Durante o fim de semana, troquei emails com meu pai e meus irmãos – é, em blog, às vezes, algumas das regras que garantem o bom senso jornalístico acabam suspensas, entre elas a confusão entre vida privada e debate público – sobre a crise grega. A troca resultou em comentários interessantes não só sobre o problema enfrentado pelos países da zona do euro, como também sobre a crise de 2008, suas causas e consequências. Juntei os emails e coloco aí embaixo, para contribuir com o debate.
A troca começou com uma pergunta que fiz ao meu pai, Joaquim Eloi, PhD em economia pelo Instituto de Tecnologia de Massachussets (MIT): a crise grega está mais ligada à farra fiscal (e é, assim, resultado de má governança interna) ou às armadilhas de uma união monetária (resultando de um acordo que se revelou prejudicial para o país)? Seguem aí os comentários.

Papandreou: Don't stop 'till you get enough. Agora alguém vai ter de limpar essa bagunça.
I. A crise grega, causas, soluções, lições (comentário de Joaquim E. C. de Toledo, economista)
Certamente, é uma boa pergunta, que me fez meditar mais um pouco sobre o assunto: a crise grega é consequência de políticas fiscais irresponsáveis, ou é resultado de uma ”armadilha monetária” criada pela adoção do Euro ?. Em minha opinião, há pelo menos tres perguntas a responder, efetivamente: a causa da crise grega; as restrições impostas por um regime monetário de moeda comum, não-nacional; e, finalmente, a solução viável para a Grécia.
Primeiro, a causa da crise grega. Será o Euro uma armadilha monetária, e a verdadeira causa da crise ? Não acredito. Afinal, a Alemanha também tem o Euro, mas seus títulos de dívida são vistos como de baixíssimo risco, e a Alemanha é o baluarte financeiro europeu. Quais as diferenças entre Alemanha e Grécia ?
Alemanha: estabilidade fiscal, com baixa relação dívida / PIB e déficits fiscais módicos; ojeriza por inflação; poupança nacional relativamente elevada; salários reais subindo em linha ou até abaixo dos ganhos de produtividade; em consequencia de tudo isso, superavits externos em conta corrente, e elevada competitividade internacional da economia alemã.
Grécia: desequilíbrio fiscal crônico, com elevadíssimos deficits e dívida pública em trajetória claramente insustentável (mascarados por contabilidade “criativa” e fraudulenta); baixo nível de poupança nacional; atividade econômica estimulada por consumo público e privado, viabilizados por endividamentos explosivos; pressão de demanda / atividade gerando aumentos de preços de “non tradeables”, ou seja, aumentos de salários reais (o trabalho é o non-tradeable por excelencia…) muito além dos ganhos de produtividade, reduzindo cada vez mais a competitividade da economia grega; em consequencia, elevados deficits em transações correntes e crescente dependencia de fluxos de capitais externos.
Assim, a crise grega é o que é: grega… .
Segundo, as restrições impostas pela ausencia de uma moeda nacional. São basicamente tres: não há poder de emissão; não há política monetária independente; não há a possibilidade de desvalorização / depreciação. Sem o poder de emissão e com o governo se endividando (em moeda “externa”, por definição), há sempre o espectro da moratória, mesmo quando há a capacidade e a vontade de pagar: a moratória pode ser deflagrada por uma crise de liquidez. Sem uma política monetária independente, não há a possibilidade de se recorrer à combinação de juros reais baixos e inflação como forma de reduzir o custo da dívida e torná-la sustentável (ou seja, sem a necessidade de uma moratória explícita). Finalmente, sem a possibilidade de mudar a taxa de câmbio, a mudança de preços relativos entre tradeables e non-tradeables (leia-se a redução de salários reais) tem que ser feita com deflação de preços e salários nominais: ou seja, ao invés de subir um preço (a taxa de câmbio), é preciso reduzir muitos milhões de preços… (e a deflação ainda por cima aumenta o custo da dívida, agravando enormemente o problema).
Terceiro, a solução. Acho que requer a combinação de tres coisas: mudanças fiscais, com redução do deficit (através de uma combinação de cortes de gastos e aumentos de impostos); reestruturação da dívida pública, com forte redução compulsória de seu custo; e, finalmente, o abandono do Euro e a criação de uma moeda nacional, que óbviamente será acompanhada por depreciação e inflação (especialmente de tradeables). A nova moeda tem que ser introduzida com uma reforma monetária que mude todos os passivos do sistema financeiro na Grécia, bem como de empresas e pessoas físicas, para a nova moeda, de forma compulsória.
Em tese, com um programa abrangente, a economia grega poderia minimizar o impacto recessivo do ajuste fiscal com o aumento da competitividade externa e, logo, com o aumento das exportações líquidas do país. Os custos do ajuste serão divididos por muitos: credores internacionais e domésticos, os que vivem no ou do setor público, capitalistas domésticos (maiores impostos), e trabalhadores (menores salários reais).
A crise grega tem lições para nós. Primeiro, mostra o acerto das medidas tomadas nos governos FHC: refinanciamento de dívidas de entes sub-nacionais (estados, municípios, empresas e bancos estatais) pela União (que tem o menor custo de endividamento); rígido controle do endividamento desses entes; Lei de Responsabilidade Fiscal, para evitar deficits insustentáveis. Segundo, mostra o erro do governo FHC, ao permitir a ocorrência de elevados deficits externos, com forte apreciação cambial, devido ao “boom” economico no início do Plano Real. Terceiro, mostra o risco das políticas do governo Lula, que estimulam fortemente o consumo (reduzem a poupança), apreciam a taxa de câmbio (elevam de modo não sustentável o salário real, reduzindo a competitividade externa da economia), e geram elevados e crescentes deficits em transações correntes.
II. Otimismo e leniência (comentário de Marcelo Gaspari C. de Toledo, economista)
Concordo com todos os pontos e adicionaria um fator a mais que vem da economia comportamental: o otimismo exagerado e a leniência nos tempos de boom.
Peguem qualquer paper que tenha sido escrito três anos atrás e vocês verão que só se falava da maravilha da convergência entre o centro e a periferia da Zona do Euro. Muitos diziam que a inflação mais alta na Grécia e decorria de uma convergência da produtividade – a produtividade na Grécia supostamente era baixa e estava crescendo em direção à dos países mais avançados dentro da área comum. Agora sabemos que não era isso – foi uma convergência de taxas de juros que levou a um boom de crédito do centro para a periferia, inflado pela poítica do Banco Central Europeu (BCE) e da insistência da União Européia em querer fingir que todos os países do euro eram iguais.
Foi o mesmo nos EUA: agora todo mundo fala dos absurdos do subprime, das inovações financeiras perversas etc, mas à época, era uma verdadeira maravilha celebrada por todos: os mercados estavam conseguindo que as pessoas com renda relativamente baixa comprassem imóveis.
Foi o mesmo na crise asiática, foi o mesmo com o México que, na década de 70, gastou o petróleo antes da exploração.
Foi o mesmo em Dubai – que agora está reestruturando sua dívida.
Foi o mesmo na Irlanda – o “Tigre Celta”, até pouco tempo (aqui, a experiência recente de um baixo padrão de vida recente fez com que a sociedade topasse com maior facilidade o aperto de cintos de agora).
É a frase já batida do cara do Citi: “quando a música está tocando, todos continuam dançando”.
A história está repleta de casos de quebra de uniões monetárias. Uma recente – da Rep. Tcheca e Eslováquia em 1993-1994 – nos dá uma boa idéia de que isso pode acontecer, sim. De fato, surfando na crise, tinha gente (claro, os que estão apostando contra) espalhando a mentira de que a Alemanha iria pular fora do euro.
III. Mercado financeiro, regulação e direitos (comentário de Joaquim Toledo Jr.)
Eu acrescentaria o seguinte: além de possível capitalização política populista da história das hipotecas, crédito imobiliário etc, quem estava radiante com os novos mágicos produtos financeiros eram, evidentemente, os bancos, que garantiam o retorno imediato de operações nebulosas com a cobrança de taxas e mais taxas. isso garantiu não só o papel fantasioso de permitir que famílias comprassem casas, ou casas maiores – até perderem-nas pro novo credor – mas também que os bancos garantissem, independente da viabilidade real das operações, retornos vultosos.
Até a Newsweek acha que a Goldman Sachs, por exemplo – que desempenhou papel importante na crise de 1929 (na geração da crise, bem entendido) – só serviu no último século para criar e estimular bolhas no mercado financeiro. Nos anos 1990, depois de décadas na encolha, o banco retornou e foi protagonista da bolha da nova economia, .com.
Por isso o que precisa ser feito é 1) reduzir o risco de moral hazard, impedindo que banqueiros se sintam à vontade para trabalhar de forma incompetente, na certeza de bailouts generosos; 2) lembrar que transações entre indivíduos privados – pessoas e bancos, por exemplo – precisam ser regulamentadas segundo princípios jurídicos que em outros casos são aceitos de forma natural: impedir que as pessoas sejam expostas, contra seu conhecimento, a riscos e, principalmente, que a obscuridade e complexidade do universo financeiro seja usada contra elas. A justiça, ou, se se quiser, o Estado, deve proteger os indivíduos comuns das más intenções do mercado financeiro, assim como existem agências que medem e controlam os riscos de produtos farmacêuticos etc.
IV. Fim de jogo (comentário de Demétrio Gaspari C. de Toledo, sociólogo)
Além dos problemas mais imediatos apontados por vocês, há que se levar em conta os problemas de fundo que geraram a crise. A dificuldade de lidar com a crise é que ela começou há uns 100 anos. Logo, reverter suas causas envolve, além de ações políticas e econômicas duras, viagens intertemporais em máquinas do tempo, desfazer o que está feito e coisas do tipo.
Em primeiro lugar, há que se reconhecer que a Europa é inviável demograficamente: os europeus estraçalharam suas populações em escala industrial duas vezes em um período de 30 anos (em ambas as vezes recorrendo também a métodos industriais – gases venenosos na I GG – graças ao desenvolvimento da indústria química alemã - campos de extermínio e bombas atômicas na II GG - aqui uma singela colaboração dos americanos com os alemães exilados nos EUA). Isso gerou uma estrutura demográfica em forma de ampulheta: uma base (crianças) larga, um centro minúsculo (quando causado por guerras, afetando sobretudo homens jovens – parte expressiva da força de trabalho e da capacidade reprodutiva de uma população) e um topo também largo.
Juntaram a isso taxas de crescimento demográfico 1) baixíssimas, ou 2) iguais a zero ou mesmo 3) negativas. Puseram em cima uma economia com índices radicalmente diferentes de produtividade (Alemanha numa ponta, Grécia na outra) e um modelo social em que a poupança de uma população economicamente ativa cada vez menor deve sustentar uma população economicamamente ativa cada vez maior – a conta não fecha.
Todos as análises que li deixam de fazer a pergunta que coloca no mesmo barco epistemológico a economia política, a sociologia política e as histórias de detetive: quem ganha com isso? Dizer que é o sistema financeiro é apenas meio verdadeiro: alguns poucos ganharão, muitos perderão. Quem ganhou e ganha com isso são as economias mais fortes da UE, Alemanha e França, que não por acaso (e muito menos por amor aos PIIGS) estão colocando dinheiro pesado e suporte político irrestrito no enfrentamento da crise. Essas duas economias se beneficiaram muito da união monetária e atualmente não conseguem ver motivos para desfazê-la – ou seja, Alemanha e França acham o futuro muito promissor. E os PIIGS, aliás, também – por sinal, eles ganharam horrores até ontem e não se tem notícia de ninguém ter reclamado.
É por isso que a Grécia não vai abandonar o euro – não por enquanto, porque ninguém quer, nem os países quebrados nem os que estão inteiros por enquanto, porque eles todos acham que podem ganhar com a união monetária, e a bem da verdade, até agora estão ganhando.
A grande dificuldade é que manter níveis de vida acima da renda ou esdruxulamente luxuosos e extravagantes (por exemplo, a Espanha, que não tem futebol, mantém uma liga milionária – um luxo que eles se dão mas pelo qual não podem pagar) via endividamento sem fim não é sustentável economicamente. Por outro lado, esse arranjo político do tipo “paraíso na terra” que muitos países europeus querem – tudo do bom (férias sem fim, 35, 30 horas de trabalho por semana, auxílio de retorno de férias, aposentadoria aos 60, futebol de alto nível em país de cabeça de bagre e perna de pau), nada de ruim (trabalhar, aumentar a produtividade, exercer responsabilidade fiscal, gastar dentro de seus rendimentos) – não vai ser facilmente deixado pra trás, compreensivelmente, uma vez que ninguém é bobo, a começar pelo cidadão comum. Mudar essa estrutura política, esse sistema de responsabilidades individuais e coletivas mútuas (do indivíduo com o coletivo e do coletivo com o indivíduo, modelo genericamente conhecido como welfare state europeu) vai ser muito difícil, e é por causa disso que a quebradeira final é apenas questão de tempo.
A crise ensina algo muito valioso: o cidadão comum precisa ser protegido dele mesmo. É preciso dizer a ele que sempre que alguém bater a sua porta com um maço de papéis que, em troca de umas merrecas suas, garantirão uma montanha sem fim de dinheiro, ele precisa soltar o cachorro em cima do safado. Agora, se convidou pra tomar um cafezinho pra ouvir a proposta com mais calma, aí, dançou. (Aliás, esses dias vi um golpe na tv em que o sujeito liga pras pessoas e oferece “uma viagem com tudo pago pra cinco pessoas pra assistir os jogos da seleção na cidade de Cairo, na África Central” – o sujeito só precisa pagar o IOF numa lotérica, “que este ano é de R$ 385,00″. Eu acho que isso deveria deixar de ser crime: levar o sujeito na lábia, sem violência – na verdade, em geral contando com a cumplicidade do otário no malfeito, ele também espertinho (pena que não o bastante…) – é mérito do contador de histórias).
Os gregos continuam achando que estava tudo uma maravilha antes da crise (e estava mesmo!), tanto que não querem que nada mude. Ignorância das regras do jogo não passa de cinismo. Como o Marcelo disse, enquanto a coisa ia bem, ninguém reclamava, era tudo uma beleza! O problema é que, por definição, alguém sempre perde. Querer o melhor dos mundos, o paraíso na terra, não dá: os benefícios da especulação sem os malefícios da especulação. Isso ainda não foi inventado.
O que nossa limitada percepção pessoal/existencial da história não nos diz, uma rápida olhada nos livros de história responde: “countries come and countries go”. Nada é eterno, tudo muda, inclusive a estrutura geopolítica. É apenas questão de tempo para que as atuais potências cedam lugar a outros países. Os gregos que o digam!!!
Por sinal, é bom que se diga: não existe convergência de níveis de desenvolvimento econômico, hipótese levantada por Solow – aliás, ele mesmo descobriu isso, vendo que a convergência só ocorria entre países com condições iniciais muito parecidas, o que levou os teóricos do crescimento econômico contemporâneo (por exemplo, a escola do crescimento endógeno) a falar em convergência condicional (isto é, condicionada a um estado inicial parecido/comparável). Os retornos são crescentes, e não decrescentes, para quem está na fronteira do crescimento econômico, logo, ceteris paribus, tudo continuará igual ou pior para quem está atrás, a não ser que o país tome para si a tarefa de reverter essa situaçã
Fernandinho e sua turma, todos muito mal-informados e pouco lidos, acreditam em convergência, tanto que quiseram e querem mexicanizar o Brasil com sua linda Alca. Pergunte pro Chaves (o do oito, não o Hugo), o que ele acha dos modelos de crescimento econômico com convergência, e ele vai te dar com a marreta biônica na cabeça: Tein!!!!!!!!!! Cale-se, cale-se, cale-se!!!! Você me deixa louco!!!!
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