Lula mandando seu recado: mais quatro anos de avanços econômicos e sociais com Dilma e aliados!

 

Mais uma vez o Demétrio faz com que este blog se torne melhor. Agora explica e desfaz algumas bobagens difundidas sobre o pré-sal. Assim que descobriram os recursos na profundidade, começaram a falar sobre a sorte do presidente Lula, como se as riquezas houvessem sido descobertas espontaneamente. O Demétrio desfez a bobagem nos debates acadêmicos, políticos e nas mesas de botequim. Disse que sem um ativismo científico do estado, típico do governo Lula, a fonte nunca teria sido descoberta. Desde então, a cada notícia publicada, checo com o representante do Guaciara em Massachussets. O texto, os links, as imagens e as legendas são do Demétrio. O cabra já virou blogueiro. RA!

  • O pré-sal, para todos os efeitos, ainda não existe. Ele precisará ser “criado” por meio de tecnologias e processos capazes de recuperar quantidades assombrosas de petróleo e gás nas condições mais adversas de exploração já enfrentadas desde as gigantescas descobertas no Mar do Norte na década de 1960.



  • A riqueza do pré-sal, essa então não apenas ainda não existe como pode nunca realizar todo o seu potencial. Maior ainda do que os desafios de desenvolver as tecnologias e processos de exploração e recuperação do petróleo e gás do pré-sal são os desafios políticos, econômicos e sociais de transformar essa riqueza potencial em motor do desenvolvimento nacional justo, distributivo e progressista.
  • O primeiro desafio, o desenvolvimento tecnológico e científico aplicado à exploração, beneficiamento e comercialização das riquezas do pré-sal, a Petrobrás já demonstrou que podemos vencer, como, aliás, vencemos, sob condições relativamente parecidas de dificuldades tecnológicas e produtivas, quando das descobertas das reservas nos campos de Albacora e Marlim na Bacia de Santos, na década de 1980. Enfrentar e vencer esses desafios colocou a Petrobrás na condição de líder mundial em exploração petrolífera em águas profundas.

  • O segundo desafio, transformar a riqueza do pré-sal em desenvolvimento nacional econômico e justo, distributivo e progressista é muito mais difícil.  As dificuldades podem assumir duas ordens: a maldição dos recursos naturais e a doença holandesa. A maldição da abundância de recursos naturais refere-se à correlação negativa entre crescimento econômico e abundância de recursos naturais: quanto mais abundantes os recursos naturais, menor o crescimento econômico. A doença holandesa é mais específica, pois identifica um tipo de recurso natural (petróleo e gás) e o mecanismo causal que gera um crescimento econômico mais modesto e de menor qualidade, além de tratar de um caso histórico específico, os efeitos deletérios das descobertas de reservas petrolíferas no Mar do Norte sobre a economia holandesa. O argumento é o seguinte: a maior rentabilidade do setor de exploração do petróleo e gás, combinada aos efeitos da apreciação cambial causada pelo enxurrada de divisas externas que afluirão ao país, resultará em um movimento de fatores (capital e trabalho) dos setores manufatureiros para o setor de exploração dos recursos naturais e de serviços, diminuindo a competitividade do setor industrial exportador, deixando  no lugar uma economia especializada na extração e comercialização de recursos naturais que cedo ou tarde se esgotarão.
  • A descoberta de petróleo e gás no Mar do Norte na década de 1960 oferece um raríssimo exemplo de quase-experimento nas ciências sociais: duas economias bastante parecidas – a holandesa e a norueguesa; o mesmo evento exógeno – descobertas de petróleo e gás no Mar do Norte – na mesma época – década de 1960; mas resultados muito diferentes a médio e longo prazo, com a Noruega desenvolvendo uma das sociedades mais justas e desenvolvidas do mundo , superando suas irmãs escandinavas Suécia e Dinamarca, e a Holanda emprestando seu nome a uma “doença”, feito, convenhamos, de pouco ou nenhum mérito. A figura abaixo mostra a Noruega tirando a distância dos outros dois países escandinavos, Suécia e Dinamarca, em termos de PIB per capita (Produto Interno Bruto=Gross Domestic Product), de um ridículo terceiro e último lugar até a década de 1960 até a inquestionável dianteira:

  • Como explicar resultados tão diferentes? A Noruega, ao contrário da Holanda, adotou uma abordagem que tratava a enorme riqueza a que a sociedade norueguesa teria acesso nas décadas seguintes como uma oportunidade cheia de perigos e desafios. Trataram logo de garantir que  80% da riqueza gerada pelo petróleo e gás da plataforma continental norueguesa seria propriedade da nação; ampliaram e desenvolveram a companhia estatal norueguesa de petróleo (StatOil), dando a ela primazia na exploração e desenvolvimento do setor de petróleo e gás na Noruega; deram às companhias internacionais papel secundário e auxuliar no setor petrolífero norueguês, valendo-se das parcerias para garantir transferência de conhecimento das multinacionais para as empresas norueguesas – em um processo conhecido como capacidade adaptativa, em que um país consegue se apropriar de conhecimentos de fontes externas e aplicá-los para o desenvolvimento do país; desenvolveram o setor de subsea norueguês, dedicado a tudo que diz respeito à exploração subaquática, de risers – basicamente, tubos e conexões que, como sabemos, podem ser um baita mico nas mãos erradas – até robótica e computação aplicadas à exploração de petróleo e gás – hoje em dia a norueguesa Aker Kværner é uma das maiores e mais importantes companhias do setor de subsea do mundo, setor altamente intensivo em capital e tecnologia e presente no mundo inteiro, isto é, em todo lugar onde existam desafios tecnológicos para a extração do petróleo, logo, em que os custos envolvidos, portanto os lucros potenciais, são grandes; e a criação de um fundo soberano para reter e aplicar os dividendos do setor de petróleo e gás, evitando com isso a sobrevalorização cambial e as consequências da doença holandesa e a maldição que recai sobre quase todos os países ricos em recursos naturais mas pobres em futuro.
  • O pré-sal como fronteira tecnológica da exploração do petróleo é brasileiro, é nosso, foi feito por pessoas como você e eu que têm se dedicado a fazer do nosso país um lugar melhor para todos nós. O pré-sal como fenômeno geológico é muito provavelmente mundial, isto é, as condições geológicas de presença de petróleo nas camadas de pré-sal mundo afora são muito favoráveis e existem seguramente na costa ocidental da África (países como Nigéria e Angola já exploram petróleo e gás em suas plataformas marítimas) e possivelmente no Japão, no Golfo do México e no Mar Cáspio. O país que dominar as tecnologias de exploração dessa fronteira tecnológica terá uma vantagem competitiva de pelo menos duas décadas (o tempo que levou para o Brasil desenvolver a tecnologia capaz de extrair petróleo e gás do pré-sal) em relação aos demais – e no momento esse país é o Brasil.
  • Os desafios políticos, econômicos e sociais exigem muita atenção e sentido de futuro e de nação. Como mostram as histórias de inúmeros países ricos em recursos naturais – aqueles afetados pela maldição da abundância de recursos naturais – só isso não basta, é necessário saber o que fazer com tanta riqueza.
  • O Brasil precisa evitar a todo custo a tentação de gastar as riquezas do pré-sal em atividades e ações imediatas e com alto retorno político imediato mas baixo retorno no médio e longo prazo. Para isso, é preciso que o Brasil direcione a riqueza gerada pelo pré-sal para:
  1. Investir em educação em todos os níveis, de modo a qualificar a mão de obra não apenas do setor de petróleo mas de todos os outros setores da economia brasileira, mas sobretudo como forma de ampliar as condições mínimas de uma cidadania plena;
  2. Investir em inovação em todos os setores da economia brasileira, de modo a desenvolver no Brasil um tecido produtivo intensivo em conhecimento e competitivo internacionalmente;
  3. Garantir em alto grau o retorno das riquezas do pré-sal à sociedade brasileira, tanto no investimento dos recursos em políticas públicas de educação, inovação, ciência e tecnologia como na constituição de empresas brasileiras capazes de competir internacionalmente e gerar para o país empregos e dividendos que possam ser, via tributação, redistribuídos, reduzindo as tremendas desigualdades e injutiças que ainda existem no Brasil.
  • Mas pré-sal não é apenas e nem mesmo principalmente extrair petróleo e gás do fundo do mar de modo responsável e fazer com que isso se se reverta em um desenvolvimento nacional justo, distributivo e progressista. Como a experiência da Noruega nos mostra, para extrairmos todos os benefícios do pré-sal e evitarmos as armadilhas e roubadas que podem vir junto, uma geração inteira terá que se empenhar no esforço coletivo para aplicar da melhor maneira possível essa enorme riqueza. Nós precisaremos nos dedicar de corpo e alma à tarefa de compreender quais os impactos dessas descobertas sobre a fauna e flora marinhas, a chamada Amazônia Azul; as profundas alterações sociais e urbanísticas que afetarão os municípios e estados mais beneficiados com os royalties do pré-sal; os movimentos demográficos, a reconfiguração do mercado de trabalho e seus impactos sobre os ambientes urbanos que tenderão a crescer naquelas áreas; os desafios ambientais envolvidos na utilização intensiva de recuros energéticos de fontes fósseis; o que fazer para não perdermos a liderança no desenvolvimento e produção de biocombustíveis; e quais as políticas sociais mais adequadas para redistribuir toda essa riqueza sem com isso colocar em risco nosso futuro, uma vez que cedo ou tarde toda essa riqueza irá acabar e teremos que ter algo para colocar no lugar. Nossa geração e a de nossos filhos serão beneficiárias dessas riquezas, mas precisamos fazer com que nossos netos e bisnetos, assim como todos os brasileiros que vieram antes nós e sofreram a tragédia de um país injusto, racista e desigual, sejam contemplados com um país melhor.
  • É preciso lembrar, por último, que as forças reacionárias da sociedade brasileira encarnadas na candidatura de José Serra e sua aliança neo-udenista com a escória mais baixa da ditadura, o PFL, prometem fazer, no que toca ao pré-sal, mas não apenas a isso, o contrário de tudo que a experiência histórica de países que se desenvolveram com qualidade recomenda.  O mesmo partido que buscou sem sucesso privatizar a Petrobrás ameaça, segundo declarações de David Zilberstajn, assessor para assuntos energéticos de Serra: acabar com a necessidade de participação da Petrobrás na operação das áreas licitadas de modo a abrir caminho para as multinacionais do petróleo e gás, entregando de mão beijada a riqueza nacional para o capital estrangeiro à moda do que se fazia à época da colônia, e depois no império e por boa parte da história da república. Nós, nossos filhos e nossos netos pagaremos caro por isso se não agirmos a tempo e decididamente. E o momento é já!
  • Este filminho é aquele que nos enche de orgulho e nos informa mais sobre o pré-sal:

“Àqueles que não estudam [practice], ou seja, esquecem a lição que já aprenderam”, dedica (com uma advertência) John Fahey sua breve explicação da afinação em C: “A 6a corda é C, a 5a é G, a 4a é C, a 3a é G, a 2a é C e a 1a é E”. E pega e toca desse jeito que você pode ver aí embaixo. É como o Ronaldo explicando o gol contra a Turquia em 2002 – “entrei na área e dei de bico”. Beleza. Agora pega e faz aí.

Quando chegamos do bar do Alemão, todo mundo se meteu no elevador e foi ver como terminariam os jogos. O Israel vinha confiante,  2 a 0 no primeiro tempo não garantia a vitória mas já despertava aquela coceira na mão de partir para as quartas de final da Libertadores da América. Os tropeços de primeiro semestre do ano do centenário não pareciam mais sinais de mau agouro. Agora era esperar acabar o segundo tempo sem nenhum susto. O Leandro, torcedor do Bahia, achava graça, todo estóico diante daquela ansiedade.

Antes de o elevador deixar o primeiro da turma, os flameguistas já comemoravam o gol do Vagner Love.

O Israel foi o último a aparecer para o almoço no dia seguinte. O Idelber apareceu cedo, mas nem falou no terceiro gol do Santos. Passou a manhã lendo o livro do Zé Paulo (que deixou a gente mais cedo, na noite anterior, depois de um tímido lamento de palmeirense doente que não quer nem mais saber de futebol, nunca mais, nunca mais mesmo), sobre a democracia corintiana, o que meio que equilibrava as coisas. Campeonato tem todo ano.

O Rodrigo aprontou um negócio incrível aqui em Curitiba, junto com a Celise e o pessoal todo do SESC Paraná. E eu não fui o único a dizer – mas eu, para falar de futebol? O Idelber, que esqueceu mais sobre futebol do que eu jamais vou saber, também não entendeu o convite no começo. Acho que essa reação só confirmou a sacada do Rodrigo: futebol, como diria o Aristóteles, se diz de muitas maneiras. Larga um microfone na mão de um pessoal que, quando não tem microfone, quase não fala de outra coisa, que com certeza algum papo bom sobre bola aparece. Eu estava na primeira mesa e, tirando a minha participação, que não vi por causa das luzes e do nervosismo, foi uma noite memorável.

A ideia era discutir futebol, as eleições, copa do mundo, política. O Israel tomou conta da mesa, que era o Leandro Fortes, o José Paulo Florenzano e eu. O Leandro explicou por que o jornalismo esportivo e o jornalismo político são tão ruins no Brasil: a passividade profissional, a falta de preparo e o mau gosto assombram as duas áreas. O José Paulo, que carrega na cabeça todo o universo do futebol brasileiro sob a ditadura, lembrou que a cooptação da seleção de 1970 foi apenas mais um ato de arbitrariedade e violência do regime militar: as práticas de liberdade da delegação brasileira espelhavam e reforçavam um movimento subterrâneo idêntico ao de muitos setores da sociedade brasileira, e que culminou com a seleção de 82, numa derrota tão sublime quanto a do movimento das Diretas Já – que não por acaso carregou como símbolo a mesma camisa amarela, o traje de celebração da liberdade e da alegria oficial do país. Eu tentei reclamar da Copa do Mundo como megaevento privado, danoso e contrário à condução democrática do desenvolvimento das cidades.

O encontro ainda segue, hoje e amanhã. A platéia estava cheia de pessoas interessadíssimas, e interessantes: estudantes de jornalismo, jornalistas, escritores, curiosos. Hoje sentam para conversar sobre arte e profissionalismo na era da imagem, sob a batuta do Lauro Mesquita, Francisco Bosco e André Mendes Capraro. Amanhã, depois da mesa sobre a democracia corintiana, a seleção brasileira e a abertura política, com Idelber Avelar, Marcos Guterman e Sócrates Brasileiro Sampaio de Oliveira, o Dr. Sócrates (sob os cuidados do Rodrigo Merheb), José Miguel Wisnik e Sócrates vão arriscar umas músicas sobre futebol. Eu trouxe uma camisa do São Paulo para ver se o Sócrates leva pro Raí assinar.

Hoje chegou um flamenguista, um santista e um dos dois torcedores do América MG da redação do Guaciara.  O Rodrigo foi cuidadoso o suficiente para garantir a representação plural da sociedade brasileira no evento.

Está sendo duca. Quem está em Curitiba e não veio precisa vir. O serviço está no post logo aí embaixo.

Demétrio Toledo nos enche de orgulho. O sujeito é brilhante; um sociólogo nato, grande brasileiro e um dos maiores amigos que eu tenho na vida. Entre 2004 e 2005 ele morou aqui no Guaciara. Vinha de uma experiência difícil: havia perdido o teto; em todos os sentidos da palavra. O telhado da sua casa desabou e ele veio pra cá.

Foi naquele período que ele redigiu sua dissertação de mestrado: uma baita contribuição ao estudo das elites locais. Por sorte de todos nós, a editora papagaio transformou a tese em um livro que será lançado na segunda-feira (amanhã), no Bar Canto Madalena, em São Paulo.

O trabalho lida com as novas formas da ação coletiva. A partir de técnicas muito refinadas, interpreta uma reorganização das classes sociais no país, o modo das elites se organizarem, se dividirem e o peso institucional em cada um destes momentos. É um estudo fino de sociologia política. Tenta entender se é possível tratar as classes sociais da mesma maneira e pensar uma determinação da ação política das elites empresariais. É novo por tratar de formas muito recentes de se abordar os problemas sociológicos, por pedir uma reavaliação das categorias clássicas e também por indagar sobre as manifestações de poder na sociedade recente.

Chamo todos os leitores da nossa página a aparecerem por lá. Mais informações no convite:

A ideia de que as universidades públicas brasileiras são mausoléus que abrigam servidores públicos (administrativos e docentes) indolentes, inúteis e reclamões – gozam do insuperável privilégio de uma carreira garantida no funcionalismo, aposentadoria integral e o cacete, mas ainda assim vivem pedindo um upgrade na pensão que recebem da Viúva – são mais uma manifestação daquelas estruturas mentais que, na maior parte do tempo (pelo menos depois da democratização do país), permanecem recalcadas até que um fato – muitas vezes envolvendo homens fardados – as tragam de novo à tona. Outro exemplo dessas manifestações são as ideias: “a distribuição de renda prejudica a meritocracia” ou “um sistema de cotas destroi a excelência”.

Assim como essas duas últimas alucinações, a concepção da universidade como um cemitério científico e intelectual assombrado por servidores fantasmas e professores incompetentes é desmentida pelos fatos. Pesquisa da Prospectiva Consultoria, divulgada parcialmente na edição de fim de semana do jornal Valor Econômico (para assinantes), mostra que a produtividade das universidades públicas brasileiras, estaduais e federais, medida pela quantidade de pedidos de patentes junto ao Inpi (Instituto Nacional de Propriedade Intelectual), supera a do setor empresarial. Em suma, as universidades brasileiras têm sido, nos últimos anos, as principais responsáveis pela inovação tecnológica e científica no país. Para se ter uma ideia da importância do fato, entre as empresas que contribuem para a inovação em ciência e tecnologia no país, estão gigantes mundiais como Petrobras e Vale.

O resultado é reflexo, claro, do aumento de recursos destinados às universidades e a transformações na lei de patentes que, permitindo que os pesquisadores responsáveis retenham parte dos direitos, estimulam sem dúvida a pesquisa. Vale reforçar que esse indicador sinaliza algo bem diferente das tradicionais avaliações de produtividade das universidades segundo a produção de dissertações e teses. No caso de patentes, é possível medir a contribuição real, direta, das universidades para o desenvolvimento do país. (A área mais produtiva, segundo a pesquisa, é a de saúde).

(Vale uma ressalva, em nome de meus colegas da FFLCH-USP e do IFCH-UNICAMP: esse tipo de indicador é inútil nas nossas áreas, e seria uma perversão se fosse generalizado como critério para financiamento.)

Deposito de pedidos de patente por ano na USP (fonte: Agência USP de inovação)

Deposito de pedidos de patente por ano na USP (fonte: Agência USP de inovação)

E – o que é ainda mais irônico, dados os acontecimentos dos últimos dias – no topo da lista de universidades que mais inovam estão duas universidades estaduais paulistas, Unicamp e USP. Assim, o governador deveria ter mais cuidado com a forma como lida com as reivindicações dos professores, funcionários e alunos. Como informou em carta à Folha de São Paulo a professora Marlene Suano, do departamento de história da FFLCH-USP, os professores acumulam perdas salarias de “42% em relação ao que eram em 1989″.

Professor, cientista, pesquisador, etc., são tipos curiosos, mesmo. Há uma parcela profunda de “vocação” na condução de sua vida profissional, que os faz enfrentar as dificuldades (salas lotadas, turmas enormes, falta de financiamento, burocracia medonha que impede muitas vezes projetos de pesquisa deslancharem) em nome de suas escolhas profissionais. E, como sabem os que estão na universidade há algum tempo, estão longe de viverem ou querem viver como nababos. Mas pagam contas, também.

Quem conhece meu pai que é médico epidemiologista sabe que uma das melhores coisas do Brasil é passar um tempo batendo papo com ele. De preferência em um bar. E entre os vários assuntos que você pode conversar com ele  – como música, comida, política, curtição etc. – existem dois que andam bem em voga: epidemias e tira-gosto, quer dizer porcos – frangos nunca. O Mesquita dá o começo de uma conversa sobre gripe suína aqui no blog  e convida todos a opinar. Leiam e participem:


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E o porco paga o pato, quer dizer, o homem

A gripe suína é resultado de uma mutação genética. É altamente infectante e patogênica, ou seja invade facilmente nossos tecidos e as pessoas se tornam doentes com facilidade. É mais branda que sua parente aviária, apesar de também poder causar casos graves e fatais.

Mas os cientistas estão constatando que quando a gripe suína se difunde, ela vai perdendo sua força e os casos vão se tornando cada vez mais leves. Assim, matou muita gente logo que surgiu e, aos poucos, foi se tornando menos grave.

Ao mesmo tempo, a doença reponde bem à medicação anti-viral de rotina. Mas, num país pobre como o Brasil, o risco de qualquer doença epidêmica causar um grande estrago é muito alto pelas péssimas condições de vida e ausência de um sistema médico-sanitário que dê conta de situações de alto risco.

Parece que no México houve uma sensível diminuição da transmissão após o feriado do último fim-de-semana quando se recomendou a permanência da população em casa. De qualquer forma ela está longe de ser grave como a gripe espanhola do século 20.

O Mauro Santayana publicou um texto interessante no Jornal do Brasil da quinta-feira passada (1/5/2009):

A gripe dos porcos e a mentira dos homens

Mauro Santayana

O governo do México e a agroindústria procuram desmentir o óbvio: a gripe que assusta o mundo se iniciou em La Glória, distrito de Perote, a 10 quilômetros da criação de porcos das Granjas Carroll, subsidiária de poderosa multinacional do ramo, a Smithfield Foods. La Glória é uma das mais pobres povoações do país. O primeiro a contrair a enfermidade (o paciente zero, de acordo com a linguagem médica) foi o menino Edgar Hernández, de 4 anos, que conseguiu sobreviver depois de medicado. Provavelmente seu organismo tenha servido de plataforma para a combinação genética que tornaria o vírus mais poderoso. Uma gripe estranha já havia sido constatada em La Glória, em dezembro do ano passado e, em março, passou a disseminar-se rapidamente.
Os moradores de La Glória – alguns deles trabalhadores da Carroll – não têm dúvida: a fonte da enfermidade é o criatório de porcos, que produz quase 1 milhão de animais por ano. Segundo as informações, as fezes e a urina dos animais são depositadas em tanques de oxidação, a céu aberto, sobre cuja superfície densas nuvens de moscas se reproduzem. A indústria tornou infernal a vida dos moradores de La Glória, que, situados em nível inferior na encosta da serra, recebem as águas poluídas nos riachos e lençóis freáticos. A contaminação do subsolo pelos tanques já foi denunciada às autoridades, por uma agente municipal de saúde, Bertha Crisóstomo, ainda em fevereiro, quando começaram a surgir casos de gripe e diarreia na comunidade, mas de nada adiantou. Segundo o deputado Atanásio Duran, as Granjas Carroll haviam sido expulsas da Virgínia e da Carolina do Norte por danos ambientais. Dentro das normas do Nafta, puderam transferir-se, em 1994, para Perote, com o apoio do governo mexicano. Pelo tratado, a empresa norte-americana não está sujeita ao controle das autoridades do país. É o drama dos países dominados pelo neoliberalismo: sempre aceitam a podridão que mata.

O episódio conduz a algumas reflexões sobre o sistema agroindustrial moderno. Como a finalidade das empresas é o lucro, todas as suas operações, incluídas as de natureza política, se subordinam a essa razão. A concentração da indústria de alimentos, com a criação e o abate de animais em grande escala, mesmo quando acompanhada de todos os cuidados, é ameaça permanente aos trabalhadores e aos vizinhos. A criação em pequena escala – no nível da exploração familiar – tem, entre outras vantagens, a de limitar os possíveis casos de enfermidade, com a eliminação imediata do foco.
Os animais são alimentados com rações que levam 17% de farinha de peixe, conforme a Organic Consumers Association, dos Estados Unidos, embora os porcos não comam peixe na natureza. De acordo com outras fontes, os animais são vacinados, tratados preventivamente com antibióticos e antivirais, submetidos a hormônios e mutações genéticas, o que também explica sua resistência a alguns agentes infecciosos. Assim sendo, tornam-se hospedeiros que podem transmitir os vírus aos seres humanos, como ocorreu no México, segundo supõem as autoridades sanitárias.
As Granjas Carroll – como ocorre em outras latitudes e com empresas de todos os tipos – mantêm uma fundação social na região, em que aplicam parcela ínfima de seus lucros. É o imposto da hipocrisia. Assim, esses capitalistas engambelam a opinião pública e neutralizam a oposição da comunidade. A ação social deve ser do Estado, custeada com os recursos tributários justos. O que tem ocorrido é o contrário disso: os estados subsidiam grandes empresas, e estas atribuem migalhas à mal chamada “ação social”. Quando acusadas de violar as leis, as empresas se justificam – como ocorre, no Brasil, com a Daslu – argumentando que custeiam os estudos de uma dezena de crianças, distribuem uma centena de cestas básicas e mantêm uma quadra de vôlei nas vizinhanças.
O governo mexicano pressionou, e a Organização Mundial de Saúde concordou em mudar o nome da gripe suína para Gripe-A. Ao retirar o adjetivo que identificava sua etiologia, ocultou a informação a que os povos têm direito. A doença foi diagnosticada em um menino de La Glória, ao lado das águas infectadas pelas Granjas Carroll, empresa norte-americana criadora de porcos, e no exame se encontrou a cepa da gripe suína. O resto, pelo que se sabe até agora, é o conluio entre o governo conservador do México e as Granjas Carroll – com a cumplicidade da OMS.”

Nem preciso dizer o quanto é duro para mim, são-paulino chato e anti-corinthiano militante, falar sobre o assombro que tem sido o Ronaldo em campo. O segundo gol contra o Tricolor (paulista, para não me acusarem de bairrismo) me encheu de raiva, inveja e até – caraca – alegria. Ronaldo, vários quilos a mais, dando pique na frente do zagueiro e, com um tapa na bola, enchendo as redes do Bosco, vendido no lance. Parece até fácil. Por que o Washington não faz igual? Pô.

No jogo de ontem, foram cinco toques geniais na bola. A matada incrível, o chute certeiro. Um, dois. Depois, o drible (três), a ajeitada, tirando o zagueiro do lance (quatro) e o chute leve, cheio de efeito, a bola caindo mansinha atrás do Fabio Costa. Cinco.

No seu ensaio sobre o artista de marionetes, Henrich von Kleist fala do talento do artista de criar a impressão de naturalidade. Dois sujeitos em um banco de praça comentam o empenho exaustivo que o artista precisa dedicar para desenvolver a destreza suficiente para que o boneco se movimente com naturalidade. Quando o grande artista atinge a perfeição dessa técnica, o seu controle sobre o boneco fica invisível para o espectador. Ele some no mesmo momento em que se revela na sua forma mais aperfeiçoada. Acho essa ideia fundamental para entender a arte, e em especial a noção de estilo, tema que anda ocupando o Tiago. E acho que é isso também o que o esportista talentoso, assim como uma grande bailarina, que se torna senhor absoluto da sua modalidade, faz. Esses lances do Ronaldo me fazem pensar nessa capacidade de controle e leveza que todo grande artista tem.

Deve ser isso que chamam de sabedoria. A tranquilidade, dentro e fora de campo, a capacidade de se manter à tona num ambiente hostil a um sujeito que, como ele, não vê motivo para adotar a postura subserviente que parece ser exigida de todo ex-favelado.

Ter o Ronaldo de volta aos campos brasileiros dá o que pensar. Fica a impressão de que um ciclo se encerra. A Europa, e o mundo, vão demorar para ver de novo o padrão de consumo dos últimos quinze ou vinte anos, padrão que dava lastro aos salários estratosféricos e aos contratos de publicidade milionários que fizeram a fortuna de muito jogador pelo mundo. Acho que em especial a Espanha vai ver desaparecer esse mundo de fantasia que se montou em torno do futebol. E o futebol europeu vai perder o poder de atração, e seus clubes a hegemonia mundial, inclusive simbólica. E o futebol vai recuperar alguma coisa do seu romantismo.

É inspirador ver o Ronaldo jogando com os meninos do Corinthians. Parece que o cara achou a alegria que tinha perdido. Voltou a jogar bola, agora não mais o menino prodígio do Cruzeiro, ou o profissional jovem, premiado e milionário preso numa montanha-russa de vida pública ruidosa, lesões e polêmicas, mas o sujeito vivido, que já não tem que provar mais nada, e que está contente por estar de volta ao seu lugar.

Não fica difícil entender a angústia do Adriano. Em outra escala, o destino dele é muito semelhante. E talvez o jogador de futebol seja o único tipo de milionário que tem que aturar um ritmo de trabalho como o deles. Se o Adriano quiser o meu conselho, sugiro que ele fique por aqui. A gente lá no São Paulo toparia ter ele de volta. Ter de novo o Imperador daria uma amansada na dor de cotovelo que a gente anda sentindo.

Gilson é um grande amigo nosso, além de um cara muito porreta e sempre ligado nas questões ambientais.  A turma do Guaci convidou ele para mostrar que o debate dos 200 anos do Darwin pode render muito mais do que papinho de igreja. Leiam só:

"Darwin: o senhor é o meu pastor, e nada me faltará"

"Darwin: o senhor é o meu pastor, e nada me faltará"

No espírito de prestar uma homenagem ao cientista responsável por uma das obras de maior impacto na biologia em todos os tempos, trago esta contribuição singela ao Guaci (com muito prazer e alegria).

A Teoria da Evolução de Darwin é responsável por compilar, coletar e sistematizar observações sobre o mecanismo de diferenciação e transformação das espécies de seres vivos. A apresentação deste mecanismo causou grande furor à época de sua publicação, conforme tem sido amplamente divulgado na comemoração dos 200 anos do autor de A Origem das Espécies.

Um fato a se lamentar dentro dessas comemorações é que, mesmo com um trabalho de titânica envergadura, o aspecto mais evidenciado pelos grandes veículos da imprensa brasileira é a sua dificuldade em ser aceito por grupos fundamentalistas religiosos . A ironia disso tudo é que o próprio Darwin era um ferrenho religioso e tinha consciência do impacto de sua obra. Mesmo assim não mudou suas crenças após as descobertas que publicou.

Isso porque a ideia, já na época questionada, de uma realidade estática- o famigerado criacionismo – no que tange a origem do seres vivos, sofreu um golpe mortal com as teorias darwinianas.

As primeiras desconfianças sobre o mecanismo de evolução das espécies, ao que parece, surgiram com o avô de Darwin, Erasmus, segundo pesquisei preguiçosamente na Wikipédia. Anos depois, Lamarck apresentou sua teoria da evolução por meio da herança das características adquiridas, mais tarde suplantada pela evolução darwiniana.

Uma inferência direta e imediata da teoria de Darwin é a árvore da vida, na realidade um conceito que pode ser representado espacialmente como uma árvore, indicando os parentescos entre os seres ao longo do tempo, agrupando-os em setores semelhantes. Um uso consagrado dessa representação são as recorrentes “árvores do rock”.

Uma das primeiras experiência “taxonômicas” que se tem notícia foi feita por Aristóteles, contudo, trabalhando com caracteres morfológicos.  A classificação aristotélica, por exemplo, começava com “animais sem sangue” e “animais com sangue”. Em classificações desse tipo seria plausível que as baleias fossem agrupadas junto com os tubarões na categoria dos “animais marinhos”.

Com Darwin, os agrupamentos passam a se orientar pela sua origem genética, embora ainda haja muita influência da morfologia (ante a inexistência de métodos modernos de análise cladística) .

Outra questão que é trazida pela Evolução é a necessidade de explicar de que forma as informações são transmitidas de um indivíduo para o seu sucessor, garantindo a conectividade dentre os itens da “árvore”. O parentesco óbvio entre muitas espécies já era uma forte evidência disso, sendo esta a peça central do trabalho de Darwin. A sua demonstração veio depois com o padre – e cultivador de ervilhas – Gregor Mendel inicialmente e complementarmente com a dupla Watson e Crick, que demonstraram a existência do DNA.

A teoria da evolução ainda apresenta questões referentes à extinção de espécies no passado e no presente, que abrem as portas para o nascimento da ecologia. Esta por sua vez é uma das mães da geomorfologia de Lovelock, que ganha destaque a cada dia . Isso tudo sem falar da estruturação que o conceito propiciou à biologia, que trabalha com os conceitos até hoje.

Outra mostra da “força” da teoria é que nenhuma tese cientificamente aceita se opõe à ela, aliás, muito pelo contrário, como se tem visto na geologia, paleontologia, climatologia etc., desde seu advento.

Como visto em uma postagem anterior aqui mesmo no Guaci, a transferência de dados pode até se dar de forma “horizontal” (entre espécies diferentes) na árvore da vida, mas contudo, a transferência vertical permanece sendo o mecanismo mais proeminente para mais de 99% da informação genética.

Transferência vertical seria o feijão com arroz, com cruzamentos intraespecíficos, ou seja, dentro da mesma espécie, embora estudos recentes tenham apresentado indícios de que os genes podem ser transferidos de uma espécie para a outra (forget about égua barranqueira). Tais processos seriam mais comuns em animais unicelulares, porém existem evidências de transporte de material genético de bactérias para indivíduos multicelulares, em situações mais específicas.

Mesmo o tal design inteligente , um lobo religioso vestido em pele de ovelha científica (dá-lhe maniqueísmo!) é uma mostra de que, como não tem jeito, os caras resolveram pegar uma carona no bonde de Darwin (claro que na aula de RELIGIÃO), empurrar ele pra um culto.

Ainda no campo das propostas menos heterodoxas temos os campos mórficos de Rupert Sheldrake ou o neolamarckismo que podem ser abraçadas, se forem tomadas como mecanismos complementares à evolução pela seleção natural darwiniana. O fato é que Darwin ainda rende, como se falou muito nesses dias no meio científico, seu trabalho ainda inspira um monte de trabalho que existe ainda por fazer.

Gilson é agrônomo e um dos melhores amigos do mundo

Mike Davis em campo

Mike Davis em campo

Aproveito a  postagem do Joaquim, para copiar e colar a entrevista com Mike Davis, publicada hoje no caderno Mais!, da Folha de São Paulo. Na entrevista, o geógrafo pensa os vínculos possíveis entre a crise econômica e  a crise ambiental. Fala, sobretudo,  da mudança climática. O quadro que ele apresenta deixa pouca margem para a esperança, pelo menos no curto e no médio prazo.

O tema já foi tratado pelo autor . Aparece com freqüência nos seus escritos. Um dos seus livros mais importantes tem a preocupação estampada no título.

Esse tema assusta. Na entrevista de Mike Davis, o alarme soa mais baixo que em outros textos que já li sobre o assunto. Inclusive em outros textos do autor.

Cerca de três anos atrás, li o livro Hora final , escrito pelo cientista britânico Martin Rees. Quando o papo é meio ambiente, este astronômo com cara de lorde não dá refresco a ninguém. Algumas imagens do livro são assustadoras. O planeta descrito lá se acelera em sua auto-destruição. Perde o aspecto de uma maçã suculenta, com a tez lisa e brilhante e adquire, paulatinamente, a aparêcia de uma folha de quaresmeira, fininha e áspera. E pelo andar da carruagem, trata-se de uma folha prestes a cair da árvore. Mas é uma outra abordagem. Ligada às mutações da natureza mediante a ação humana.

Fiquem com a entrevista do sujeito que eu considero o maior crítico do capitalismo da atualidade.

Clima pesado

Pelos menos duas grandes crises assustam as previsões para o decorrer deste ano -e, possivelmente, dos próximos também. Uma delas, já bastante difundida e prontamente socorrida pelos governos, diz respeito ao estado de incertezas que recobre a economia global. A outra, a crise climática e ambiental, ainda parece, no entanto, coisa de um futuro distante -embora já esteja ocorrendo agora, como alerta, em entrevista à Folha, o urbanista Mike Davis.
Professor na Universidade da Califórnia, Davis lembra que “o clima está mudando mais rápido do que a capacidade de adaptação de plantas e animais”. Cita como exemplos as nevascas que vêm atingindo a Inglaterra nas últimas semanas ou as alterações climáticas no sudoeste dos EUA, no norte do México e no leste da região banhada pelo mar Mediterrâneo, locais que têm se tornado mais secos e quentes.
Crítico das implicações ambientais do capitalismo, Davis é autor de obras como “Planeta Favela” (Boitempo) e “Cidades Mortas” (Record). Para ele, “a mudança climática ainda não assumiu um papel central na geração de um colapso econômico, embora tal conjuntura seja obviamente previsível”. Ele aponta, por exemplo, que o aumento no preço dos grãos, em 2008, foi resultado, em parte, dos desastres climáticos dos últimos dez anos. Na entrevista abaixo, Davis defende que “as mudanças para salvar o planeta devem envolver a redistribução do poder econômico e a redefinição dos padrões de consumo em níveis sociais e globais”. (ESM)
FOLHA – Qual é a relação entre as mudanças climáticas das últimas décadas e a atual crise econômica?
MIKE DAVIS
– Os desastres climáticos da última década quase destruíram a indústria global de seguradoras e contribuíram para a perigosa e recente inflação nos preços de grãos. Mas a mudança climática ainda não assumiu um papel central na geração de um colapso econômico, embora tal conjuntura seja previsível. Por outro lado, graças à crise e à campanha de Barack Obama, o “keynesianismo verde” emergiu como uma ideia poderosa que poderia reagrupar o movimento ambiental e os sindicatos em torno do investimento público no emprego, gerando investimentos públicos em infra-estrutura verde. Corporações lobistas, naturalmente, aceitam o slogan de que uma infra-estrutura verde está tão distante quanto a possibilidade de transformar uma política para indústrias de alta tecnologia e riscos capitalistas. Entretanto a simples introdução da ideia no discurso público é um progresso e oferece uma nova ligação entre verdes e trabalho.

FOLHA – O sr. acredita que o governo Obama irá tratar com mais responsabilidade que o governo George W. Bush os impactos da crise ambiental e climática?
DAVIS
– Sim, e Obama não somente cooperará com a União Europeia e outros países que assinaram o Protocolo de Kyoto [tratado internacional que prevê a redução na emissão de gases poluentes na atmosfera], mas provavelmente abrirá um novo canal para negociações climáticas com os chineses. Contudo, é uma outra questão prever se as negociações produzirão resultados sérios. Os países europeus que tomaram a direção das negociações sobre o clima estão agora divididos internamente e indecisos, logo há expectativas fantasiosas -como sobre a economia e a capacidade de Obama de se tornar líder mundial. Mesmo nos EUA prometeu mais do que poderia, pois sua agenda de trabalho será moldada pelo Congresso. Além disso, ele comprometeu seu próprio programa ambiental ao demonstrar entusiasmo pelo “carvão limpo”. Pois os carros elétricos terão pouco impacto na redução do aquecimento global se a eletricidade continuar a ser produzida com carvão.

FOLHA – Diante da crise ambiental, que novo clima está a caminho?
DAVIS
– Estamos vivendo em uma nova Terra. No próximo século, o sistema climático global será governado por níveis de acumulação de gases sem precedentes nos últimos 3 milhões de anos. A maior retenção da energia solar conduzirá a mais eventos climáticos extremos; contudo, e mais importante, reorganizará padrões de chuvas regionais e temperaturas, com grandes implicações para a agricultura irrigada e a qualidade da água consumida nas cidades. O papel de massas polares marítimas, produtividade agrícola, poluição urbana etc. complicará enormemente a constituição de climas futuros. Mas duas tendências estão claras: o aquecimento acelerado das altas latitudes do hemisfério Norte, com o consequente derretimento do gelo marinho, e a dramática expansão de regiões semiáridas nas latitudes médias. De acordo com os estudos de ponta de Richard Seager e sua equipe no Lamont-Doherty (laboratório da Terra da Universidade Columbia, nos EUA), as condições climáticas no sudoeste americano, no norte do México e, possivelmente, no leste do Mediterrâneo já estão mudando, com estações mais quentes e mais secas. Em muitos casos, o clima está mudando mais rápido do que a capacidade de adaptação de plantas e animais, provocando, desse modo, a extinção de espécies e simplificações ecológicas. É mais fácil, claro, visualizar os rápidos processos e as singularidades catastróficas -gigantescos furacões, secas épicas etc.- do que ver os aspectos mais lentos, porém ainda mais poderosos, da mudança do clima -diminuição gradual da produção agrícola, desertificação crescente etc.

FOLHA – A nevasca que caiu no Reino Unido no início deste mês foi a pior dos últimos 18 anos no país, paralisando aeroportos, o sistema de transportes e acarretando enormes prejuízos econômicos. As metrópoles serão os espaços que mais sofrerão com as mudanças climáticas?
DAVIS
– Bem, clima atípico é clima. Os indícios científicos ligados ao aquecimento global não são visíveis apenas em algum caso particular. Por essa razão, um observador prudente hesitaria em atribuir a nevasca em Londres e mesmo o furacão Katrina [que destruiu a cidade de Nova Orleans, no sul dos EUA, em 2005] a uma mudança climática antropogênica. Por outro lado, a incidência de colapso dos sistemas urbanos por eventos climáticos extremos tem aumentado. Serão necessários trilhões de dólares para adaptar as cidades, mesmo as ricas, ao clima novo e “normal” que está chegando.

FOLHA – Na sua opinião, os programas de combate ao aquecimento global têm sido eficientes?
DAVIS
– Não, falharam até em relação a expectativas modestas. Kyoto teve impacto insignificante, e as emissões de gases de 2000 a 2007 aumentaram mais rapidamente do que era previsto nos piores cenários. E há um otimismo público pequeno, em meio à crise econômica mundial, de que a conferência do clima de Copenhague [na Dinamarca, onde se discutirá, em dezembro, um acordo substituto para o Protocolo de Kyoto, que expira em 2012], produzirá uma continuação séria de Kyoto. Alguns países europeus, incluindo Alemanha e Itália, estão indo agressivamente atrás de carvão -o combustível fóssil mais sujo e mais barato. Precisamos de uma estratégia mundial para a adaptação ao aquecimento global, assim como a redução nas emissões de gases de efeito estufa. Mas, graças ao fracasso dos países ricos em reduzir as emissões, a maioria dos impactos ruins cairá sobre países mais pobres, com menos meios para adaptar seus sistemas agrícolas, recursos hídricos e ambientes construídos. Por isso é que devemos lutar para ganhar o reconhecimento da “dívida ecológica” que o Norte tem com o Sul: somente grandes transferências de renda podem permitir que os países mais pobres invistam em adaptações significativas (colheitas novas e irrigação de gotejamento, conservação da água urbana, energia solar etc.)

FOLHA – A defesa do ambiente exige a atuação conjunta de mudanças individuais de atitude e políticas públicas que alterem hábitos coletivos de consumo. Como implementar de maneira eficaz tais processos?
DAVIS
– Promover uma ética verde em nível individual é importante, e nós deveríamos ser responsáveis pelos nossos impactos ecológicos.
Não tenho nenhuma simpatia por ecologistas que querem salvar a Terra reduzindo a população humana a níveis pré-industriais, mas entendo a confusão sobre como traçar o círculo da sustentabilidade com a urgência do fim da pobreza.
Como todos sabemos, diversas Terras adicionais seriam exigidas para permitir que toda a humanidade viva em uma casa suburbana com um estilo de vida norte-americano, com dois carros e um gramado.
Minha própria solução abstrata para esse enigma, que será o assunto de meu próximo livro, é substituir, tanto quanto possível, o consumo público pelo privado. Acredito que a pedra angular da cidade do baixo-carvão, mais do que qualquer desenho verde ou tecnologia em particular, é a prioridade dada à afluência pública sobre a riqueza privada.
A maioria das cidades contemporâneas, em países ricos ou pobres, contém capacidades ambientais potenciais inerentes aos densos assentamentos humanos. O gênio ecológico da cidade permanece um poder vasto, quase sempre escondido.
Mas não há nenhuma deficiência planetária da sua “capacidade de carga” se nós estamos dispostos a fazer do espaço público democrático o motor da igualdade sustentável.
A afluência pública -representada por grandes parques urbanos, por museus livres, por bibliotecas e possibilidades infinitas para a interação humana- representa uma rota alternativa para um rico padrão de vida personificado em uma carnavalesca sociabilidade.
O Brasil, apesar de suas gigantescas desigualdades, tem sido um laboratório avançado para as experiências que unem democracia popular, economia verde e espaço público.

da Folha de S. Paulo do dia 15 de fevereiro de 2009

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Aqui, escuta-se uma conversa de Mike Davis com Susan Straight

Farewell, Farewell

Farewell, farewell...

A melhor notícia dessa semana foi a demissão do Felipão. Não, eu não sou desses que torce contra o técnico do pentacampeonato. Muito pelo contrário, sou fã dele e espero que os medos do Dunga se confirmem e o Bigode volte, junto com o seu inseparável Murtosa (por favor), ao comando da seleção canarinho.

Fora isso, nem banda indie tá querendo mais amarrar o burro naquela ilha fria. Seguindo a dica do Hermenauta, a Inglaterra é a primeira de uma fila sinistra para ver quem será a próxima Islândia. No clima, pelo menos, a ilha da Rainha Elizabeth já está bem perto.

Nos esportes, a coisa começa a assustar a ponto do Reino Unido  temer pelos Jogos Olímpicos de 2012. Até agora são só temores, mas no mundo do futebol a crise já chegou (e não só para o Chelsea, mas também para o Liverpool e para o Manchester, que era patrocinado pela AIG).

Agora, para o Roman Abramovich (ex-patrão do Felipão), a coisa está muito pior. E não só por que ele mandou embora um ótimo técnico de futebol e está acumulando o olho gordo do Brasil inteiro (com exceção de uns torcedores exaltados do Colorado). A sua fortuna bastante controversa estava na lavanderia do mercado financeiro e encolheu de 18 bilhões de euros para 2,4 bilhões depois que o bicho começou a pegar nos Estados Unidos, ainda em setembro do ano passado.

O André Kfouri publicou um post bem interessante sobre como o Felipão teve que suar pra equilibrar as contas no Chelsea. Fora isso são fortes os boatos de que o chefão russo tem pensado seriamente em passar o ponto pra algum milionário árabe.

Por essas e por outras, nada melhor para o Felipão do que pular fora dessa barca furada, antes que o Chelsea vire um Palmeiras sem Parmalat. Agora, é só despachar o Dunga e depois meter uma goleada na Inglaterra. Pro Lampard e o John Terry pedirem transferência pro futebol de Trinidad e Tobago.

Sobre os bilionários russos, vale a pena assistir ao documentário da BBC, The Russian Godfathers.

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E para ler mais sobre trapalhadas administrativas, vale a pena acompanhar a série de Israel do Vale que promete mostrar como a politicagem na TV Brasil está enterrando as chances do País de ter uma TV pública de verdade.

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