Acho que já disse, aqui mesmo, e a idéia provavelmente não é minha, que depois dos 30 dá para começar a falar de si mesmo sem parecer muita afetação. Então vou aproveitar o aniversário do blog para uma breve egotrip.
Uma característica pessoal minha, que acho que nunca vai desaparecer – luto conscientemente contra ela há uns dez anos, com sucesso localizado e errático – é uma timidez e uma insegurança além da conta. De certa forma, com a idade a coisa simultaneamente melhora e piora: a gente vai se sentindo à vontade com algumas pessoas e situações (por incrível que pareça, por muitos anos fui professor, a profissão que me parecia menos recomendada), mas ainda assim fica o sentimento de fragilidade da nossa posição na vida em geral, uma impressão de que tudo está por um fio.
O resultado é ansiedade e uma certa mania de se esconder do mundo. Nunca me senti, nem acho que vá, totalmente à vontade com vários tipos de situações, e alguns tipos de pessoas. Lembro dos meus primeiros anos de faculdade, no curso de Filosofia da Universidade de São Paulo, em que a desenvoltura dos meus colegas me diminuía. Eles tinham lido tudo, entendiam tudo, eu não.
Mas foi lá mesmo que, por meio do meu irmão Demétrio, que fazia o curso de Ciências Sociais, fiz vários grandes amigos (eu não estava na minha época mais sociável, e me pendurava na turma do Demétrio – por várias razões, mas principalmente porque eles eram muito mais relaxados e boa-praça do que a maioria do pessoal do meu curso). Uma lista incompleta, injusta, inclui o Itaquê, Bugrão, Guga, e o Tiago.
Por meio desses caras todos, aprendi coisas importantes pracas: uma determinada postura diante da vida, principalmente, que era política mas também mais profunda, e envolvia um compromisso com as coisas e pessoas que estão em torno da gente, e com a alegria. Algo completamente diferente da abstração, profundidade e melancolia fingidas que pareciam ser o destino dos estudantes de Filosofia.
Por meio do Tiago conheci o Lauro. À época, eles eram muito parecidos – ou eu não havia aprendido ainda a perceber as diferenças, físicas e de temperamento, dos dois. Uma das primeiras coisas que eu ouvi do Lauro foi que ele sabia que precisava ser simpático com as pessoas desconhecidas que o cumprimentavam, pois podia ser um amigo do Tiago que, confundindo ambos, se ofenderia com outra reação. Não sei se aprendi a lição, mas entendi essa maneira de colocar a simpatia meio acima de tudo – acima do próprio desconforto eventual de ser confundido com o irmão, por exemplo.
Os dois me apresentaram (e a muita gente que conheço) muita coisa ligada à música, às artes, literatura, cinema, etc., além dos papos sobre política em que os dois sempre se envolviam de forma entusiasmada. A curiosidade incansável, e a generosidade dos dois, me apresentou todo um universo artístico e, de novo, uma postura diante dessas coisas: sem frescura, sem melancolia, sem caretice (o Rafa Campos [e o Alexandre Casatti, óbvio] é outro profeta dessa idéia sobre a vida). Com os dois curti as coisas mais cabeçudas e algumas das melhores noitadas da minha vida.
Para encurtar a história, o Guaciara e a turma que orbita em torno dele foram e são coisas que me ajudaram demais, e me ensinaram muita coisa, inclusive aquelas que têm a ver com a vida mesmo. Vira e mexe eu penso nesses acasos da vida que fazem a gente conhecer pessoas que são responsáveis por a gente levar a vida para um determinado caminho ou outro.
Acho que esse é o espírito que anima o blog, e que só num blog é possível. Num blog não tem disputa por prestígio, por estar certo, por ser mais lido, por ter mais espaço, etc. Sem auto-comiseração, eu às vezes me refiro a mim mesmo como “o policial loiro do Guaciara”. A piada é com o seriado de TV “CHIPS”, dos dois motoqueiros da polícia da Califórnia: todos lembram de Frank Poncerello, o policial latino, mas ninguém lembra do Joe Baker, o policial loiro. A culpa é minha, porque sou menos ativo mesmo (estou fora do top ten do blog, podem conferir). E a energia dos dois é, convenhamos, difícil de acompanhar.
Depois de passada a turbulência desse começo de ano, prometo voltar à ativa. Policial Joe Baker de volta à estrada.

Poncerello e seu parceiro Baker: "Vamos até ali tomar uma?"
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