A vala

No Brasil, cada vez mais, os conservadores e liberais vendem o case colombiano como uma revolução na gestão democrática. Para eles, que defendem o princípio dos direitos humanos fervorosamente quando o assunto é o Irã, a Colômbia é um modelo a se seguir. Mas pouco eles falam que o modelo do Plano bancado pelos EUA no país sul-americano é caro, pouco eficiente e, necessariamente, violento.

O Jay já falou disso tudo em seu post aqui. E todos demos algum pitaco nesse sentido. Mas uma notícia que o Marco Aurélio Weissheimer postou em seu RS Urgente mostra o quanto é aterradora a situação na Colômbia. Enquanto o carnaval midiático se concentrava no piti de Uribe em cima de Chavez, era descoberta uma vala comum com mais de 2 mil cadáveres em La Macarena, departamento de Meta, na Colômbia.

Segundo relatos do presidente do Comitê Permanente de Defesa dos Direitos Humanos da Colômbia, Jairo Ramírez, desde 2005, o Exército enterrou ali milhares de pessoas, sepultadas sem nome. Supostamente, seriam guerrilheiros mortos em combate, mas é tudo muito nebuloso.

É a maior vala comum da história contemporânea do continente latino-americano. Supera qualquer ditadura dos anos 70. A descoberta não foi divulgada na imprensa colombiana e só agora começa a vazar.

A presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Cilia Flores, já havia acusado, no dia 5 de agosto,  o Governo do presidente colombiano, Álvaro Uribe, de atacar seu país como “estratégia para tentar esconder o genocídio de La Macarena”. O discurso não era monopólio do governo do país adversário: a senadora colombiana Piedad Cordoba, outros parlamentares e ONGs dos direitos humanos já haviam acusado o governo Uribe de construir valas comuns para esconder o genocídio no interior do país.

Até a descoberta ser fartamente documentada, o governo da Colômbia negava a existência da vala comum e acusava pessoas como Piedad Córdoba de terrorismo. Ela e a população local de La Macarena (antes só conhecida pela coreografia mais dançada no mundo) mobilizaram uma delegação internacional composta por 10 dirigentes sindicais, 6 membros do Parlamento europeu, 3 membros do Parlamento britânico, 3 delegados da Espanha e 2 dos Estados Unidos que testemunharam e documentaram a vala comum em Macarena.

Como escreve o jornalista Patrick J. O’Donoghue, Uribe ficou bastante irritado com o diálogo da comissão estrangeira com os membros das famílias dos desaparecidos , em audiência pública organizada pelos senadores. Durante esse evento cerca de oitocentas pessoas de toda a região foram a Macarena contar que sofreram abusos das forças armadas colombianas.

A senadora Córdoba, há muito tempo, cobra informações de Uribe sobre o acontecido em La Macarena e sobre as demais infrações aos direitos humanos cometidas pela temida agência do serviço secreto colombiano, o DAS. São acusações de  espionagem ilegal em figuras públicas, assassinatos e investigação de contas bancárias de adversários de Uribe.

Uribe chama Piedad Córdoba de “inimiga da polícia de Segurança Democrática” e os euro-deputados que participaram da comissão de “porta-vozes para o terrorismo.” Para você ver o grau de dickcheneysse do sujeito.

Além disso, afirma que denunciar os abusos do exército colombiano é uma tática das Farc. O comentário, para a Comissão de Direitos Humanos da ONU, coloca a vida das vítimas que expuseram os abusos e o morticínio em Macarena em gravíssimo perigo.

Matéria no Huffignton Post mostra que existem denúncias de que os militares ocupavam casas e, em pelo menos uma denúncia, confundiam civis com membros da guerrilha. O caso de maior repercussão é o de Maria del Socorro Zapata, desaparecida desde 2007. Acusada pelos militares de fazer parte das Farc, seu corpo foi encontrado na vala comum em Macarena. Para seu marido, Dumar Zapata, que ficou impossibilitado por dias de entrar na sua casa e a encontrou toda destruída e cheia de manchas de sangue, a acusação é um absurdo.

De qualquer forma, mesmo que fosse do exército, a presença do corpo dessa mulher em uma vala comum indica um comportamento inaceitável do governo colombiano. A vala prova execuções sumárias, sem julgamento e sem nenhuma perícia. O argumento uribista é que são mortes de confronto. Mesmo assim, a vala comum destampa um fantasma que a direita brasileira não quer nem ouvir falar: as bizarrices cometidas pelo seu governo modelo em nome de uma guerra ao terror.

O terror continua presente na Colômbia (o lamentável ataque em Bogotá nos mostra isso). E isso não tem nada a ver com o governo reatar ou não com Chavez. Só prova que o Plano Colômbia é uma guerra cara e derrotada que enche os cofres colombianos de dinheiro para paliativos contra os reais problemas do país e deixa parte da população à mercê do tráfico, de guerrilhas, de paramilitares e de um exército violento e instruído para matar.

Uma notícia publicada por Daniel Castro em seu blog expôs a fratura do que vem sendo a gestão do governo paulista nos últimos anos. A matéria, negada pelo governo, indicava que a TV Cultura iria demitir 1,4 mil dos seus 1,8 mil funcionários,  desfazer de patrimônio e terceirizar a produção dos programas.

A notícia caiu muito mal no comitê de Serra e rapidinho, a chefe da campanha on line do tucano classificou a informação como “#jornalismomentira”. A coisa estava nebulosa até que a direção da Fundação Padre Anchieta emitiu um comunicado tão sinistro quanto a denúncia de Daniel Castro:

“Em face às recentes notícias publicadas sobre a TV Cultura, informamos que:

A TV Cultura é patrimônio querido dos paulistas e brasileiros, com um acervo de ótimos programas e vários artistas e jornalistas de sucesso que começaram aqui, mas que precisa se renovar. Perdeu audiência, qualidade e se tornou cara e ineficiente.

Esta é a proposta de renovação que a Administração levará ao Conselho da Fundação Padre Anchieta: a revitalização dos programas admirados, a modernização dos processos administrativos, bem como dos equipamentos, e contando com os talentos que a emissora possui e com a contratação de novos apresentadores e jornalistas.”

Só me atenho ao que está em negrito no comunicado. Quando a emissora perdeu audiência, qualidade e se tornou cara e ineficiente? É uma pergunta boa para se formular em qualquer debate eleitoral de candidatos para o governo de São Paulo ou para a presidência do Brasil.

Afinal, a coalizão que  apóia as candidaturas de José Serra e Geraldo Alckmin em São Paulo é quem controlou o governo do estado e a Fundação Padre Anchieta nos últimos 24 anos. Representantes dos governos Montoro, Quércia, Fleury, Covas, Alckmin e Serra estão todos no mesmo lado nessas eleições (no estado e na disputa nacional). Onde foi que a Cultura abandonou a excelência e se tornou um canal desinteressante até pra um sujeito que pleiteou e lutou para ser seu presidente?

Mesmo que a demissão em massa e a venda do patrimônio não se confirmem, a Fundação Padre Anchieta e o governo do Estado têm um sério problema a justificar. O maior deles é o problema com os funcionários da emissora.

No final de junho, o colunista de UOL Televisão, Flávio Ricco, disse que a nova presidência da emissora tinha pedido para cada funcionário apresentar seu crachá, assinar um papel e mostrar que existe. O objetivo da operação seria separar os funcionários que querem e precisam trabalhar dos que estão ali apenas para receber os seus salários no final do mês. Traduzindo para o português: a Cultura há muito tempo se tornou um cabide mais pesado que o guarda-roupa.

Como o ônus de se livrar da  Cultura (privatizando ou simplesmente fechando) é muito pesado, a emissora já está enxugando a programação e pretende exibir documentários e produções independentes sem tanto impacto. Para um canal que já foi campeão em prêmios internacionais no Brasil, a notícia aponta um sucateamento total da estrtura.

A persistência dos funcionários da emissora tem mais a ver com o período eleitoral do que com a falta de vontade de se livrar deles: a lei não permite que os funcionários com carteira assinada sejam mandados embora e o impacto eleitoral da notícia certamente não seria dos melhores.

A TV Cultura já havia sido acusada de ingerência política nas entrevistas de Gilmar Mendes e José Serra no Roda Viva e também na demissão de Gabriel Priolli em uma matéria sobre pedágios (o assunto que tira o sono do ex-governador paulista). Agora, até os comentários críticos do ombudsman da emissora são tirados do ar. A falta de critérios de cast e de independência jornalística já é um dos temas que dá combustível contra o tucanato.

O episódio reforça o centralismo ineficiente do grupo serrista (que já incomoda os aliados do PSDB na campanha) emostra a extrema aptidão dos governos tucanos de sucatearem instituições e venderem o processo como uma modernização inexorável. É quase um caso clássico: esperam a máquina estar podremente zoada, cortam-se os gastos linearmente e não fazem nenhum planejamento posterior sobre reestruturação. Em pouco tempo, o resultado é um instituição insignificante e sem utilidade. Nessa, eu concordo com o Luis Nassif:

Mas há anos São Paulo foi tomado pela síndrome dos cortes lineares de despesa. Não se enxergam organismos públicos como produtores de serviços de qualidade, como geradores de ideias, como instrumentos de desenvolvimento, mas apenas como centro de despesa.

Há que se ter responsabilidade fiscal. Mas o fiscalismo que tomou conta do Estado é emburrecedor. Todas as questões são resolvidas na base da tesoura, cortando simplesmente, sem pensar em alternativas. Ora, se um trabalho criativo, competente, aumentar a produção da TV Cultura e as receitas, mantem-se a responsabilidade fiscal e permite ampliar a oferta de produtos culturais.

Mas, não. É só o lado mais fácil, de cortar, vender, desmanchar.”

Além da Fundação Padre Anchieta, Fundap e a USP são dois exemplos claros do abandono dos sucessivos governos paulistas com o Estado.  O resultado é ponte que cai, estação de metrô que afunda e um estado com um potencial sem igual na América Latina que vai virando pó. Tudo isso com a conivência de uma imprensa que se recusa a noticiar criticamente as decisões de qualquer governo nas mãos do PSDB. A maquiagem permanente é mãe da piada grotesca abaixo:

A falta de comprometimento (da imprensa e dos governos paulistas) pode ter sérias implicações no país.

Eis que pra rebater um pouco da acusação que somos sectários e não damos a menor pelota para a direita, cito aqui um trecho muito interessante enviado pela newsletter (o tal Ex-blog) do César Maia, patrono do DEM e da nova sensação dos conservadores brasileiros, o deputado Índio da Costa.

1. A esquerda europeia está em declínio, uma vez que antes da crise não foi capaz de produzir soluções próprias, quando teve chance igual de fazer valer as suas idéias e corrigir os erros do capitalismo. É o caso da Espanha. Os socialistas no governo ficaram inicialmente paralisados, sem tomar medidas quando começou o declínio da economia e, em seguida, quando as tomaram, cortaram os benefícios sociais, o que parece um absurdo já que esse tema é uma de suas principais metas. A tributação dos mais ricos contribuiria para ajudar a preencher as lacunas e atenuar a injustiça das medidas de ajuste.

2. Ocorre, entretanto, que tudo ou quase tudo na história tem a sua lógica. A principal razão para esta falta de destaque da esquerda é que vivemos numa economia de mercado, sem substituto de hoje. Quando o sistema, quando vai bem, é eficiente, tanto que com ele, ainda que os ricos fiquem mais ricos, também permite o avanço do Estado de bem-estar social, tão importante para os sociais democratas.

3. Eles se esquecem que o sistema não é um paradigma de equidade, ou mesmo da racionalidade, tampouco de estabilidade. Os anos das vacas magras inevitavelmente chegam, resultando nos desequilíbrios que estamos sofrendo entre economia real e economia financeira, investimento e consumo, despesas públicas e incentivos do Estado, ajustes internos e globalização, problemas urgentes e melhorias em longo prazo, para além do conseqüente e grande desemprego que é o paradoxo do Estado de bem-estar social. E aí…

A teoria publicada pelo economista Francisco Bustelo, economista identificado com os socialistas espanhóis, no El Pais é antiga e atrela o sucesso de plataformas progressistas necessariamente a momentos de crescimento econômico, principalmente pela facilidade que esses períodos dão à ampliação de direitos trabalhistas e à expansão da rede de proteção social.

Segundo tal argumento, em situações de crise, os governos de esquerda respondem de maneira lenta e desajustada por que esses contextos demandam ajustes (e cortes) no welfare state. São períodos em que a aposta na eficiência da economia como indutora de bem-estar faz mais sentido do que uma política de fortalecimento do Estado e aumento de salários (mesmo porque o período é de corte de vagas).

Acho que esse entendimento mostra dois falsos dilemas que encerram muito bem a maneira da elite brasileira (se apresentando na direita ou na esquerda) entender a condução de políticas públicas.

De um jeito bem rastaqué, quem acompanhou as respostas brasileira para crise sabe que a fórmula segue outro preceito. A crise não chegou aqui por ação política. O crescimento posterior se deu por uma política agressiva de corte nos tributos, aposta no mercado interno e no aumento dos salários e da rede de proteção social.

A fórmula foi continuar a apostar na eficiência do Estado como regulador do mercado e agente na diminuição das desigualdades.

Muitas pessoas (e partidos) ainda tem a organização partidária da Europa como modelo e organização política (tanto do ponto de vista partidário como programático). Em alguns casos como o PPS (com o eurocomunismo) e o DEM tal identificação com partidos internacionais é quase uma tara (César Maia e sua internacional PPista ou democrata-cristã que o diga).

É uma política que procura uma agenda “moderna”, mas que necessariamente não tem povo. Um exemplo disso é a relutância desses partidos com as conferências nacionais, com iniciativas de orçamento participativo ou com medidas de compensação social direta (tipo Bolsa Família). Tudo isso lida com o que há de mais profundo nos problemas do Brasil.

No seu “A Revolução Brasileira”, ainda em 1966, Caio Prado Júnior já levantava a lebre contra o “etapismo” e a importação do modelo europeu de interpretação marxista, essa obsessão de tentar entender o Brasil ideologicamente continua arraigada na esquerda e na direita. Vale mais ter a informação de fora ou ser culto do que pensar a partir da realidade local, vale mais o novo do que o povo.

A resposta pra isso tá aqui ó, tem líder mundial que já sabe, só falta ouvir as pessoas, como Lula faz:

Como disse o Demétrio, na caixa de comentários aí do lado, a conversa só está começando. Celso Amorim falou a mesma coisa com outras palavras: “O Brasil só colocou a bola na área”. Pelo jeito, muita coisa ainda vai acontecer. E como ela rendeu tanto no Guaciara seguem alguns links muito interessantes.

Jerusalem Post

Herald Tribune

El Pais

AFP

Reuters/Estadão

E a conversa continua!

Durante o fim de semana, troquei emails com meu pai e meus irmãos – é, em blog, às vezes, algumas das regras que garantem o bom senso jornalístico acabam suspensas, entre elas a confusão entre vida privada e debate público – sobre a crise grega. A troca resultou em comentários interessantes não só sobre o problema enfrentado pelos países da zona do euro, como também sobre a crise de 2008, suas causas e consequências. Juntei os emails e coloco aí embaixo, para contribuir com o debate.

A troca começou com uma pergunta que fiz ao meu pai, Joaquim Eloi, PhD em economia pelo Instituto de Tecnologia de Massachussets (MIT): a crise grega está mais ligada à farra fiscal (e é, assim, resultado de má governança interna) ou às armadilhas de uma união monetária (resultando de um acordo que se revelou prejudicial para o país)? Seguem aí os comentários.

Papandreou: Don't stop 'till you get enough. Agora alguém vai ter de limpar essa bagunça.

I. A crise grega, causas, soluções, lições (comentário de Joaquim E. C. de Toledo, economista)

Certamente, é uma boa pergunta, que me fez meditar mais um pouco sobre o assunto: a crise grega é consequência de políticas fiscais irresponsáveis, ou é resultado de uma “armadilha monetária” criada pela adoção do Euro ?.  Em minha opinião, há pelo menos tres perguntas a responder, efetivamente: a causa da crise grega; as restrições impostas por um regime monetário de moeda comum, não-nacional; e, finalmente, a solução viável para a Grécia.

Primeiro, a causa da crise grega.  Será o Euro uma armadilha monetária, e a verdadeira causa da crise ?  Não acredito.  Afinal, a Alemanha também tem o Euro, mas seus títulos de dívida são vistos como de baixíssimo risco, e a Alemanha é o baluarte financeiro europeu.  Quais as diferenças entre Alemanha e Grécia ?

Alemanha: estabilidade fiscal, com baixa relação dívida / PIB e déficits fiscais módicos; ojeriza por inflação; poupança nacional relativamente elevada; salários reais subindo em linha ou até abaixo dos ganhos de produtividade; em consequencia de tudo isso, superavits externos em conta corrente, e elevada competitividade internacional da economia alemã.

Grécia: desequilíbrio fiscal crônico, com elevadíssimos deficits e dívida pública em trajetória claramente insustentável (mascarados por contabilidade “criativa” e fraudulenta); baixo nível de poupança nacional; atividade econômica estimulada por consumo público e privado, viabilizados por endividamentos explosivos; pressão de demanda / atividade gerando aumentos de preços de “non tradeables”, ou seja, aumentos de salários reais (o trabalho é o non-tradeable por excelencia…) muito além dos ganhos de produtividade, reduzindo cada vez mais a competitividade da economia grega; em consequencia, elevados deficits em transações correntes e crescente dependencia de fluxos de capitais externos.

Assim, a crise grega é o que é: grega… .

Segundo, as restrições impostas pela ausencia de uma moeda nacional.  São basicamente tres: não há poder de emissão; não há política monetária independente; não há a possibilidade de desvalorização / depreciação.  Sem o poder de emissão e com o governo se endividando (em moeda “externa”, por definição), há sempre o espectro da moratória, mesmo quando há a capacidade e a vontade de pagar: a moratória pode ser deflagrada por uma crise de liquidez.  Sem uma política monetária independente, não há a possibilidade de se recorrer à combinação de juros reais baixos e inflação como forma de reduzir o custo da dívida e torná-la sustentável (ou seja, sem a necessidade de uma moratória explícita).  Finalmente, sem a possibilidade de mudar a taxa de câmbio, a mudança de preços relativos entre tradeables e non-tradeables (leia-se a redução de salários reais) tem que ser feita com deflação de preços e salários nominais: ou seja, ao invés de subir um preço (a taxa de câmbio), é preciso reduzir muitos milhões de preços… (e a deflação ainda por cima aumenta o custo da dívida, agravando enormemente o problema).

Terceiro, a solução.  Acho que requer a combinação de tres coisas: mudanças fiscais, com redução do deficit (através de uma combinação de cortes de gastos e aumentos de impostos); reestruturação da dívida pública, com forte redução compulsória de seu custo; e, finalmente, o abandono do Euro e a criação de uma moeda nacional, que óbviamente será acompanhada por depreciação e inflação (especialmente de tradeables).  A nova moeda tem que ser introduzida com uma reforma monetária que mude todos os passivos do sistema financeiro na Grécia, bem como de empresas e pessoas físicas, para a nova moeda, de forma compulsória.

Em tese, com um programa abrangente, a economia grega poderia minimizar o impacto recessivo do ajuste fiscal com o aumento da competitividade externa e, logo, com o aumento das exportações líquidas do país.  Os custos do ajuste serão divididos por muitos: credores internacionais e domésticos, os que vivem no ou do setor público, capitalistas domésticos (maiores impostos), e trabalhadores (menores salários reais).

A crise grega tem lições para nós.  Primeiro, mostra o acerto das medidas tomadas nos governos FHC: refinanciamento de dívidas de entes sub-nacionais (estados, municípios, empresas e bancos estatais) pela União (que tem o menor custo de endividamento); rígido controle do endividamento desses entes; Lei de Responsabilidade Fiscal, para evitar deficits insustentáveis.  Segundo, mostra o erro do governo FHC, ao permitir a ocorrência de elevados deficits externos, com forte apreciação cambial, devido ao “boom” economico no início do Plano Real.  Terceiro, mostra o risco das políticas do governo Lula, que estimulam fortemente o consumo (reduzem a poupança), apreciam a taxa de câmbio (elevam de modo não sustentável o salário real, reduzindo a competitividade externa da economia), e geram elevados e crescentes deficits em transações correntes.

II. Otimismo e leniência (comentário de Marcelo Gaspari C. de Toledo, economista)

Concordo com todos os pontos e adicionaria um fator a mais que vem da economia comportamental: o otimismo exagerado e a leniência nos tempos de boom.

Peguem qualquer paper que tenha sido escrito três anos atrás e vocês verão que só se  falava da maravilha da convergência entre o centro e a periferia da Zona do Euro. Muitos diziam que a inflação mais alta na Grécia e decorria de uma convergência da produtividade – a produtividade na Grécia supostamente era baixa e estava crescendo em direção à dos países mais avançados dentro da área comum. Agora sabemos que não era isso – foi uma convergência de taxas de juros que levou a um boom de crédito do centro para a periferia, inflado pela poítica do Banco Central Europeu (BCE) e da insistência da União Européia em querer fingir que todos os países do euro eram iguais.

Foi o mesmo nos EUA: agora todo mundo fala dos absurdos do subprime, das inovações financeiras perversas etc, mas à época, era uma verdadeira maravilha celebrada por todos: os mercados estavam conseguindo que as pessoas com renda relativamente baixa comprassem imóveis.

Foi o mesmo na crise asiática, foi o mesmo com o México que, na década de 70, gastou o petróleo antes da exploração.
Foi o mesmo em Dubai – que agora está reestruturando sua dívida.
Foi o mesmo na Irlanda – o “Tigre Celta”, até pouco tempo (aqui, a experiência recente de um baixo padrão de vida recente fez com que a sociedade topasse com maior facilidade o aperto de cintos de agora).

É a frase já batida do cara do Citi: “quando a música está tocando, todos continuam dançando”.

A história está repleta de casos de quebra de uniões monetárias. Uma recente – da Rep. Tcheca e Eslováquia em 1993-1994 – nos dá uma boa idéia de que isso pode acontecer, sim. De fato, surfando na crise, tinha gente (claro, os que estão apostando contra) espalhando a mentira de que a Alemanha iria pular fora do euro.

III. Mercado financeiro, regulação e direitos (comentário de Joaquim Toledo Jr.)

Eu acrescentaria o seguinte: além de possível capitalização política populista da história das hipotecas, crédito imobiliário etc, quem estava radiante com os novos mágicos produtos financeiros eram, evidentemente, os bancos, que garantiam o retorno imediato de operações nebulosas com a cobrança de taxas e mais taxas. isso garantiu não só o papel fantasioso de permitir que famílias comprassem casas, ou casas maiores – até perderem-nas pro novo credor – mas também que os bancos garantissem, independente da viabilidade real das operações, retornos vultosos.

Até a Newsweek acha que a Goldman Sachs, por exemplo – que desempenhou papel importante na crise de 1929 (na geração da crise, bem entendido) – só serviu no último século para criar e estimular bolhas no mercado financeiro. Nos anos 1990, depois de décadas na encolha, o banco retornou e foi protagonista da bolha da nova economia, .com.

Por isso o que precisa ser feito é 1) reduzir o risco de moral hazard, impedindo que banqueiros se sintam à vontade para trabalhar de forma incompetente, na certeza de bailouts generosos; 2) lembrar que transações entre indivíduos privados – pessoas e bancos, por exemplo – precisam ser regulamentadas segundo princípios jurídicos que em outros casos são aceitos de forma natural: impedir que as pessoas sejam expostas, contra seu conhecimento, a riscos e, principalmente, que a obscuridade e complexidade do universo financeiro seja usada contra elas. A justiça, ou, se se quiser, o Estado, deve proteger os indivíduos comuns das más intenções do mercado financeiro, assim como existem agências que medem e controlam os riscos de produtos farmacêuticos etc.

IV. Fim de jogo (comentário de Demétrio Gaspari C. de Toledo, sociólogo)

Além dos problemas mais imediatos apontados por vocês, há que se levar em conta os problemas de fundo que geraram a crise. A dificuldade de lidar com a crise é que ela começou há uns 100 anos. Logo, reverter suas causas envolve, além de ações políticas e econômicas duras, viagens intertemporais em máquinas do tempo, desfazer o que está feito e coisas do tipo.

Em primeiro lugar, há que se reconhecer que a Europa é inviável demograficamente: os europeus estraçalharam suas populações em escala industrial duas vezes em um período de 30 anos (em ambas as vezes recorrendo também a métodos industriais – gases venenosos na I GG – graças ao desenvolvimento da indústria química alemã – campos de extermínio e bombas atômicas na II GG – aqui uma singela colaboração dos americanos com os alemães exilados nos EUA). Isso gerou uma estrutura demográfica em forma de ampulheta: uma base (crianças) larga, um centro minúsculo (quando causado por guerras, afetando sobretudo homens jovens – parte expressiva da força de trabalho e da capacidade reprodutiva de uma população) e um topo também largo.

Juntaram a isso taxas de crescimento demográfico 1) baixíssimas, ou 2) iguais a zero ou mesmo 3) negativas. Puseram em cima uma economia com índices radicalmente diferentes de produtividade (Alemanha numa ponta, Grécia na outra) e um modelo social em que a poupança de uma população economicamente ativa cada vez menor deve sustentar uma população economicamamente ativa cada vez maior – a conta não fecha.

Todos as análises que li deixam de fazer a pergunta que coloca no mesmo barco epistemológico a economia política, a sociologia política e as histórias de detetive: quem ganha com isso? Dizer que é o sistema financeiro é apenas meio verdadeiro: alguns poucos ganharão, muitos perderão. Quem ganhou e ganha com isso são as economias mais fortes da UE, Alemanha e França, que não por acaso (e muito menos por amor aos PIIGS) estão colocando dinheiro pesado e suporte político irrestrito no enfrentamento da crise. Essas duas economias se beneficiaram muito da união monetária e atualmente não conseguem ver motivos para desfazê-la – ou seja, Alemanha e França acham o futuro muito promissor. E os PIIGS, aliás, também – por sinal, eles ganharam horrores até ontem e não se tem notícia de ninguém ter reclamado.

É por isso que a Grécia não vai abandonar o euro – não por enquanto, porque ninguém quer, nem os países quebrados nem os que estão inteiros por enquanto, porque eles todos acham que podem ganhar com a união monetária, e a bem da verdade, até agora estão ganhando.

A grande dificuldade é que manter níveis de vida acima da renda ou esdruxulamente luxuosos e extravagantes (por exemplo, a Espanha, que não tem futebol, mantém uma liga milionária – um luxo que eles se dão mas pelo qual não podem pagar) via endividamento sem fim não é sustentável economicamente. Por outro lado, esse arranjo político do tipo “paraíso na terra” que muitos países europeus querem – tudo do bom (férias sem fim, 35, 30 horas de trabalho por semana, auxílio de retorno de férias, aposentadoria aos 60, futebol de alto nível em país de cabeça de bagre e perna de pau), nada de ruim (trabalhar, aumentar a produtividade, exercer responsabilidade fiscal, gastar dentro de seus rendimentos) – não vai ser facilmente deixado pra trás, compreensivelmente, uma vez que ninguém é bobo, a começar pelo cidadão comum. Mudar essa estrutura política, esse sistema de responsabilidades individuais e coletivas mútuas (do indivíduo com o coletivo e do coletivo com o indivíduo, modelo genericamente conhecido como welfare state europeu) vai ser muito difícil, e é por causa disso que a quebradeira final é apenas questão de tempo.

A crise ensina algo muito valioso: o cidadão comum precisa ser protegido dele mesmo. É preciso dizer a ele que sempre que alguém bater a sua porta com um maço de papéis que, em troca de umas merrecas suas, garantirão uma montanha sem fim de dinheiro, ele precisa soltar o cachorro em cima do safado. Agora, se convidou pra tomar um cafezinho pra ouvir a proposta com mais calma, aí, dançou. (Aliás, esses dias vi um golpe na tv em que o sujeito liga pras pessoas e oferece “uma viagem com tudo pago pra cinco pessoas pra assistir os jogos da seleção na cidade de Cairo, na África Central” – o sujeito só precisa pagar o IOF numa lotérica, “que este ano é de R$ 385,00″. Eu acho que isso deveria deixar de ser crime: levar o sujeito na lábia, sem violência – na verdade, em geral contando com a cumplicidade do otário no malfeito, ele também espertinho (pena que não o bastante…) – é mérito do contador de histórias).

Os gregos continuam achando que estava tudo uma maravilha antes da crise (e estava mesmo!), tanto que não querem que nada mude. Ignorância das regras do jogo não passa de cinismo. Como o Marcelo disse, enquanto a coisa ia bem, ninguém reclamava, era tudo uma beleza! O problema é que, por definição, alguém sempre perde. Querer o melhor dos mundos, o paraíso na terra, não dá: os benefícios da especulação sem os malefícios da especulação. Isso ainda não foi inventado.

O que nossa limitada percepção pessoal/existencial da história não nos diz, uma rápida olhada nos livros de história responde: “countries come and countries go”. Nada é eterno, tudo muda, inclusive a estrutura geopolítica. É apenas questão de tempo para que as atuais potências cedam lugar a outros países. Os gregos que o digam!!!

Por sinal, é bom que se diga: não existe convergência de níveis de desenvolvimento econômico, hipótese levantada por Solow – aliás, ele mesmo descobriu isso, vendo que a convergência só ocorria entre países com condições iniciais muito parecidas, o que levou os teóricos do crescimento econômico contemporâneo (por exemplo, a escola do crescimento endógeno) a falar em convergência condicional (isto é, condicionada a um estado inicial parecido/comparável). Os retornos são crescentes, e não decrescentes, para quem está na fronteira do crescimento econômico, logo, ceteris paribus, tudo continuará igual ou pior para quem está atrás, a não ser que o país tome para si a tarefa de reverter essa situaçã

Fernandinho e sua turma, todos muito mal-informados e pouco lidos, acreditam em convergência, tanto que quiseram e querem mexicanizar o Brasil com sua linda Alca. Pergunte pro Chaves (o do oito, não o Hugo), o que ele acha dos modelos de crescimento econômico com convergência, e ele vai te dar com a marreta biônica na cabeça: Tein!!!!!!!!!! Cale-se, cale-se, cale-se!!!! Você me deixa louco!!!!

Algumas dúvidas: qual seria o comportamento do eleitorado de qualquer país se o governo federal acabasse de instituir que a saúde que até ontem era paga poderia também ser pública, gratuita e acessível a todos os cidadãos? E se a carga tributária fosse a menor desde 1955? Provavelmente o presidente seria erguido em praça pública e saudado por todos como um grande herói. Em quase todo lugar do mundo, mas existe um país muito louco onde isso não acontece.

E se um presidente colocasse um país em uma guerra sem fim e, graças a uma política econômica irresponsável – com o apoio dos grandes conglomerados empresariais –, arrastasse o país –e o resto do mundo a reboque – a uma crise com proporções nunca antes vistas? Provavelmente, as pessoas iriam as ruas para derrubá-lo e o presidente seria considerado, no mínimo, um aventureiro incompetente.

Pois é, nos Estados Unidos, a coisa é estranha. Se Bush só afundou depois que a vaca chamava o brejo de casa e passou a maior parte do governo em nuvens de popularidade,  o governo Obama mergulha num descrédito gigantesco (80%) e é apontado como uma ameaça às liberdades individuais. Tudo em meio a uma batalha de recuperação econômica.

A oposição americana fala que, além de não precisar de um sistema de saúde, não tem obrigação nenhuma em salvar o sistema financeiro. O partido Republicano vive sem horizonte algum e nesse cenário se alimenta de intolerância e fundamentalismo.

Os conservadores por Deus e contra o sexo anal e a nova ordem mudial

Muito dessa reação violenta e escandalosa contra o governo é atribuído ao movimento Tea Party.  Você pode imaginar o que vem no caldo especial dessa turma: homofobia, xenofobia, a oposição ao sexo anal e a tudo que não se encaixa ao perfil dos “fundadores” da nação.

Esse é o ponto que me chama mais atenção. Os tea partiers, pelo pouco que acompanho se dividem entre Ron Paul e Sarah Palin. De um lado, estão os inimigos mortais da alegria, de um mundo mais desinibido; querem os valores protestantes como regras oficiais do país. São os fãs da Sarah Palin (eles são fãs mesmo, uma vez que a falta de debate político é outra característica do movimento).

Por outro lado, tem os libertarians que se juntam ao senador texano Ron Paul. São contra qualquer tipo de regulação ou intervenção do Estado na economia, a ponto de defenderem a falta de necessidade de Corpo de Bombeiros bancados pelo Estado.

Segundo o próprio Paul, Obama é um corporatista. Ou seja, trabalha pela dominação dos grandes conglomerados, com isso  sufoca a iniciativa individual. A posição desse pessoal é um pouco melhor do que o republicanismo radical, mas a falta de compreensão do papel do Estado é a mesma, ainda mais depois da crise financeira de 2008 que tem nos 30 anos de políticas de desregulamentação um dos seus principais vilões. Pelo menos são contra as intervenções militares americanas e radicalmente a favor da divisão entre estado e religião. Em uma recente pesquisa Rasmussen, o senador libertarian aparece empatado com Obama.

Na maior parte dos casos, os manifestantes das Tea Parties se rebelam contra o establishment político em geral e contra as instituições. O movimento se baseia em um fundamentalismo que remonta à independência dos Estados Unidos  e a uma paranóia em que o Estado é um inimigo e que os servidores públicos trabalham noite e dia para espoliar a vida do “cidadão de bem”.

A paranóia de que o governo federal é um monstro hobbesiano que irá chegar de dsco voador e dominar a liberdade de escolha está presente em todo imaginário dos EUA.

Tal desespero de que o comunismo, o totalitarismo e a invasão alienígena estão à espreita tem sido o combustível do radicalismo anti-Obama. A justificativa número um é o possível aumento de impostos por causa da criação do sistema de Saúde Pública e ajuda aos grandes conglomerados no pós-crise. O engraçado era que poucos reclamavam quando o aumento de impostos era para combater o terrorismo no Iraque.

O medo do centro e da esquerda política americana é que essas manifestações de rua descambem pra mais capítulos de violência nos EUA. Por causa disso, Bill Clinton recentemente comparou a ascensão do Tea Party ao atentado ao Oklahoma City Building há 14 anos atrás. Assim como a galera que reclama da “Nova Ordem Mundial”, o responsável pelo atentado, Timothy McVeigh, também participava de manifestações contra os impostos, o controle de armas e a intervenção do governo federal na vida dos americanos.

O atentado matou 168 pessoas e para McVeigh o atentado serviu para um “bem maior”, pois as pessoas que “traem a constituição são inimigos domésticos e deveriam ser punidas de acordo”.  É uma relação muito louca com a Constituição (que serve mais ou menos como o Corão ou a Bíblia) e com os outros regimes de governo, que são uma espécie de grande Satã. Também é um discurso que sempre ganha em agressividade quando os democratas estão no poder.

A não ser que tenha guerra. Quando um democrata assume o poder, o estado se torna um inimigo automático, os políticos e funcionários públicos são chamados de gangsters e tratados como uma ameaça permanente aos direitos individuais (nada muito diferente da reação da direita por aqui).

É claro que a euforia em torno da Tea Party pode ser exagerada. Mas esse discurso foi o que fortaleceu a bancada republicana no primeiro governo Clinton. Na ápoca a reação era contra uma Lei Criminal de 1994, que entre outras coisas previa a admissão de gays nas forças armadas.

A movimentação contra essa legislação nos estados americanos mais conservadores deu brecha, entre outras coisas para o aumento da bancada republicana nos EUA  de 94 até 2006. Essa ascensão fez o ex-presidente democrata fritar no óleo da Monica Lewinski e empurrou o governo Clinton para uma administração mais à direita.

Isso certamente pode acontecer e, seguindo o gosto da direita americana, pode força-los a novas intervenções militares, avanço do protecionismo e perseguição de estrangeiros. A coisa toda ainda está pra ser escrita, mas até agora a oposição ao Obama no Congresso Americano faz de tudo para barrar qualquer proposta que o poder executivo propõe.  O cenário é bem pouco animador.

Amigo nosso de BH, o jornalista Pablo Pires acompanha pelas redações os conflitos mundo afora há um bom tempo. Hoje no Estado de Minas e também na incrível revista Graffitti 76% Quadrinhos. Pouco se falou, mas uma crise profunda balançou a relação carnal entre Israel e Estados Unidos.  A análise do Pablo rende uma ótima conversa (inclusive sobre o Brasil e a relação dos conservadores com a política internacional).

Netanyahu vira as costas pro mundo todo, mas o lobby não sai da mão

A crise entre os EUA e Israel, detonada com o anúncio da construção de 1,6 mil casas em Jerusalém durante a visita à cidade do vice-presidente norte-americano, Joe Biden, não se limitou à diplomacia e foi o estopim também de outros movimentos.

A reação da secretária de Estado, Hillary Clinton, que telefonou para o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, dando-lhe um verdadeira bronca – “insultante” e “negativo para o processo de paz” foram alguns dos termos divulgadas pelos porta-vozes. – foi o ápice da tensão entre a potência e seu fiel e maior aliado no Oriente Médio. Houve quem apontou a rusga diplomática como a maior desde 1975, quando os EUA forçaram Israel a se retirar do Sinai.

No entanto, as consequências e, como é de praxe quando se lida com o conflito israelense-palestino, são exacerbadas. De um lado os conservadores dos EUA, em grande maioria fiéis ao poderoso lobby judeu, condenaram de pronto a reação de Hillary, classificando-a de exagerada e equivocada.

Também serviu a organizações mais aliadas à direita israelense e aos republicanos nos EUA, como a American Israel Public Affairs Committee (Aipac) ou a The Israel Project para pressionar o Congresso norte-americano a demonstrar publicamente o apoio ao Estado judeu.

Do outro lado do espectro político, a organização J´Street, que se se diz um lobby pró-Israel, mas que defende a paz e tem posturas mais liberais, acredita, assim como o presidente brasileiro – que a crise pode servir como uma oportunidade para relançar as negociações de paz sob um novo ângulo, menos submisso à postura radicalmente direitista e ortodoxa que domina o gabinete de Netanyahu.

A J´Street também denunciou o uso, por setores conservadores, da crise como fomentador de uma campanha contra o presidente Barack Obama. E manteve firme a sua posição de recolher assinaturas para que o governo dos EUA mantenha a postura firme em relação à administração israelense. Ou seja, continuar falando grosso para as coisas andarem.

O imbróglio diplomático entre os dois aliados refletiu nos EUA a provocou a mobilização dos dois setores de maneira radical, refletindo a divisão, não apenas da postura dos judeus-americanos em relação ao governo israelense, mas o próprio racha da sociedade norte-americana, que opõe liberais e uma classe universitária cosmopolitas a um poderoso grupo conservador que faz campanha de medo e terror, com apoio da mídia, e consegue mobilizar os que temem o “socialismo” de Obama ou que se alimentam do pânico do radicalismo islâmico.

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