Vou repetir o que já disse, mas acho que vale a pena. Não sei dirigir. Assim uso ônibus e metrô quase todos os dias. Embora não more longe do meu trabalho, preciso pegar duas conduções até lá e andar oito quarteirões depois que desembarco. Não é sempre que eu faço isso, afinal, uma vez por semana dou aula em uma unidade que fica no ponto final do meu ônibus, sobre uma estação de metrô. Quando a aula é lá, se saio na hora apropriada, um ônibus resolve.

Mas desde então, consegui uma ótima medida dos horários de circulação nesse pequeno pedaço da cidade. Sei o tempo que leva de Perdizes a Vila Mariana em todos os horários do dia em diferentes meios de transporte. Repetindo novamente o que eu já disse e que milhões dizem todos os dias em lugares diferentes: tá difícil. Isso não é novidade pra ninguém, mesmo quem nunca entrou em um coletivo daqui sabe disso; mesmo quem não mora na cidade sabe disso.

Aliás, em geral, a dificuldade de locomoção é a primeira recordação que os forasteiros guardam daqui. Nestes anos em que faço esse trajeto estive em outras cidades com certa freqüência.

As pessoas que conheci pelo caminho sempre me perguntavam sobre o tráfego e contavam de suas dificuldades de locomoção em São Paulo. Gente de todos os lados, hemisférios, gêneros, etnias, orientações sexuais e classes sociais. No entanto, em outras partes do país, muitas vezes a anedota era acompanhada por uma ressalva: a qualidade do metrô. Aqui, a ressalva também aparecia em diversos comentários. Tanto que o veículo deixou de ser algo que ameniza a situação crítica da cidade e se tornou uma promessa. assim, muitos amigos-que-andam-de-carro-por-todo-lado me diziam que quando houverem estações cobrindo todo o perímetro urbano a cidade terá jeito.

Não sei se é um tanto de pessimismo, mas o metrô nunca me pareceu essa maravilha. A empresa é boa o serviço também, mas nunca me pareceu um senão na rede atabalhoada de transportes da cidade. Antes, quando os meus amigos de fora de São Paulo me falavam : “pelo menos o metrô funciona”, eu apenas afirmava que achava que as linhas eram pequenas e a cobertura insuficiente. . Também falava do que não sabia e afirmava que achava o traçado irracional. Embora eu não saiba nada de transporte, não via muito sentido em duas linhas retas grandes que se cruzavam com tão poucas linhas menores. Hoje em dia, não sei se pelo uso freqüente ou se por quê a situação se agravou, minha opinião mudou.

Civilização Urbana: Mais de um século sem se mover

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Como disse antes, não sou engenheiro e nem arquiteto. Também não tenho nada que dê lastro à minha opinião, somente a experiência. Mesmo assim, acho que babou: o metrô não resolverá o problema da locomoção na cidade. A panaceia que era associada ao aumento do número de estações parece falsa. Com isso não quero dizer que elas não devam ser construídas. Elas devem, mas me parece que essa rede também já precisa de uma alternativa que eu ainda não sei qual é.

Para ilustrar essa frustração mal-ajambrada e irrefletida conto dois casos pra vocês. Uma em um dia extraordinário outra em um dia normal do funcionamento. São apenas a notícias de um usuário.

Em fevereiro o mundo caiu na cidade. Chovia muito todos os dias.  Para ir para aula, sempre saia com muita antecedência da minha casa. Não andava até o metrô e a Avenida Sumaré seguia a passos lentos. Ainda na primeira semana, foi tanta água que a estação Jardim São Paulo se inundou. Nas outras estações a coisa também não estava boa.

Mesmo ao lado de Santa Cecilia, não quis me arriscar em fazer a baldeação na estação Sé. Minha experiência por lá já não era das mais animadoras e eu não tinha uma hora para ir da roleta até o trem. Subi a Consolação a pé e peguei o trem na Paulista. Na estação consolação, levei meia hora até o trem. até aí, não era muito diferente de sempre neste horário.

O problema foi quando eu quis sair do metrô na estação Ana Rosa. Não consegui sair do trem a tempo. Uma tropa desceu na estação Chácara Klabin e retornou. Dessa vez saímos, mas ficamos presos ao piso do metrô por bons quinze minutos. depois que toda a manada conseguiu subir a escada e descer próxima escada, o meu horário de aula já havia começado. Bem, cheguei atrasado, como, aliás, a maioria dos outros professores e dos alunos.

No entanto, o agravante foi o que vivi na semana passada. Com tudo tranqüilo, algumas aulas já tendo se encerrado. Sofri um sufoco semelhante para trocar de trem na estação Ana Rosa. Estava impossível descer do pavimento onde ficam as catracas e descer ao espaço onde circulam os trens da linha azul. Sai de lá e fui a pé até o trabalho, que não é longe, sete ou oito quarteirões abaixo da estação Santa Cruz . Embora o trânsito não fosse dos piores, me pareceu a decisão mais racional.

No caminho pensei se agora não precisaríamos de um outro transporte alternativo ao metrô e ao ônibus. Estou convicto que só metrô engarrafado não resolve.

Hoje em dia, parece renascer uma aposta na civilização e sua associação com o progresso. Será que o pessoal mantém suas convicções depois de quarenta minutos para percorrer 100 metros em uma estação de trem?

Outros episódios: 1 , 2 , 3

PS: Esse Domenech é um palhaço mesmo