Morreu ontem a noite quem talvez tenha sido o único ídolo do rock nacional que os adolescentes da minha turma, na minha cidade na época admiravam: O Redson.

Quando éramos novos, em Pouso Alegre, não éramos amigos dos meninos por estudarmos na mesma escola e nem mesmo por morarmos na mesma rua. Claro que tínhamos amigos lá e cá, mas a razão das amizades era outra. Era porque gostávamos das mesmas coisas e, mais que isso, detestávamos as mesmas coisas. Era todo mundo roqueiro, de extrema-esquerda e gostávamos do punk (que era ideia, não visual), das loucuras que conhecíamos na casa do Murilo, no Cinema moderno e nos discos que eram vendidos pela RÉR Brasil.

Por isso, detestávamos o rock nacional, heavy metal, cultura e tudo que fosse diboy.

Mas o Redson cantava no Cólera. O melhor grupo punk. Que era radcó, cantado em português paulistano, inteligível e com potresto. Todo mundo adorava.Os anos passavam, os discos do Cólera eram menos tocados e eu nunca mais escutei. Aliás, a maioria dos meus amigos também ouvia pouco.

Mas tenho certeza que ele animou muita gente a gostar de música no Brasil inteiro. Eu me sinto em dívida com ele. Por isso, uma singela homenagem.

Espero que a terra seja leve e o seu sono tranquilo.

Francis Alÿs: Paradoxo da Praxis I (As vezes fazer alguma coisa não leva a nada) 1997

 

2010 foi um ano intenso. Não bastasse a Copa do Mundo no primeiro semestre, seguiu a eleição e a Bienal de São Paulo no segundo. A primeira revelou uma extrema-direita raivosa e envergonhada do país que não só incomodou, mas me entristeceu. A pequena burguesia, os religiosos davam amostras diárias de ódio de classe, de raça e, sobretudo, uma intolerância nunca antes vista na história da Nova República.

A Bienal foi o oposto e me empolgou. Eu devo ter sido uma das pessoas que mais foi naquela exposição. Não trabalhava lá, mas a visitei quase todas as semanas, as vezes mais que uma vez. O legal é que estive com amigos dos mais diferentes lugares, formações e interesses. Conversei com gente que admiro muito, com os amigos com quem compartilho as minhas ideias, meus parentes que me ensinam a toda hora, sozinho.

Pensei muito sobre a mostra. É inegável que ela melhorou significativamente. Tratava-se de uma exposição de verdade. Apesar de críticas justas à exposição, sobretudo ao modo de mostrar artistas como Mira Schendel, Kosuth e a ausência de salas mais apropriadas para os trabalhos de parede, eu gostei muito.

O ano foi animado, ainda devo resenhas de trabalhos como o de Rodrigo Andrade, Anri Sala, Godard, Francis Alÿs e, fora da Bienal, Ana Prata, Marcellvs, Hirschhorn, Beuys (aliás, dá pra comparar o sentido da política nele e no Alÿs que daria caldo) e tantos outros. De show então, nem se fala. Ornette Coleman, Phil Minton e Han Bennink, John Edwards, não é todos os dias. Olha que eu queria escrever sobre os shows que perdi, especialmente os de Veryan Weston, Jello Biafra, Dinosaur Jr, Pavement. Perdi tudo, olha que legal. Comemoro sem ironia, é legal saber que estive ausente momentos importantes da vida dos amigos. Demonstra que a cidade é mais viva que eu.

Pra comemorar o começo das atividades no blog posto uma música da Laurie Anderson, o melhor show de 2008, sobre a origem do território e o mundo antes do mundo. É o mais belo libelo sobre a geopolítica contemporânea. Divirtam-se e feliz 2011.


The Beginning of Memory

There’s a story in an ancient play about birds called The Birds And it’s a short story from before the world began From a time when there was no earth, no land. Only air and birds everywhere. But the thing was there was no place to land. Because there was no land. So they just circled around and around. Because this was before the world began. And the sound was deafening. Songbirds were everywhere. Billions and billions and billions of birds…

And one of these birds was a lark and one day her father died.
And this was a really big problem because what should they do with the body?
There was no place to put the body because there was no earth.
And finally the lark had a solution.
She decided to bury her father in the back of her own head.
And this was the beginning of memory.
Because before this no one could remember a thing.
They were just constantly flying in circles.
Constantly flying in huge circles.

Segue um trecho do brilhante especial de natal do grande Rafael Campos Roha. Deixo o arquivo todo para baixar depois dos quadrinhos.

Com muito amor todos do Guaciara desejam o melhor natal a todos os leitores e amigos do blog.

o especial na íntegra

Mesquita na panfletagem

Mesquita na panfletagem

Tinha me esquecido como campanha eleitoral na rua cansa e faz bem. Nesse ano, meu pai, o Marcos Mesquita decidiu sair candidato a deputado federal (para quem quiser votar, o número é 1399). Ele é um quadro do PT sul-mineiro desde que eu me entendo por gente, foi vice-prefeito e secretário da Saúde (por duas vezes). Até semana que vem, eu devo escrever um post mais detalhado sobre a importância de se votar nele. Sou filho da fera, mas acho fundamental colocar uma figura dessas na câmara.

Um link recente do Lula falando sobre o Vinícius de Morais diz muito sobre as razões por que eu acho ele um bom candidato. Médico, músico, professor e político, o Mesquita é o sujeito mais democrático que eu conheço. Isso se reproduz no sorriso e na disposição de dialogar com todos. Não é  à-toa que é uma das pessoas mais celebradas e amadas que eu já vi (e isso vem de muito antes da candidatura). Mas deixa a rasgação de seda de lado, vou contar o que vi nesse feriadão.

A campanha dele passa longe dessas superproduções de parlamentares midiáticos e é bem modesta, sem profissionais com bandeiras ou panfletos. É composta essencialmente de militantes do Sul de Minas e de amigos. E é nesse quesito que ela é forte. Só a injeção de amizade que ele e todos os participantes da campanha recebem quando vão divulgar seu nome já valeu meu feriado inteiro (e olha que ele teve mais um monte de coisas legais).

Nesse 7 de setembro, eu me juntei às dezenas de amigos que foram as ruas divulgar a candidatura do Mesquita na avenida principal de Pouso Alegre. Uma multidão de mais de 10 mil pessoas se reúne ali para ver exército, polícia, bombeiros e escolas públicas desfilarem com suas fanfarras em ritmos monótonos e com pouca dinâmica.No geral, querem ver os tanques, helicópteros, filhos, sobrinhos, primos e netos que se mostram na  avenida.

Tinha gente de tudo quanto é tipo, fazendo campanha e assistindo ao desfile.  Por causa disso, uma panfletagem dessas faz você aprender muito sobre quais são as expectativas das pessoas em relação a política e por que pautar o debate só no que repercute pela Internet – pelo menos por hora – é muito equivocado.

Além disso, é o momento de vivenciar a democracia de verdade. São centenas de cabos eleitorais divulgando as mais diversas plataformas políticas e combinações partidárias (ainda mais em Minas onde o quesito diversidade de alianças ultrapassa bastante os limites imaginados por qualquer cientista político). E entre pessoas de saco cheio, outras receptivas, velhinhos que só querem bater um papo todo mundo pergunta (ou se pergunta) pra que eu vou votar nesse cara.

Os votos para deputado federal e estadual são os últimos a serem colocados nas ponderações dos eleitores brasileiros. Muitas pessoas votam com base em critérios fisiológicos. O Brasil ainda é um país de carências gigantescas. Na opinião de boa parte do eleitorado, o Estado é um´provedor que só aparece na época de eleições.  Mas muita coisa tá mudando e eu acho que o personagem Lula, suas políticas sociais, seu discurso de valorização dos mais pobres e a prática de inserção das pessoas em conferências locais, estaduais e federais alterou positivamente esse cenário, politizou as pessoas quanto aos seus direito e impôs políticas irreversíveis.

Mas fazer campanha na rua me trouxe algumas grandes lições na prática (com toda distorção que a pequena amostragem pode oferecer). A primeira conclusão é óbvia: quem fala mal do Lula na rua hoje em dia corre risco sério de tomar uns cascudos de desconhecido. O pessoal mais pobre defende ele e  “a mulher” (a Dilma) de uma maneira mais entusiasmada que os petistas.  É nessa hora que se percebe que a consolidação dela no eleitorado é bem mais forte do que pode parecer. A principal fonte de informação dos transeuntes que eu encontrei em Pouso Alegre no feriado é a TV. A internet como meio de informação ainda é uma coisa abstrata.

Mas a decisão desse eleitor não se dá pelas notícias veiculadas por essa ou aquela emissora, se dá pela comprovação prática de que a vida deles melhorou, que eles conseguem quitar sua casa, comprar eletrodomésticos e com uma identificação muito profunda com o presidente. A comprovação é do dia-a-dia. Informação mais poderosa que a experiência não há, já dizia Stanislavski.

Depois, é que as menções ao Serra nos materiais de campanha tucanos em Minas são raíssimas e queimam o filme. Em Pouso Alegre, em várias ocasiões me disseram que o FHC e o Serra abandonaram Minas Gerais nos mandatos deles. A derrubada do Aécio foi o golpe final e não é sem motivo que o candidato tucano hoje amargue rejeição recorde no segundo maior colégio eleitoral brasileiro (alguns divulgam algo acima dos 45%). O Dilmasia tem pegado fogo pelo interior e isso se soma às combinações mais esdrúxulas para um eleitor tão acostumado à oposição PT-PSDB. Em Minas Gerais tem aliança para todos os gostos.

Mas o mais importante de tudo, é que diferente da Internet onde tudo é super claro, nas ruas do interior mineiro é tudo mais matizado. Lá não existe esse anti-petismo babão e nem raiva do serrismo. Honduras, Colômbia, Venezuela estão muito distantes da vida do pessoal. As perguntas mais comuns sobre os candidatos a deputado são: o que esse cara vai fazer pra melhorar meu bairro, pra conseguir trazer indústrias pra cá, desovar a produção, arrumar emprego pro meu filho, arrumar um dinheiro pra mim e coisas do tipo. Para esse tipo de problema, a campanha lulista tem a comprovação da realidade como elemento. A de Serra e Marina não têm nada, nem um cenário de uma vida melhor.

A militância profissional que ganha para distribuir os panfletos acaba atuando nessa mesma chave: “vote em tal candidato por que ele me arrumou um serviço”. Ou então repete os chavões básicos sobre cada tema. Só militância comprometida é que tem a informação do voto na ponta da língua e nessas horas é fundamental gente comprometida com a campanha. É a hora em que uma estrutura como a do PT vira votos.

A campanha do Serra não faz comícios e raramente vai às ruas. Os militantes serristas  se reduzem a mandar spams por e-mail, morrem de medo de ir pra rua. Não é à-toa que desconhecem as aspirações dos eleitores e do país. Preferem pensar o governo a partir de editoriais estrangeiros e nacionais. Isso, sem dúvida, é o reflexo do enfraquecimento dos coronéis que se acastelavam no PFL. Eram esses os caras que davam alguma base de realidade nas campanhas antigas do PSDB, um partido que não desgruda do twitter. O caminho do buraco é certo.

Picape, a Greta Garbo das festinhas

Este blog está parecendo um obituário, mas dessa vez não dá para deixar passar.

Com quase 14 anos, uma amiga de todos nós se foi: a Picape. Ela foi a mais gentil de todas as cachorras. Embora não falasse, sabia ouvir e entendia um pouco mais de uma dúzia de palavras.  Além de comer, dormir e passear, curtia uma paquera. Sentava-se ao lado de quem ela gostava, dava a pata e fixava seus olhos no rosto de um humano querido.

Aliás, usava muito a pata dianteira. Para cumprimentar as visitas, para arredar seu prato, para ficar mais perto do meu pai, da minha mãe e da Eva (as pessoas que ela mais amou). Pegava comida da mão das gentes com delicadeza, tomando cuidado para os dentes não machucarem os dedos de quem lhe oferecia o que ela queria. Ela era grata e retribuía gentilezas.

Antes de morrer, quis ficar no seu lugar favorito: a sala onde os meus pais escrevem, estudam e preparam as aulas. Lá era fresco, sombreado e ela tinha a sua companhia predileta. Ficava debaixo de uma prateleira de ardósia onde o meu pai guarda alguns gibis da casa. Era a sua gruta.

Aliás, ela era um cachorro meio paleolítico. Sentia-se atraída pela sombra das tocas, por longos passeios e tinha fome ancestral. Com a velhice, seu gosto pelas aventuras e pela companhia de multidões diminuiu. Uma coisa não mudou, ela tinha pavor de ser fotografada. Enquanto a sua amiga mais jovem, a Cebola, é quase uma Gisele diante das câmeras, Picape se escondia delas. Uma Greta Garbo Canina. Para que este retrato fosse registrado, foi necessário perspicácia. Um segundo a mais e a cachorra fugia.

Morreu em um dia feliz na casa dos meus pais em Pouso Alegre. A casa foi dormir mais triste do que se imaginava. Mas a vida continua.

Uma pena a vida desses bichinhos ser tão curta. Para os donos, eles só propõem coisas boas: passeios, brincadeiras, comer e dormir. Talvez por sempre nos chamar para fazer tanta coisa boa, e por ter tanta personalidade, que nós lembramos deles como grandes amigos, do tamanho dos maiores amigos humanos que nós tivemos.

Como já disse o Jay, uma hora dessas ela está no céu dos cachorros, brincando com amigos dos amigos dela: Napoleão, Petra e Neném.

Acho que já disse, aqui mesmo, e a idéia provavelmente não é minha, que depois dos 30 dá para começar a falar de si mesmo sem parecer muita afetação. Então vou aproveitar o aniversário do blog para uma breve egotrip.

Uma característica pessoal minha, que acho que nunca vai desaparecer – luto conscientemente contra ela há uns dez anos, com sucesso localizado e errático – é uma timidez e uma insegurança além da conta.  De certa forma, com a idade a coisa simultaneamente melhora e piora: a gente vai se sentindo à vontade com algumas pessoas e situações (por incrível que pareça, por muitos anos fui professor, a profissão que me parecia menos recomendada), mas ainda assim fica o sentimento de fragilidade da nossa posição na vida em geral, uma impressão de que tudo está por um fio.

O resultado é ansiedade e uma certa mania de se esconder do mundo. Nunca me senti, nem acho que vá, totalmente à vontade com vários tipos de situações, e alguns tipos de pessoas. Lembro dos meus primeiros anos de faculdade, no curso de Filosofia da Universidade de São Paulo, em que a desenvoltura dos meus colegas me diminuía. Eles tinham lido tudo, entendiam tudo, eu não.

Mas foi lá mesmo que, por meio do meu irmão Demétrio, que fazia o curso de Ciências Sociais, fiz vários grandes amigos (eu não estava na minha época mais sociável, e me pendurava na turma do Demétrio – por várias razões, mas principalmente porque eles eram muito mais relaxados e boa-praça do que a maioria do pessoal do meu curso). Uma lista incompleta, injusta, inclui o Itaquê, Bugrão, Guga, e o Tiago.

Por meio desses caras todos, aprendi coisas importantes pracas: uma determinada postura diante da vida, principalmente, que era política mas também mais profunda, e envolvia um compromisso com as coisas e pessoas que estão em torno da gente, e com a alegria. Algo completamente diferente da abstração, profundidade e melancolia fingidas que  pareciam ser o destino dos estudantes de Filosofia.

Por meio do Tiago conheci o Lauro. À época, eles eram muito parecidos – ou eu não havia aprendido ainda a perceber as diferenças, físicas e de temperamento, dos dois. Uma das primeiras coisas que eu ouvi do Lauro foi que ele sabia que precisava ser simpático com as pessoas desconhecidas que o cumprimentavam, pois podia ser um amigo do Tiago que, confundindo ambos, se ofenderia com outra reação. Não sei se aprendi a lição, mas entendi essa maneira de colocar a simpatia meio acima de tudo – acima do próprio desconforto eventual de ser confundido com o irmão, por exemplo.

Os dois me apresentaram (e a muita gente que conheço) muita coisa ligada à música, às artes, literatura, cinema, etc., além dos papos sobre política em que os dois sempre se envolviam de forma entusiasmada. A curiosidade incansável, e a generosidade dos dois, me apresentou todo um universo artístico e, de novo, uma postura diante dessas coisas: sem frescura, sem melancolia, sem caretice (o Rafa Campos [e o Alexandre Casatti, óbvio] é outro profeta dessa idéia sobre a vida). Com os dois curti as coisas mais cabeçudas e algumas das melhores noitadas da minha vida.

Para encurtar a história, o Guaciara e a turma que orbita em torno dele foram e são coisas que me ajudaram demais, e me ensinaram muita coisa, inclusive aquelas que têm a ver com a vida mesmo. Vira e mexe eu penso nesses acasos da vida que fazem a gente conhecer pessoas que são responsáveis por  a gente levar a vida para um determinado caminho ou outro.

Acho que esse é o espírito que anima o blog, e que só num blog é possível. Num blog não tem disputa por prestígio, por estar certo, por ser mais lido, por ter mais espaço, etc. Sem auto-comiseração, eu às vezes me refiro a mim mesmo como “o policial loiro do Guaciara”. A piada é com o seriado de TV “CHIPS”, dos dois motoqueiros da polícia da Califórnia: todos lembram de Frank Poncerello, o policial latino, mas ninguém lembra do Joe Baker, o policial loiro. A culpa é minha, porque sou menos ativo mesmo (estou fora do top ten do blog, podem conferir). E a energia dos dois é, convenhamos, difícil de acompanhar.

Depois de passada a turbulência desse começo de ano, prometo voltar à ativa. Policial Joe Baker de volta à estrada.

Poncerello e seu parceiro Baker: "Vamos até ali tomar uma?"

Só ganha bolo quem vier me visitar em Brasília!

Já estamos atrasados em uns dez dias ou mais, mas, para quem não sabe, o Guaciara acaba de comemorar um ano de estadia na Internet! Como está escrito na nossa página explicativa, o blog começou num apartamento lá na Zona Oeste de São Paulo em que eu, o Tiago e o Joaquim morávamos.

O Tiago continua lá. Gente boa que escreve aqui como o Demétrio Toledo e o Ale Casatti também já morou nesse edifício maravilhoso e descontraído que tem o mesmo nome do blog, assim como o Marcos Gerez e o Edmundo Clairefont.

Teve muita gente (muita mesmo) que praticamente morou lá de tanto tempo que passava e ainda passa trocando idéia, matando o tempo, curtindo de montão. O mais bonito do Guaci é que sempre foi uma casa aberta onde as pessoas todas se encontravam. E eu acho que por isso que a idéia do blog deu tão certo. O procedimento é mais ou menos parecido: quem quiser entrar, entra; quem quiser falar, fala.

O Tiago nesse sentido é o cara que colocou isso muito forte pra gente. O fera não tem medo nenhum de defender as idéias dele e de mostrar o monte de coisas que ele adora conhecer por aí. Muita coisa que parece muito importante pra nós, às vezes nem tem tanta importância pro resto do mundo, mas não falta disposição dos três guaciáricos de mostrar isso pro mundo.

O Jay, desde que eu conheço ele, foi um dos caras que mais me mostrou coisas pra ler e apresentou idéias novas sobre o mundo. Sempre muito refletido e consistente.

E o Rafa Campos – o George Martin do Guaci – é um gênio, quanto mais conheço, mais eu sou fã.

Esse monte de gente é o que me deixa mais feliz no blog. O espaço reúne um pessoal massa que não deixa a cabeça parar de funcionar e de me mostrar coisas novas. Valeu todo mundo!

E só para a informação dos leitores, o top 10 dos posts mais lidos no ano :

1 Depois da Ditabranda…

2 Sala especial

3 Confetes

4 Picasso, Duchamp, Warhol e a idéia de transformação na arte moderna

5 Arte contemporânea japonesa, eros e a civilização no shopping

6 O ódio ao Brasil

7 Godard, Glauber e o Vento do leste, por Mateus Araújo

8 Copan, por Carlos Teixeira

9 Uma explicação da gripe suína, por Marcos Mesquita Filho

10 O ano Mira Schendel

Boa a lembrança do Fabiano para os vinte anos das eleições de 89. Lembro como essa eleição foi importante na minha vida e na vida da minha família. Tinha só onze anos e também “votava”. Acho que por ser uma novidade, na época, as eleições tomavam conta do imaginário de todas as pessoas independente da idade, classe social e origem.

Lembro que eu morria de raiva do Caiado com o cavalo branco, que queria matar o Afif  que comparava o Lula com o muro de Berlim na horrorosa “Pula-lá”. O engraçado é que em meio à campanha presidencial o marco que separava a Europa socialista e capitalista seria derrubado também. Adorava ver o Brizola espinafrando a Globo e era espectador da Rede Povo. Não é à-toa que a cena mais lembrada dessa eleição ainda é o debate Lula e Collor na Globo e a briga entre Maluf e Brizola em outro debate na televisão. Essa foi a eleição em que a TV começou a contar mais do que nunca na campanha.

Além disso, lembro de ficar um tempo sem ver meus pais que acordavam cedo e voltavam tarde. Minha mãe cobria a eleição para um jornal e um rádio de Pouso Alegre e meu pai aproveitava todo seu tempo livre para fazer campanha. Ia comer marmita na vizinha e passava o resto do dia curtindo com o pessoal da rua. Falando da eleição e do candidato que eu ia “votar”. A Playboy na época fez uma enquete em que cada um dos candidatos falava o que gostaria de ser e lembro que o Lula respondia que quando era criança queria ser caminhoneiro.

O lance das pesquisas até então, pelo menos pra um menino de onze anos, parecia uma coisa muito incerta. Eu não botava a menor fé e, mesmo sem parar muito pra pensar nisso, achava que o Lula ia ganhar, mas via que na minha escola ninguém ia votar nele.

Eu e meu irmão, mesmo sem blog e nem nada já quebrávamos o pau com meia cidade em defesa da Frente Brasil Popular. O meu pai passou na lojinha do PT em BH e comprou bottons, o Tiago quis um do Lenin e eu quis um do comunismo. Os coleguinhas alimentavam os resquícios da ditadura e diziam que a gente ia ser expulso da 5ª série por ostentar aqueles símbolos proibidos até outro dia.

Na escola todo mundo ia votar em alguém. Em minha cidade, essa primeira onda Lula passou um pouco longe. Apesar da mobilização que ela criou e do fortalecimento da esquerda na cidade, o resultado eleitoral foi bem fraco.  Lula ficou em quarto lugar (atrás de Collor, Maluf e Covas).

No segundo turno, a situação foi um pouco melhor mas só um pouco. Mas a escala nacional da campanha e a maneira como ela “pegou” em todas as cidades acabou levando um pouco da movimentação pelas Diretas também para as cidades menores. Se o Brasil preza tanto a democracia hoje e tem uma situação um pouco melhor do que os outros países da América Latina. Apesar do desfecho dramático – me lembro o tanto que praguejei depois da apuração, era inacreditável que um babaca da Globo tivesse ganho a eleição –, 89 fez um bem danado pro Brasil.

Escrevam suas lembranças e vídeos marcantes da eleição de 1989 também.

No dia mais importante do ano, uma homenagem a quem merece. Só músicas que ela gosta:

Muita gente famosa morreu nesses dias, alguns de talento superior. Se a dança perdeu Michael Jackson, o seu maior entertainer na semana passada, hoje ela viu ir uma de suas maiores artistas: Pina Bausch.

Pina Bausch em ensaio em Wuppertal

Pina Bausch em ensaio em Wuppertal

Os dois pensavam o movimento corporal como poucos, mas Pina Bausch, para mim, é um dos maiores símbolos da alegria de viver e de fazer o que se faz. Ela adorava o Brasil e esteve aqui várias vezes. Como eu sou besta, só a vi uma vez. O suficiente para cair de amores. Foi como da primeira vez que eu escutei The Fall ou vi uma tela do Picasso, me converti em um adorador com o pouco que conhecia.

Assim, se a morte de Michael Jackson me deixou perplexo pela tragédia que ele representava, a de Pina me deixou triste pela alegria que ela fazia questão de demonstrar. Tanta, que no carnaval desse ano, resolvi começar as comemorações com um lindo e tocante vídeo da Pina Bausch.

Em 2000, Caetano Veloso tentou falar de sua adoração de Pina Bausch, no fim falava de tudo, mas muito pouco de Pina. Começava o texto Aquela coisa toda assim:

Não sou dançarino. Já na estréia de Livro vivo, em São Paulo, eu deliberadamente fazia, num determinado momento, gestos repetitivos, maquinais-obsessivos, num estilo que muitos associam ao trabalho de Pina Bausch: era um aceno a essa artista que me apaixona.

E terminava de um jeito que parece ser muito verdadeiro:

E Pina Bausch? Lá vai Caetano, dirão, olhando para o próprio umbigo, escrevendo sobre si e sobre o que vai escrevendo sobre si. Mas não é. É que entrar em contato com uma artista grande como Pina é arriscar-se a passar por mudanças que requerem auto-reexame. Em outras palavras: a quem me dá a vida não posso oferecer nada menos do que isto: a minha vida.

O Caetano adora falar dele, mas nisso ele não poderia ser mais preciso. Então, melhor vermos a beleza da arte da Pina Bausch. Aqui, um lindo documentário de 2006 sobre a artista. Depois, sua dança:


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