em um dos países mais fascinantes politicamente do mundo. A batata vai assar e eu acho que a competição tem um significado simbólico muito profundo.

E se nos campos a coisa tem um significado simbólico enorme, nas eleições essa simbologia é ainda maior. As eleições presidenciais fecham o ciclo da redemocratização de vez e colocam o Brasil no rol das democracias estabelecidas. 16 anos sem ruptura institucional e com avanços incontestáveis no sistema democrático e na sociedade.

Nenhum dos candidatos tem o carisma e o apelo popular de Lula e até agora não mostraram uma agenda que avance muito em seus programas. É hora de muita conversa sobre o país. E acho que, se a oposição esquecer o discurso do mar de lama e se abrir para conversar sobre o Brasil de fato, muita coisa legal pode acontecer.

Na minha opinião, é hora de se institucionalizar as iniciativas sociais e culturais. Para isso acho que dois nortes comemorativos podem servir de exemplo.

O primeiro é Joaquim Nabuco.  Se o ano passado o Brasil matou saudade dos 100 anos sem Villa-Lobos e Euclides da Cunha, em 2010, é hora de celebrar a genialidade deo escritor, político e abolicionista, que morreu em 1910.  Acima de qualquer coisa, Nabuco foi um defensor dos escravos e um dos maiores articuladores da Lei Áurea.

Além disso em sua obra, é o primeiro a defender a escravidão como um sistema que nos define socialmente, como centro da economia brasileira. Ao contrário dos seus companheiros românticos – e aqui cito um excelente post de Alex de Castro sobre o tema: “os oitocentistas faziam suas auto-críticas do Brasil, os maiores problemas eram vistos como sendo provincianismo, patriarcalismo e patrimonialismo.”Joaquim Nabuco, em O Abolicionismo (1883), é um dos primeiros a arriscar uma interpretação total do Brasil colocando a escravidão no centro de sua análise, como o fator constitutivo do país. Até então, como notou Ricardo Salles (NI, 139), quando os oitocentistas faziam suas auto-críticas do Brasil, os maiores problemas eram vistos como sendo provincianismo, patriarcalismo e patrimonialismo.”

Falo dele por que acho que a maneira como a elite trata a questão da superação da desigualdade social e do racismo no Brasil  evoca uma das frases mais importantes do pernambucano: “A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil.”

O embate entre esses pontos de vista ainda continua muito presente na sociedade brasileira e a superação desse dilema é, sem dúvida, a discussão mais forte sobre o Brasil.

Outra data comemorativa (odeio a palavra efeméride) significativa são os 50 anos de Brasília. A discussão da superação das desigualdades regionais e do posicionamento do Brasil internacionalmente são dois assuntos que tocam diretamente nos debates de 2010.

Outra coisa diz respeito ao modelo de cidade que as pessoas querem, as apostas no carro foram concluídas em desastre urbano em São Paulo no final do ano. E acho que é mais que hora de o país repensar suas políticas de infra-estrutura urbana e de transporte. A reflexão sobre Brasília é um ótimo momento para isso, ainda mais com os escândalos de Arruda e Paulo Otávio, que trabalham em favor da especulação imobiliária e da falta de critérios de expansão urbana.

Em 2010 vem muita alegria, curtição e coisa boa. Mas o bicho vai pegar. E acho que a gente já pode começar a conversa agora. Muita coisa boa pra todos que nos leem.

A escolha do Rio de Janeiro para sediar os jogos olímpicos de 2016 fez algo que apenas uma semifinal de Libertadores entre América-MG e São Paulo seria capaz: dividiu as opiniões na redação d’O Guaciara. O mau humor partiu de mim; quem quiser checar aí ao lado os meus tweets sobre o assunto vai ver que a história me tirou o sono na última sexta-feira.

Como temos sete longos anos para discutir esse assunto – eu vou ter quase quarenta anos quando rolarem as olimpíadas, e nem sei se terei pique de ir lá conferir – quero apenas começar a discussão apresentando alguns motivos para eu ter sido contra, desde o início, a candidatura do Rio e, mais ainda, a escolha da cidade como sede.

Nuzman: rindo à toa.

Nuzman: rindo à toa.

Antes de mais nada, deixa eu tirar algumas coisas do caminho. Correram por aí várias contra-críticas, por assim dizer, àqueles que não ficaram contentes com a decisão do COI. Não acho que se apliquem a mim. Ou pelo menos espero que não:

  1. É coisa de paulistano idiota, com inveja do Rio: Sou paulistano de criação, e em várias situações ajo como idiota. E tenho inveja do Rio, ou pelo menos de quem mora lá. Mas não acho que as três coisas se juntem na minha cabeça para me despertar esse incômodo com as olimpíadas. Minha crítica, se me permitem os cariocas, é fruto de meu amor pelo Rio, e pela tristeza que eu sinto com a condição daquela cidade, condição que só vai piorar com os jogos;
  2. Ser contra as olimpíadas é ser contra a política externa do governo Lula e, por extensão, contra todo o governo e  contra o próprio presidente: Votei sempre no PT, e nunca votei para outro candidato para presidente que não Luis Inácio Lula da Silva. E vou votar na Dilma. E depois, em 2014, ou 2018, vou votar no Lula de novo. E assim subsequentemente. Pago um pau para ele, e para o que o governo tem feito, ponto. Sou professor de ensino médio e me empolgo com as perspectivas que têm sido abertas para o segmento pelo Ministério da Educação; sou pós-graduando e me empolgo com o crescimento do incentivo à pesquisa no país, e com a expansão do ensino superior. Sou Lula. Odeio o PSDB. E, de mais a mais: não acho que a vitória em qualquer instância internacional seja relevante e mereça ser comemorada. Sei o quanto as olimpíadas foram simbólicas e politicamente relevantes no século XX (Hitler; Guerra Fria); desconfio disso no século XXI, principalmente depois das olimpíadas de Atenas. Elas são hoje muito mais um imenso circo multi-bilionário. E uma arapuca urbanística.
  3. Ficar contra as olimpíadas é se juntar ao Estadão, ao Reinaldo Azevedo, a todos os panacas que aproveitam qualquer coisa para propor um golpe de estado: Bom, se o argumento vale, os a favor das olimpíadas não estão em melhor companhia. A lista é longa, vou mencionar só alguns: Carlos Arthur Nuzman et caterva; Eduardo Paes et caterva; Joseph Blatter et caterva; Galvão Bueno, et caterva, isto é, e as organizações Globo; todo os representantes do setor imobiliário e de transportes do RJ; etc.

Agora passemos a algumas coisas mais relevantes. Eu acho que as olimpíadas são um péssimo negócio para a cidade do Rio de Janeiro. Não foi à toa que em Atenas, em 2004, os jogos enfrentaram oposição popular e, em Chicago, a candidatura da cidade foi bastante criticada e combatida por ONGs, associações de moradores, blogs. Desde 1964, apenas uma cidade teve lucro líquido com seus investimentos para o evento. Claro, a ideia é que o retorno seja de longo prazo, e não apenas considerando quanto dinheiro tem na caixinha logo depois da cerimônia de encerramento. Mas mesmo os efeitos de longo prazo são pequenos, quando não nulos. Vejam uns exemplos, retirados de um panfleto online do movimento de Chicago contra as olimpíadas, e tomam como base as experiências com olimpíadas desde a de Tóquio em 1964:

  • Olimpíadas não geram empregos, a não ser, claro, os temporários; todo o treinamento recebido pelos funcionários e voluntários acaba servindo, depois, para absolutamente nada;
  • Os equipamentos esportivos acabam ociosos e sem manutenção. Não dão início a escolinhas, muito menos a uma política esportiva. Não atraem nem turistas nem geram empregos.
  • Os efeitos sobre o turismo são negativos: diminuem o fluxo de turistas um ano antes e dois anos depois dos jogos, em média, em 10%;
  • As olimpíadas acabam gerando o fenômeno urbanístico de gentrificação, encarecendo os aluguéis das áreas ocupadas por estádios e vilas olímpicas. Atlanta foi o maior exemplo. Chicago teria destino igual. Morei sete meses nas imediações do parque Washington (área imensa no sul de Chicago que receberia grande parte da estrutura para o evento), de maioria afro-americana, com nível de renda misto mas tendendo ao “duro”: dá para imaginar como os negros pobres seriam tratados na Johannesburgo norte-americana (a expressão é deles) – basta ver como andam os preparativos para a Copa na África do Sul;
  • As olimpíadas “deslocaram” – expulsaram de sua moradia – 20 milhões de pessoas nos últimos vinte anos;
  • Invariavelmente, as olimpíadas dão início a uma blitzkrieg contra pobres e moradores de rua, criando um verdadeiro estado de exceção. Zonas da cidade são praticamente fechadas a quem não tiver ingresso, as ruas são socialmente higienizadas e a polícia passa a agir com truculência animalesca contra os não convidados para a festança de gringo que vamos montar.
  • No fim, o povo brasileiro vai assistir embasbacado americanos e chineses paparem todas as medalhas, e vamos lamentar mais uma vez a falta de política esportiva no país. Muita gente que eu conheço está proibida de dizer isso perto de mim desde já.
Protestos contra as olimpíadas têm sido recorrentes, ainda que abafados pela imprensa e pela empolgação do público de classe média

Protestos contra as olimpíadas têm sido recorrentes, ainda que abafados pela imprensa e pela empolgação do público de classe média

No final das contas, as olimpíadas são um grande evento, para usar uma fórmula antiquada mas grandiloquente, do casal Estado-Capital. Não é festa do povo. Atenas, e em certa medida Chicago, foi a prova de que, no século XXI, a política está na resistência de movimentos sociais e da esfera pública contra a violência estatal e a exploração capitalista, e não mais na promoção arqui-fascista da Nação para o deleite do resto mundo.

*

Ainda espero voltar ao assunto. Alguns tópicos me parecem importantes: primeiro, a persistência de um modelo de administração municipal neo-liberal que trata cidades como marcas a serem vendidas e divulgadas, e não como local de moradia, trabalho etc, e acima de tudo, como espaços de reprodução da desigualdade; segundo, a aposta, igualmente persistente, no modelo de desenvolvimento urbano questionável e problemático adotado por Barcelona, e que incluiu como estratégia central sediar as olimpíadas.

Recomendo, ainda, a leitura de dois artigos breves de David Zirin, colunista de esportes da revista americana The Nation: “Olympics in Chicago” e “The great olympic scam“. Olha a ironia: a favor das olimpíadas, toda a grande imprensa, inclusive os representantes do PIG; críticos das olimpíadas, a imprensa tradicionalmente de esquerda. Dá para ficar com uma pulga atrás da orelha, não?

                     

Havia prometido um post sobre o jogo do coelho em seus detalhes, mas acho que o Tiago já detalhou bem as emoções da partida em seu comentário. Sei também que o blog anda numa velocidade de joaninha manca, mas é que chega uma época do ano em que tudo se complica. Já já voltamos àquele ritmo mais animado. Enquanto isso, eu cumpro tabela com esse post meio preguiçoso sobre o Coelho – que não merece preguiça alguma.

Apesar de estar sem tempo, faço questão de registrar que o jogo de domingo foi muito importante pra mim. Ser torcedor do América-MG sempre foi uma coisa de poucos na minha vida. Ainda menino em Pouso Alegre, falar sobre o time que eu torcia rendia algumas gargalhadas e uma longa explicação posterior.

Por isso que comemorar os 3 a 1 em cima do Brasil de Pelotas teve um gosto bem especial pra mim. A sensação de estar em meio a um número bem grande de pessoas que sempre viveu com esse estigma da minoria, ainda mais em um jogo que virou celebração, tem um pouco de terapia em grupo, um pouco de festa de família.  

Primeiro pela raríssima oportunidade de me congraçar com mais de dez mil pessoas que como eu têm no time um referencial do que é futebol. E mesmo sem títulos ou participações expressivas em campeonatos recentes, é impressionante a devoção e a alegria com que o torcedor do Coelho torce pro seu time. O sentido é sempre muito familiar. A ponto de grandes craques da história do clube, como o goleiro Milagres estarem no meio da arquibancada, puxando a torcida no grito:

“VAMO SUBIR COELHÔ!”

Apesar de tudo, deu pra ver que as coisas mudam. Existe uma torcida hoje que rejeita esse estigma de time menor ao Coelho. São pessoas que exigem da diretoria uma postura mais firme em relação ao clube e que querem as maiores conquistas, querem que o time cresça. Acho que isso tem muito a ver com a Internet. Os pontos de contato eram poucos antes das redes sociais. Muita gente da torcida participa de comunidades no orkut e milita pelo time nesses canais. O que é muito legal. Tentam mostrar a torcida pra uma diretoria que muitas vezes só se fechava para poucas pessoas.

Se na política essas redes sociais já servem como um paradigma, acho que nos times de futebol, mais do que nunca, elas vão se tornando um componente necessário depressão e mobilização. Pra quem acompanha a Série C do brasileiro, hoje o melhor canal de notícias é o orkut e o YouTube. E os melhores repórteres e comentaristas são os torcedores. Não existe melhor cobertura.

Qual vai ser o resultado dessa participação do torcedor on-line na história do América, só o tempo vai dizer, mas nesse jogo foi emocionante estar junto de dez mil pessoas que tinham esse sentimento tão forte e uma identificação enorme com um clube. E que na Internet, reconstruíram e criaram uma memória sobre o time que estava guardada na cabeça de muitos torcedores que nem iam mais ao campo (muitos deles voltaram para o jogo contra o Brasil de Pelotas).

Como vocês bem devem saber, o torcedor do América não é daqueles que fica arrotando uma enciclopédia de títulos e nem o que se orgulha de ter a torcida mais fanática do Brasil. Além disso, não tem nenhum apreço com intolerâncias ou torcidas volentas. Pelo contrário faz questão de ser gente fina, como foi com a torcida do Brasil de Pelotas no domingão. 

O Coelho é uma curtição em nossas vidas e torcer pro América é participar dessa festa. Acho que se o clube mantiver o Givanildo como técnico, o time vai dar trabalho. É uma pena que o Independência vai estar em obras em boa parte do ano que vem, mas seja onde for, não vai faltar festa verde, preto e branca no ano que vem. Tô botando fé. Enquanto isso, curtam algumas belas imagens do estádio nesse jogo emocionante de domingo…

A bela Avacoelhada

A bela Avacoelhada

Para a maioria dos brasileiros, o Campeonato Brasileiro  está chegando ao meio. Só agora as coisas começam a se definir. Terminados os outros campeonatos e a temporada de demissões e contratações, é hora  de ver quem serão os  candidatos ao título e quais os times vão ter estrutura pra aguentar o tranco pesado do Brasileirão.

Eu que sou torcedor do Coelho, também conhecido como América Mineiro, vivo momentos de decisão. A euforia deve ser parecida com a do sujeito que tá pra entrar em liberdade condicional. É que o meu time, nesse domingo, enfrenta o Brasil de Pelotas (RS) pelas quartas-de-final da Série C do Brasileiro. Se ganhar, o time volta a figurar na classe média do futebol verde-e-amarelo, a Série B.

Há dois anos atrás, o Coelho mergulhou no poço mais fundo de sua quase centenária história, além de despencar vergonhosamente para a Série C do Brasileirão, o time caiu pra segunda divisão do Campeonato Mineiro.

Uma mistura de displicência e de administração que pensava o América pequeno (e que em muitos sentidos ainda pensa) foi convertendo o América de time médio para pequeno. Apesar de ser um torcedor pijamão do Coelho, confesso que temi pela extinção do meu time. Afinal é uma das tradições mais bonitas do lado paterno da minha família, é um orgulho que em muitos sentidos me faz me sentir muito autêntico e que mostra que futebol no Brasil vai além das quatro linhas.

Fora que na minha casa ser América sempre teve muito mais a ver com celebrar uma coisa comum a pessoas com quem eu tenho uma intimidade e uma simpatia enormes. Quando o time parecia que ia acabar, eu tremi e achei que alguma coisa muito triste poderia acontecer na minha vida, era como se um amigo muito querido – que eu via muito pouco, mas sempre lembrava em papos quase todos os dias – estivesse entre a vida e a morte.

Por isso  o jogo desse domingo é tão importante. O Coelho não está mais moribundo, mas ainda está baqueado e acho que essa vitória pode ser o primeiro passo pra que o América deixe de ser só o time que revelou tantos craques para o futebol brasileiro – como Tostão, Éder Aleixo, Palhinha, Euller, Alex Mineiro, Gilberto Silva e Fred.

Muito antes do Brasil se tornar um mero fornecedor de craques para a Europa o Coelho tinha se reduzido a um fornecedor de ótimos jogadores para times do Clube dos 13. A triste história começa em 1963 quando Tostão partiu do América com 16 anos e foi fazer história no Cruzeiro. Ninguém sabe o que seria da história do futebol brasileiro se Tostão tivesse ficado.

Pra conseguir o passe do jogador, o diretor do Cruzeiro, Felício Brandi, chegou atrasado mais de uma hora ao próprio casamento só para concluir a contratação.

O América é um time muito mais legal que isso. Coloca na letra de um dos seus hinos que “sua torcida feminina é demais” (e é mesmo) e que o time mantém “seu espírito esportivo, social e cultural”. Ous seja além de torcer para um baita time, o torcedor americano ainda ganha curtição de sobra com sua torcida.

Por isso, nesse domingo eu farei o possível e o impossível para estar no Independência e torcer pelo meu querido Coelho! Acho que poucos times e poucas torcidas merecem tanto essa vitória.

Segue o hino original:

Bruce Nauman sem palavras

Bruce Nauman sorri

Sem muita pressa de postar algo mais substantivo, coloco aqui outros endereços com boas da internet. Um dos meus atletas favoritos fez bonito ontem. Alguns trechos já estão no You tube.

A discussão sobre o blog da Petrobras pega fogo aqui, aqui, aqui, aqui e aqui. O site me deixou entusiasmado e acho que as equipes de reportagem têm uma questão nova para lidar. O resultado será bom. Não dá mais para ser preguiçoso. Acho que existe algo ludista em pensar a reação da empresa como um ataque à imprensa.  Hoje a noite, Sérgio Gabrielli, diretor da empresa, estará no estatal Roda Viva.

 Nas semana passada, li artigos muito bons na rede. Deixo-lhes alguns: Aqui, Maria da Conceição Tavares interpreta a crise financeira. Descobri o texto no ótimo blog do José Paulo Kupfer. Ao visitar outra biblioteca, encontrei um texto do Fredric Jameson que eu não conhecia, um debate com o Jacob Gorender (que sempre me ensinou sobre aspectos da URSS) e uma entrevista esquisita com o Domenico Losurdo sobre a China. No fim, vemos que o que ele critica no Lênin é uma qualidade do bolchevique.

Aproveito que a Bienal de Veneza está na ordem do dia e posto o VVork, um dos sites sobre arte contemporânea que mais visito, um artigo sobre a artista Renata Lucas (que participa da mostra) e comemoro o Leão de ouro à Bruce Nauman (um dos maiores criadores vivos).

Para quem não quiser ler nada, veja esses dois vídeos com o chapa Steve Swell tocando. É muito bonito:

Nem preciso dizer o quanto é duro para mim, são-paulino chato e anti-corinthiano militante, falar sobre o assombro que tem sido o Ronaldo em campo. O segundo gol contra o Tricolor (paulista, para não me acusarem de bairrismo) me encheu de raiva, inveja e até – caraca – alegria. Ronaldo, vários quilos a mais, dando pique na frente do zagueiro e, com um tapa na bola, enchendo as redes do Bosco, vendido no lance. Parece até fácil. Por que o Washington não faz igual? Pô.

No jogo de ontem, foram cinco toques geniais na bola. A matada incrível, o chute certeiro. Um, dois. Depois, o drible (três), a ajeitada, tirando o zagueiro do lance (quatro) e o chute leve, cheio de efeito, a bola caindo mansinha atrás do Fabio Costa. Cinco.

No seu ensaio sobre o artista de marionetes, Henrich von Kleist fala do talento do artista de criar a impressão de naturalidade. Dois sujeitos em um banco de praça comentam o empenho exaustivo que o artista precisa dedicar para desenvolver a destreza suficiente para que o boneco se movimente com naturalidade. Quando o grande artista atinge a perfeição dessa técnica, o seu controle sobre o boneco fica invisível para o espectador. Ele some no mesmo momento em que se revela na sua forma mais aperfeiçoada. Acho essa ideia fundamental para entender a arte, e em especial a noção de estilo, tema que anda ocupando o Tiago. E acho que é isso também o que o esportista talentoso, assim como uma grande bailarina, que se torna senhor absoluto da sua modalidade, faz. Esses lances do Ronaldo me fazem pensar nessa capacidade de controle e leveza que todo grande artista tem.

Deve ser isso que chamam de sabedoria. A tranquilidade, dentro e fora de campo, a capacidade de se manter à tona num ambiente hostil a um sujeito que, como ele, não vê motivo para adotar a postura subserviente que parece ser exigida de todo ex-favelado.

Ter o Ronaldo de volta aos campos brasileiros dá o que pensar. Fica a impressão de que um ciclo se encerra. A Europa, e o mundo, vão demorar para ver de novo o padrão de consumo dos últimos quinze ou vinte anos, padrão que dava lastro aos salários estratosféricos e aos contratos de publicidade milionários que fizeram a fortuna de muito jogador pelo mundo. Acho que em especial a Espanha vai ver desaparecer esse mundo de fantasia que se montou em torno do futebol. E o futebol europeu vai perder o poder de atração, e seus clubes a hegemonia mundial, inclusive simbólica. E o futebol vai recuperar alguma coisa do seu romantismo.

É inspirador ver o Ronaldo jogando com os meninos do Corinthians. Parece que o cara achou a alegria que tinha perdido. Voltou a jogar bola, agora não mais o menino prodígio do Cruzeiro, ou o profissional jovem, premiado e milionário preso numa montanha-russa de vida pública ruidosa, lesões e polêmicas, mas o sujeito vivido, que já não tem que provar mais nada, e que está contente por estar de volta ao seu lugar.

Não fica difícil entender a angústia do Adriano. Em outra escala, o destino dele é muito semelhante. E talvez o jogador de futebol seja o único tipo de milionário que tem que aturar um ritmo de trabalho como o deles. Se o Adriano quiser o meu conselho, sugiro que ele fique por aqui. A gente lá no São Paulo toparia ter ele de volta. Ter de novo o Imperador daria uma amansada na dor de cotovelo que a gente anda sentindo.

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