FHCardoso1

Ex-presidente e ex-sociólogo, o sicofanta maior da nação também teve seus momentos tropicalistas em Coimbra

Não fosse o Tiago e o Gua Gua estaria as moscas. Eu tô enterrado na mudança de trabalho e cidade que eu preparo aqui. O Jay também tá enrolado com o final de semestre e com os perhaps da vida. Só o gêmeo mais jovem constrói, ainda que a carga do fim de 2009 também esteja bem pesada pra ele.

E eis que Caetano Veloso (com uma forcinha do Estadão) entrou no jogo eleitoral. Em sua defesa do voto em Marina Silva, o cantor diz que ela é uma versão de Lula misturada com Obama. Seria uma Lula sem cafonice. Nada mais superficial com tintas de politizado que isso. Parece um metaleiro que gosta do Carlinhos Brown por que ele toca no Sepultura, foi aceito no clube. Se vergonha alheia matasse, só essa expressão tinha causado um genocídio na República Odara.

Não para aí, na mesma entrevista, ele defende Roberto Mangabeira Unger, o antagonista que tirou Marina do Ministério. Ou seja ele quer o simbolismo de Marina, mesmo sem saber o que o governo dela quer dizer. É muito parecido com sua adesão ao Gabeira. Não importa se o Armínio Fraga tá na jogada, não importa que o ex-deputado tenha participado do Parlamenturismo. O importante é que ele é do mesmo nicho social que Caetano. Marina não é, mas tem um discurso aceito.

Na entrevista, chama Lula de analfabeto e, com isso, tenta arrumar briga com um de seus maiores desafetos, o lingüista Marcos Bagno. Já falamos dele aqui no Guaciara e Caetano, em sua experiência blogueira, sempre o pintou como um arauto da ignorância. E fala da “grossura” de Lula pra jogar aquele cuspinho que afoga o inimigo.

Depois, emenda-se a falar do programa econômico “de direita” de Lula. Repete o velho argumento de que Serra no poder orquestraria medidas econômicas mais progressistas. Eu, sinceramente, tenho dificuldade de entender o que o Caetano Veloso quer dizer com isso.

Ainda mais quando diz que um governo que aposta no impacto econômico do gasto social é de direita. A batalha de passar a dívida em dólar para dívida em real é direita? A ascensão social seria fruto de medidas de direita? E a cessão de crédito do bancos públicos contra todos os interesses privados? Agora na crise, por decisão do governo, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal abriram as torneiras do crédito – anêmico nos bancos privados. Foi isso que freou a onda de demissões das empresas privadas brasileiras.

O governo também trabalhou pesado na área fiscal. Pode ter um custo no futuro, mas como  escreve José Paulo Kupfer:

Na área fiscal, a desoneração de impostos para a compra de material de construção, automóveis e eletrodomésticos animou os consumidores e garantiu um ritmo razoável de produção. Não à toa, o setor automotivo brasileiro virou case internacional, com vendas recordes mês a mês, apesar da grave crise. Na construção civil, um novo e amplo programa de financiamento de habitação e estímulo setorial (“Minha casa, minha vida”) nasceu dando certo numa das faixas de renda (de três a dez salários mínimos), embora ainda patine na faixa mais baixa.”

Caetano disse que tinha de estudar, mas reclama da ignorância do governante. Assim como FHC, ele reclama do governo, chama de autoritário e aparelhador. Também repete o discurso mais antigo e mitológico do inchaço da máquina pública.  As contratações do setor público e o olho para a descentralização das medidas têm criado um novo caldo de cultura político, distante das metrópoles e isso acontece na área social, econômica e cultural. Mas a miopia antiquada e conservadora de Caetano e de Fernando Henrique sofre para ver isso.

Caetano dá de barato e “esquece” de mencionar a área da Cultura. Afinal é a sua turma que impede que 90% dos artistas tenham acesso às mesmas verbas que os latifundiários culturais do grupo dele. Para essa desigualdade, ele não clama por Marina. No latifúndio da cultura ninguém mexe. Não vale a pena nem conhecer a contra-proposta.

É engraçado que o sickoFHanta mór tenha escrito um texto só alguns dias antes de Caetano. O ex-presidente e ex-sociólogo, do baixo de sua impopularidade (em enquete do Uol, ele injustamente perdia até pro Collor e pro Sarney na pergunta: “quem foi o melhor presidente do Brasil?”), reclamava do que chama de “autoritarismo da maioria”, segundo ele o governo desrespeita as regras do jogo e a iniciativa privada.

O argumento é claramente uma reação às cobranças do governo e dos fundos de pensão público contra a diretoria da Vale do Rio Doce.

O curioso é partir de um presidente que mudou as regras do jogo enquanto ele estava em andamento para garantir a sua reeleição.  Fernando Henrique seguiu o Fujimorismo em voga na época para garantir o seu segundo mandato (o mesmo ideal que se repete agora no governo Uribe, na Colômbia). Além disso, foi um dos poucos governos a reconhecer o ditador nipo-peruano. E lá não tinha referendo, era pau e pedra. Se tivesse no poder, estaria se congraçando com os golpistas de Honduras, assim como fizeram os deputados da sua base parlamentar. O príncipe  agora me vem falar no tal autoritarismo popular para questionar o papel brasileiro na crise?

Sinceramente, qualquer comerciante de porta de boteco sabe que o papel do governo é fomentar a economia – quem sabe do dinheiro que sai do BNDES e entra na Vale do Rio Doce com certeza não duvida disso. É difícil encontrar também alguém que não tenha uma idéia que uma tonelada de minério e uma viga de metal têm valores muito diferentes. Por que não produzir ferro? E não precisa ser muito inteligente para saber que sem a ação do Estado, o Brasil mergulharia na crise assim como os outros países mergulharam.

Agora, por que o Fernando Henrique não abriu o bico, quando a Vale saiu demitindo funcionários com medo da crise? Quando o presidente Lula reclama da falta de investimentos da maior empresa privada do país, ele tá reclamando da falta de iniciativa do setor privado, que prefere mamar nas tetas das medidas do governo federal, reclamar de impostos e não tem empreendedorismo para mudar nada. Além disso, como me disse o Tiago, o ex-sociólogo  vulgariza a interpretação de Francisco de Oliveira em O ornitorrinco, sobre o papel dos sindicalistas nos fundos de pensão.

O ex-presidente e ex-sociólogo e o cantor, precisam conhecer melhor o Brasil que mudou muito e para melhor na ausência deles. Caetano padece de um conservadorismo deslumbrado e ignorante e Fernando Henrique de um rancor mal esclarecido, que nem seus companheiros tucanos acompanham mais. Se a oposição for essa, tá difícil do Brasil ter alguma possibilidade de alternância de poder conseqüente em um futuro próximo. Melhor.

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E o símbolo desse Brasil nada brasileiro só podia mesmo ser uma importadora

E o símbolo desse Brasil nada brasileiro só podia mesmo ser uma importadora com problemas na Receita Federal. Coisa de primeiro mundo.

O debate do meu post anterior foi pra uma direção muito interessante. Ao pensar o valor que os grandes jornais brasileiros dão a bandecas estrangeiras, apesar delas se valerem de elementos caricatos da música brasileira, fez eu retomar uma conversa que a gente já vinha tendo aqui no blog. Pra melhorar, na mesma Folha de S. Paulo, hoje o Caetano deu uma declaração breve mas muito interessante sobre essa cultura de ódio ao Brasil.

Sou um brasileiro brasileirista. Gosto de São Paulo porque é diferente do Brasil de Vargas e da Rádio Nacional. Mas odeio a cultura do desprezo a tudo o que ganhou ou ganha corpo no Brasil (inclusive Vargas e Rádio Nacional). Outro dia li um idiota desqualificando meu canto em “Zii e Zie” porque supostamente pareceria com Cauby Peixoto e Ângela Maria. Mas eu penso que os EUA só se salvarão quando entenderem Chico Buarque e Lulu Santos.”

Tal pensamento anti-Brasil está presente em todas esferas mais abastadas da sociedade, dos cadernos de cultura aos diretores de banco, passando por colunistas de revista, professores universitários, partidos políticos etc.

Na imprensa, a ideologia anti-Brasil ganhou força na rabeira do jornalista Paulo Francis em um período muito específico do Brasil: a eleição de Fernando Collor de Melo.

O jornalista com voz de pato rouco se alinhou a Roberto Campos no final dos anos 80 como um defensor das idéias neoliberais de Thomas Milton Friedman. Para ele, o Brasil era um país atrasado e emperrado por causa do tamanho do Estado. Nada aqui poderia dar certo.

Se pararmos pra pensar, na herança militar, a observação até tinha algum sentido de ser. Eu discordo, mas o contexto brasileiro era de fato desanimador e não apontava muitas perspectivas. A política econômica do Delfim Netto botou a gente devendo até as cuecas.  A tranferência de tecnologia era bem mais complicada e o Brasil tinha mesmo um parque industrial bastante atrasado em relação ao resto do mundo.

A juventude do primeiro suspiro da redemocratização nasceu ouvindo a MPB e se bandeou para o rock 80. A mentalidade era parecida com a da substituição de importações. Ninguém tinha o menor pudor (assim como na Jovem Guarda) de gravar versões da música americana, mas a temática e a sonoridade era essencialmente brasileira.

Tudo dizia respeito ao que a classe média vivia no País. Parecia ser um jeito desse público que cresceu escutando rock setentista e a MPB de se aliviar um pouco do peso político que as canções convocatórias haviam ganhado.

Assim como essa geração jovem ficou por quase dez anos pelas rádios e cadernos culturais e envelheceu os ouvidos por aqui,  as ilusões depositadas na solução de todos os problemas pela redemocratização foram caindo uma a uma. O trabalho de reerguer as instituições brasileiras se mostrou muito mais árduo do que parecia. A reconquista do voto era só um passo.

O grande Idelber Avelar tem uma interpretação muito interessante sobre o efeito da redemocratização do Brasil no rock brasileiro. Cito ele de cabeça, e já peço desculpas ao professor de Tulane, por qualquer imprecisão. Mas, segundo o que eu me lembro, à medida em que o movimento das Diretas Já! era tomado de assalto pelo MDB e pelos carlistas da Arena (que fundariam a Frente Liberal), mais os jovens se desencantariam com o processo e se desapontariam com os rumos das coisas no Brasil. A música das diretas que se bandeou para a transição negociada foi a MPB de um Milton Nascimento que já não era o mesmo dos seus grandes dias. O que jogou tudo o que a juventude via de rebelde na MPB no ralo.

Idelber acredita que ao se sentir traída pelo seqüestro tancredista do movimento das diretas, a juventude de classe média baixa e pobre criou o heavy metal em BH. Eu acredito que esse fenômeno do heavy se repetiria em todo Brasil. Um movimento de revolta pura e simples que tinha pouco interesse na comunicação com o País, preferia se voltar pra um gueto (até então a possibilidade do mercado externo ainda era bastante remota).

Foi nesses anos 80 que os punks e os carecas brasileiros ganharam força, em toda sua diversidade de grupos e facções. Eles também tentavam expressar uma revolta pouco escutada. Algo que passava longe das discussões que o país travava diante das câmeras.

Até que em 1990, surge um discurso que leva essa indignação à direita em favor da classe empresarial brasileira e internacional. O grupo político de Fernando Collor defendia que nosso problema era o atraso. O problema eram os fuscas, a falta de comunicação com o que acontecia nos países mais ricos. Outro presidente depois se queixaria do nosso caipirismo.

Na imprensa cultural isso também ressoava com força nas colunas do André Barcinski e do Álvaro Pereira Júnior. Na época, o problema era a programação das nossas rádios, que não tocavam o último disco do Ramones (que já eram bem velhinhos também), do Soup Dragons (alguém lembra da bomba?), do TAD, os Telescopes ou sei lá de quem. Éramos parados no tempo e o público brasileiro não conhecia o que “rolava na gringa”.

Essa ideologia só refletia um pensamento que também acontecia na política e na economia. A privatização da economia e a modernização da gestão era o tema dos debates em todos os lados. Roberto Campos e Paulo Francis se alardeavam como inimigos da Petrossauro e da Eletrossauro que deviam ser privatizadas.

Vários poréns podem ser colocados a esse processo, principalmente do pónto de vista da música brasileira – que nessa época vivia um longo período sem renovação -, mas é impressionante como a conversa anti-Petrobrás, anti-intelectualidade brasileira, anti-cinema e teatro nacional e contrário à música feita por aqui ainda persiste.

A agenda da direita brasileira continua a mesma. O representante com maior visibilidade desse discurso é o filho do publicitário Ênio Mainardi. Recentemente, o herdeiro do autor da campanha pelas armas escreveu por exemplo sobre uma escritora irlandesa que havia “matado a charada”. Segundo a tal, que não lê português, Chico Buarque e Milton Hatoum “não tinham cultura suficiente” para serem bons escritores. Foi só ela bater a cara naqueles aborígenes literários para perceber que não haveria futuro para os filhos da colônia portuguesa.

A ideologia é a mesma de quem acha que a Amazônia devia ser entregue para os países mais ricos; gente que estupra empregada e bota culpa no Brasil; gente que mora aqui e pede desculpas por isso; gente que sempre acha que na Califórnia é diferente

Esse é só um exemplo, mas essa fascinação faz com que tudo que não tem chancela internacional seja considerado ruim. Até a música ganha respeito quando sai na revista gringa, quando o aplauso é de um músico internacional (qualquer um, pode ser o guitarrista da banda com os melhores cortes de cabelo de Brighton). Vale qualquer aprovação, desde que vinda de qualquer imbecil que junte três orações em um idioma estrangeiro. Não importa muito o mérito e nem a qualidade da discussão, o que importa é começar uma conversa e gastar o seu investimento no CCAA a vontade.

havia escrito sobre isso em outros momentos. Na minha opinião, a subserviência,  a vontade de conquistar mercados além-mar e fazer o blogueiro indie rocker do sul do Maine sorrir tem transformado a música brasileira, mas para pior.

Por que no final esse ódio ao Brasil e a qualquer coisa feita aqui nada mais é do que uma vontade de entregar o seu destino e a sua reflexão na mão de outros. O desejo de ter alguém pra decidir sobre sua vida.

Muita gente famosa morreu nesses dias, alguns de talento superior. Se a dança perdeu Michael Jackson, o seu maior entertainer na semana passada, hoje ela viu ir uma de suas maiores artistas: Pina Bausch.

Pina Bausch em ensaio em Wuppertal

Pina Bausch em ensaio em Wuppertal

Os dois pensavam o movimento corporal como poucos, mas Pina Bausch, para mim, é um dos maiores símbolos da alegria de viver e de fazer o que se faz. Ela adorava o Brasil e esteve aqui várias vezes. Como eu sou besta, só a vi uma vez. O suficiente para cair de amores. Foi como da primeira vez que eu escutei The Fall ou vi uma tela do Picasso, me converti em um adorador com o pouco que conhecia.

Assim, se a morte de Michael Jackson me deixou perplexo pela tragédia que ele representava, a de Pina me deixou triste pela alegria que ela fazia questão de demonstrar. Tanta, que no carnaval desse ano, resolvi começar as comemorações com um lindo e tocante vídeo da Pina Bausch.

Em 2000, Caetano Veloso tentou falar de sua adoração de Pina Bausch, no fim falava de tudo, mas muito pouco de Pina. Começava o texto Aquela coisa toda assim:

Não sou dançarino. Já na estréia de Livro vivo, em São Paulo, eu deliberadamente fazia, num determinado momento, gestos repetitivos, maquinais-obsessivos, num estilo que muitos associam ao trabalho de Pina Bausch: era um aceno a essa artista que me apaixona.

E terminava de um jeito que parece ser muito verdadeiro:

E Pina Bausch? Lá vai Caetano, dirão, olhando para o próprio umbigo, escrevendo sobre si e sobre o que vai escrevendo sobre si. Mas não é. É que entrar em contato com uma artista grande como Pina é arriscar-se a passar por mudanças que requerem auto-reexame. Em outras palavras: a quem me dá a vida não posso oferecer nada menos do que isto: a minha vida.

O Caetano adora falar dele, mas nisso ele não poderia ser mais preciso. Então, melhor vermos a beleza da arte da Pina Bausch. Aqui, um lindo documentário de 2006 sobre a artista. Depois, sua dança:


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