Tudo bem, tudo bem, nesse blog já passa mosca e o que tem de teia de aranha acumulada aqui e ali não está no gibi. O ano de 2011 não foi fácil pra ninguém e isso acabopu refletindo nesse abandono do Gua Gua. Mas a retomada começa agora e nada mais nobre do que dar uma força ao nosso grande amigo André Mantelli.
A alegria em pessoa Mantelli foi responsável por momentos muito felizes no Rio e são dele (e do meu chapa Alberto), as imagens de um dos dias mais felizes da minha vida.
Ele é um fotógrafo excelente e ontem foi assaltado no Rio. No roubo, subtraíram dele quase todo seu equipamento, isso bem em meio a um grande trabalho que ele faz sobre a Mata Atlântica. Por isso reproduzo o post que ele fez em seu blog. E convido todos a darem uma força em sua vaquinha.
manta aid
é verdade, como cartunista sou um excelente fotógrafo.
e é exatamente por isso que criei esta página para que aqueles que gostam das minhas imagens-histórias possam me ajudar na reconstrução de um pequeno patrimônio de trabalho.
(para quem ainda não sabe, perdi todo o meu equipamento fotográfico, que estava sem seguro, num assalto no rio)
pensei muito antes de optar em colocar este help aqui. aliás, bastaria dar o nº de uma conta. contudo achei interessante abrir valores, prestar contas e agir com transparência monitorando publicamente a evolução desta campanha. se tiverem outras sugestões, serão mais que bem-vindas.
fiz duas listas: a primeira corresponde exatamente ao que perdi, que é a meta mínima, 18 mil reais;
a segunda coloquei um ‘plus’ sobre o equipamento – vai que a galera se empolga – e tento complementar.
mas, afinal como disse lévi-strauss, ’vive-se em abundância e “nada falta a não ser o que não se tem.’
para alguns, pode ser uma oportunidade de investimento. mais ou menos como um leilão.
por exemplo.
se vc doar 20 reais pra causa, ganha um portrait de vc mesmo em formato digital que mandarei por email. não se preocupe, uma hora estaremos na mesma cidade, rs.
imagino fazer uma expo com retratos deste movimento solidário. usarei sua imagem, se autorizar.
por módicos 50 reais vc leva o mesmo retrato impresso, formato 20 x 30 cm.
doando 100, vc faz três destes últimos (mas só um seria usado naquela exibição).
500 reais a gente faz o portrait que poderá ser usado na expo + um ensaio fotográfico, com 20 fotos finais (sem impressão).
1000, vc ganha o ensaio + uma ampliação de 75 x 50 cm de foto a escolher no flickr/mantelli.
ou faça sua proposta!
mas nos ensaios não estão incluídos possíveis custos de produção, certo?
peço que espalhem, divulguem, me ajudem a romper a meta.
absolutamente tudo será revertido para uma produção fotográfica apaixonante.
(pelo menos é o que pensa o apaixonado)
obrigado de coração pela generosidade e fraternidade.
A excelente revista +Soma publicou há uns dois meses a resenha que eu escrevi pro último disco do Mike Watt, hyphenated-man. Sempre fui muito fã do Minutemen e do próprio Watt. O trabalho mais recente foi uma grata surpresa. Nas curtas composições no disco lançado neste ano, o baixista volta a trabalhar com a estética de síntese musical que ele, D. Boon e George Hurley desenvolviam no início dos 80, a partir dos trabalhos do pintor flamenco Hyeronimous Bosch.
O punk partiu de uma necessidade de refletir e sintetizar de maneira crítica o que até então havia acontecido no rock. O clichê do punk como inimigo do rock progressivo nada mais é do que uma interpretação pouco aprofundada sobre um grupo de pessoas que se afirmou – no final dos anos 70, começo dos 80 – reconhecendo na música popular para rádio uma estética já formada e que não precisava de diálogo com estilos mais consolidados para ser levada a sério, para dialogar com as outras coisas do mundo.
Nenhuma banda foi tão efetiva nesse sentido como o Minutemen. Inspirados pelo Pink Flag, do Wire, partiram para suas longas reflexões sobre a música em composições de pouco mais de sessenta segundos. Coisa que só amigos, obcecados por som poderiam fazer. Ao longo da carreira, começaram a elaborar esses pequenos fragmentos em composições maiores e em outros tipos de canção, sempre refletindo sobre o rock e sobre o impacto da cultura independente na sociedade.
D. Boon, guitarrista do Minutemen, definia o punk, em tradução livre, como qualquer coisa que queremos que assim seja. Após a sua morte, esta noção de liberdade continuou permeando as carreiras dos dois remanescentes da banda de San Pedro. Mike Watt, o baixista,
principalmente.
Sua trajetória errática no cenário independente americano fez com que Watt passasse em formações que vão dos Stooges aos experimentalismos dos Ciccone Youth. Mas em seus trabalhos solo, sempre parecia que o baixista mais influente da música independente americana estava tateando um caminho. Isso até o incrível “hyphenated-man”.
O disco é chamada por Watt de sua terceira ópera, mas não espere a trajetória de protagonistas com começo meio e fim ou uma interpretação roqueira de algum modelo clássico. Inspirado pelo pintor flamenco do século XV, Hyeronimous Bosch, hyphenated-man é composto de 30 pequenos fragmentos musicais (só uma canção tem mais de dois minutos) que soam como se olhássemos para uma tela cheia de personagens caricaturais e situações bizarras. São peças com significados particulares – como os personagens-provérbio de Bosch –, mas que têm um sentido comum entre elas.
É nesse painel que Watt recupera muito do poder de síntese do Minutemen (são só três instrumentos!), dialogando com a estética que o grupo construiu nos anos 80 (as canções foram compostas em uma antiga telecaster de D. Boon) e com muito da música que formou a sua geração – de Captain Beefheart e Credence a Wire, Black Flag, Gang of Four. O resultado é empolgante e esclarecedor para entender um dos personagens que ajudou a dar forma para o rock como nós o conhecemos hoje.
O que é ótimo, boas indicações e pesquisa. Mas me deu vontade de falar do Brasil. Daí gastei umas horas tardias e fiz esta lista. Não é o caso do meu blog, mas acho que pode ser o caso do Guaci. A verdade é que fiz com cuidado, mas, só eu não vale. Daí pensei em fazer uma enquete também.
Na verdade, me interessei em saber o que é, o que ficou, sob vários parâmetros… Importância histórica, significado na época, mas, o que nós, da geração posterior, pega e o que fica, a estética e a política, enfim, acho que dá caldo.
Claro, você vai entender a lista e, bora….
Segue minha lista primeira é esta (querendo que seja contestada e acrescida…)
A exposição mais badalada do momento em São Paulo é de uma artista muito ruim: Paula Rego. Ela erra a mão na técnica, sobretudo no empasto do giz pastel, apela pra temática moralmente impactante e se mostra uma chata de galocha. Mas a cidade tem muita coisa legal pra ver.
Na Caixa Cultural, na Praça da Sé, há uma boa amostra de trabalhos recentes de Tatiana Blass, pude conhecer também o trabalho de residências da Red Bull, com boas surpresas e desenvolvimentos empolgantes de artistas que acompanho, como Ana Prata. No CCBB, a exposição sobre o Islão tem um bom andar sobre caligrafia e uma parte razoável de indumentária. Gostei e me surpreendi com o filme de Yoshua Okon, na Baró, e curti as pinturas de Rodrigo Borges, mas gostei mesmo é do cubão dele, na Emma Thomas. As duas galerias ficam no mesmo prédio.
Agora, ainda não vi a mostra nova do Waltercio Caldas , na nova Raquel Arnaud e nem a do William Kentridge na Soso. Não passa da semana que vem. Mas fui mais de três vezes ver os filmes do Anri Sala e as pinturas do Paulo Pasta. Aliás, tive a honra de escrever o texto sobre a última exposição do artista que parece falar muito das particularidades da arte contemporânea daqui. O texto segue abaixo. Antes, celebro. Semana que vem abrem duas coletivas que prometem: segunda no Paço das Artes e quarta na Galeria Millan. Essa, vem com o melhor conceito curatorial de todos os tempos: Porque sim.
Segue o texto sobre o Paulo Pasta:
Azul três cruzes, 2010 óleo s/ tela 50 x 70 cm
As escolhas recentes de Paulo Pasta nos deixam a impressão de que ele busca maior clareza em sua pintura. Há alguns anos, as tintas estão menos opacas, as cores são menos nebulosas e as formas têm contornos nítidos. O traçado turvo das figuras deixou de existir. A passagem tonal permanece suave, mas é evidente.
Agora, a tela é feita de áreas de cor que se inscrevem umas dentro das outras. Antes, o artista partia da natureza-morta, como sugestão, agora usa a pintura de espaços interiores. Está mais para Vermeer do que para o Morandi anterior. No entanto, aqui é difícil saber o que envolve o que. Por isso, mesmo que pareça menos embaçada, a estrutura ainda é indefinida.
Num díptico, a viga que estrutura o primeiro quadro aparece como um retângulo miúdo na tela vizinha. Não sabemos que cor está dentro, que cor está fora. O artista partiu de uma pintura em que as formas não parecem plenamente constituídas, amadurecidas, para outra, feita de espaços intrincados.
Parte da pintura brasileira tem como tema central essa indeterminação da imagem. Por exemplo, nas paisagens de Guignard, a cor lavada não esclarece qual é a extensão do lugar que pinta. A profundidade parece ter sido suspensa. Tudo é neblina. Neblina pontuada por casas, figuras miúdas. Os personagens das últimas pinturas de Iberê Camargo também são massas de tinta que tentam se mostrar como corpos. Ciclistas que se movimentam em busca de uma forma definida para uma massa disforme.
Paulo Pasta é o artista que melhor lida com essa indefinição do espaço e quem trouxe isso de maneira mais evidente para a reflexão da arte contemporânea. Mais ainda, fez dela contraponto claro às formas recentes de arte que vendem decoração luxuosa, planos mirabolantes e prazeres momentâneos como formas de sugerir espaços deslumbrantes. Mas também não parte daí para um elogio ao ascetismo ou à dificuldade. Só afirma que para encontrar beleza e harmonia, é preciso se haver com um mundo violento. Lugar encantador, mas onde sacadas espertas não bastam.
Este é um texto singelo que conta um pouco sobre a exposição Quase Figura. Uso para convidá-los para a abertura na quinta-feira, às 19h, na Galeria Marília Razuk.
mapa
A semana começou com trenas, martelos e marcadores de nível. Durante a montagem de uma exposição, impossível não agradecer quem estabeleceu as unidades de medidas e quem criou os aparelhos de mensuração. Depois que todos os artistas foram escolhidos, todos os problemas de transporte resolvidos e toda a infraestrutura checada, as questões dizem respeito à distância entre um trabalho e outro.
Desde o semestre passado bolo essa exposição. Quando fui convidado pela marchand para montar uma coletiva no novo espaço de sua galeria fiquei animado, não é uma tarefa que me deixa muito seguro, mas sempre eu aprendo.
É que nunca me pensei como curador e é algo que eu pelejo um pouco pra fazer direito. Todas as vezes em que emplaquei uma exposição, eu fui convidado. Aprendo a cada vez, mas sempre me penso como o rapaz da plateia convidado a participar do espetáculo. O ofício sempre me deixa muito satisfeito.
Como não raciocino como um montador de exposições, sempre tento fazer as opções mais simples. O meu olhar para montar a exposição é o mesmo ao visitar uma exposição. Ver trabalhos com individualidade e, se possível, mas só se possível, permitir que a relação entre uma obra e outra, um artista e outro, nos revele aspectos menos conhecidos de uma poética,. de um país, de um período histórico.
As escolhas, como disse antes, sempre são simples. Nesta exposição, resolvi trabalhar apenas com artistas do elenco da galeria. Como o trabalho de muitos artistas me interessava, resolvi trabalhar com muito poucos nomes e selecionei alguns pequenos grupos de três ou quatro para ver o que era possível fazer.
A combinação escolhida permitiu um número maior de relações no espaço. Eram artistas muito sólido, mas variados. Com identidade visual marcada, mas que, ao mesmo tempo, levantava muitas questões sobre a arte recente.
A princípio, a curadoria não tinha tema, era só a conversa entre bons artistas. Na medida em que simulava relações entre diferentes trabalhos, uma certa liquidez na discrição das imagens se tornava comum a todos os trabalhos. A figura sugeria algo reconhecível, mas logo depois desfazia. Fui encontrando isso ao acaso. Muitos dos trabalhos não guardam relação. é difícil, por exemplo, definir o que as esculturas e desenhos de grandes artistas como Cabelo e Paulo Monteiro têm em comum.
Mas ao serem colocados lado a lado, descobrimos coisas que talver os próprios artistas nunca tenham se atinado. Bem, isso é o mais legal de fazer exposições. Aprende-se como aprendemos ao ir muitas vezes na mesma mostra de artistas que gostamos. Nesta exposição, escolhi artistas que admiro muito. Por isso, sinto-me muito seguro para convidar todos vocês. Ficaria muito feliz de saber a opinião de todos.
Quase figuras é o nome da primeira exposição de 2011 que reunirá trabalhos de seis artistas do elenco da Galeria Marília Razuk: Cabelo, Fabio Miguez, Gustavo Rezende, Marina Weffort, Paulo Monteiro e Wagner Malta Tavares.A princípio a mostra não foi organizada por nenhum eixo temático e nenhum tema específico. Segundo o curador Tiago Mesquita, na medida em que ele procurava relações espaciais entre um trabalho e outro, certa indefinição da linha, do espaço ou até mesmo uma ambigüidade dos elementos utilizados foi revelado um aspecto comum. São lugares que não se revelam por inteiro, figuras que parecem estar a se desfazer ou nunca estiveram prontos.
Nesta coletiva Fabio Miguez apresenta fotografias mais recentes do conjunto iniciado nos anos 90 chamado ‘Á Deriva’, Cabelo uma escultura inédita, Paulo Monteiro pinturas à óleo e esculturas em chumbo fundido, Marina Weffort um objeto novo da série de prateleiras, Gustavo Rezende uma serigrafia e Wagner Malta Tavares fotografias da série Nave e o vídeo “Uma diversão, um tormento, uma ocupação” mostrado em sua individual na Instituto Tomie Ohtake em 2010. A exposição ocupa as duas salas do novo espaço da Galeria Marília Razuk.
PS1:Aqui, vídeos do programa de improvisação audiovisual nos calçadões de Pouso Alegre
nesse número: Deus (essa gostosa), gibis que ficaram ultrapassados para a publlicação nos jornais (não tenho mais gato) e ainda servem para meios arcaicos com a internete e coisas publicadas no jornal que vcs não viram porque não compraram (o jornal, digo).”
Como sempre vale muito a pena. E nesse período em que a insistente burritzia nazi-brasileira insiste que um racismozinho aqui ou ali não faz mal nenhum, um herói dedicado aos bem-humorados sinhozinhos de engenho de M… do Leblon.
Um furacão desorganiza. A paisagem estável, estática, que o artista Francis Alÿs prefere chamar de “simulação de ordem”, é desfeita em poeira. Assim, o que era a foto granulada de um deserto se torna a revoada dos grãos. O pó sai de um lugar, vai pra outro, e o areal árido avoa sem saber em que banco se assentará.
No livro Numa dada situação, que continua a reflexão consolidada no filmeTornado (2010), o artista associa as imagens dos redemoinhos a todo um vocabulário. Entre outras coisas, fala em Trauma, Turbulência, Tumulto, Incerteza, Violência, Dispersão. Tudo em letras maiúsculas e voz alta.
O livro é o resultado de um vídeo. Por dez anos, Francis Alÿs registrou suas incursões no interior mexicano em busca dessas modificações, melhor, transformações, que os filhotes de furacão, redemoinhos, tornados parecem causar em um terreno ermo, com poucos vestígios de que alguém esteve por lá. Momentos em que a terra seca é soprada pelo o que Guimarães Rosa chama de a “briga dos ventos”. Aliás, expressão também lembrada em Numa dada situação.
Mais do que isso, no entanto, o artista no filme tenta participar desse momento de disrupção. E corre em direção ao olho do furacão, literalmente, com sua câmera. Tenta capturar a imagem das pequenas rochas esvoaçantes, o ruído do caos.
Aliás, engraçada a expressão “olho do furacão” nesse contexto. Alÿs, em outros momentos, já fez literais outras expressões idiomáticas. Sem pensar muito, é possível lembrar o épico em tom menor Quando a fé move montanhas, vídeo de 2002, feito no Peru a partir de uma ação com voluntários. Se a frase retirada do evangelho sempre se referiu à capacidade da crença ser mais forte que qualquer obstáculo, no trabalho de Alÿs trata da possibilidade de um engajamento mover um monte de um lugar pra outro. Nesse projeto faraônico. Ele reuniu um batalhão de 500 pessoas enfileiradas. Todas munidas de pás (em sua maioria estudantes com uma camiseta branca com a frase estampada), para deslocar alguns centímetros uma duna alta.
É visível a satisfação do artista e dos participantes de compartilhar de tarefa tão ambiciosa como tirar um monte de seu lugar, mas resta a pergunta, qual o propósito disso? A pergunta talvez valha também para a ação do artista registrada no filme Tornado e no livro Numa dada situação. Uma boa chave para a resposta é o primeiro trabalho que vi do artista, o muito bem nomeado Paradoxo da praxis I (Às vezes fazer alguma coisa não leva a nada), de 1997. Neste vídeo, o artista empurrava um paralelepípedo regular de gelo pelas ruas do México como se moldasse uma peça. No deslizar, o bloco derretia, até se desfazer completamente.
Fazia-se um esforço danado para se perder alguma coisa. O resultado da ação era perder o que se tinha. No caso de Tornado, a ação parece comunicar com a daquele filme, mas o sentido parece ser o oposto simétrico.
Em primeiro lugar, pela própria natureza dos dois filmes. O Paradoxo é o registro de uma ação, de uma performance de um escultor que move o seu trabalho por ruas escaldantes (aliás, o artista fará isso em outros momentos). Tornado, não. Mais do que apenas o registro da ação, ele filma um lugar em repouso, a paisagem se modificando naturalmente, os fenômenos acontecendo independente da ação do homem.
O que reforça isso são, inclusive, os recursos de câmera. É claro que o trabalho, como os vídeos anteriores, mostra-se simples. Como aqueles que levaram o crítico e curador Cuauhtémoc Medina dizer que o artista prática um “subrealismo” (brincadeira com o sobre de surrealismo). Algo da encenação mais rebaixada possível. Mais baixa inclusive que as exigências elementares que nos fazem perceber aquilo como uma imitação de um acontecimento.
Ledo engano. O trabalho se vale de duas formas de filmagem e, inclusive, duas formas de narração. Uma, possivelmente feita pelo câmera Julien Devaux é de quem observa de longe, com a imagem e silêncio o redemoinho se formar. Na maior parte das vezes, parece um lugar monótono. Nada acontece, vez ou outra, alguns resíduos domésticos rolam pelo chão, surgem bichos domésticos vindos das encostas vistas de longe, das estradas contornando a paisagem. Essa câmera filma também o outro cinegrafista, o sujeito que entra e sai do tornado: Francis Alÿs.
Ele carrega a outra câmera. A dele capta o som natural da paisagem, sua lente está toda quebrada e arranhada. Carrega as marcas de quem entra e sai do furacão a toda a hora. Essa câmera, ao mesmo tempo, tem um olhar mais subjetivo, pois acompanha os movimentos do corpo do fotógrafo, e mais próximo da formação dos tornados. O curioso é que na montagem, além do ato de correr em direção ao tornado para captar a totalidade dos fenômenos que o compõem, a imagem filmada no olho do ciclone parece desmentir a cena cristalina dos ventos formando o evento à distância. Assim, além do ato, temos a cena da perda da nitidez.
Aqui, não fazer nada leva a alguma coisa, mesmo que também seja à dissolução. Alÿs trabalha em grande medida com o sentido da ação artística como ação política e social, como interferência direta no mundo. Seja para desconstruir concepções cristalizadas, seja para interferir em processos de violência social. Aqui, ele parece problematizar sua própria ação e partir pra sempre pertinente pergunta leninista: O que fazer?
Na melhor cena do filme Space is the place, de 1974, o pianista e compositorSun Ra, que também escreveu o filme, depois de profecias interplanetárias e raciais, aparece na entrada de um prédio, em um bairro negro americano como se fosse o seu zelador ou porteiro. Lá ele é abordado por um daqueles personagens característicos dos filmes blaxploitation: o mendigo drogado de estimação do bairro. Sem pestanejar diante daquele corpanzil adornado com a indumentária colorida e brilhante do grande compositor americano, o vagabundo pergunta: “Whata happen”? Como perguntasse: “o que tá pegando”? Com serenidade e empáfia, Sun Ra responde de maneira definitiva: “Everything is happening”. Ou seja, tudo está acontecendo. Alÿs, no deserto, percebe também que tudo acontece ao mesmo tempo. Diante da simultaneidade é como se perguntasse que ato é de fato efetivo?
A convivência com fantasmas já rendeu muito assunto aqui no Guaciara. Andy Warhol já apontava um mundo em que as imagens criadas ou celebradas pela indústria cultural se tornavam entes que não pereciam e conviviam conosco sem vestígios de envelhecimento ao longo dos anos, ressignificando os indivíduos profundamente.
Assim, tornam-se espécie de entidades que habitam o mundo sem muito propósito. No mundo real, Michael Jackson foi o personagem que ressignificou até o seu corpo para se manter como uma imagem “sem espessura, sem nenhuma resistência, algo escaneável, transformado em informação sobre a qual se pode operar qualquer mudança”, nas palavras de Rodrigo Naves.
Vivemos num mundo povoado por imagens trazidas pelo mercado que se tornam canônicas e que começam a adquirir uma vida independente do sujeito, em que até as notícias são ressignificadas e ganham um aspecto novo (os incríveis autotunes no youtube provam isso).
“Tron: O Legado” prometia trazer uma pequena revolução tecnológica: rejuvenescer um ator. No caso, Jeff Bridges, protagonista do “Tron” original, de 1982.
O rosto do ator foi mapeado e rejuvenescido digitalmente. Depois, foi “colado”, ou sobreposto, ao corpo de outro ator mais jovem. O objetivo era dar vida a Clu, espécie de jovem avatar do personagem de Bridges. No filme, o Bridges atual contracena com sua versão jovem. Técnica parecida havia sido usada em “O Curioso Caso de Benjamin Button”, para envelhecer Brad Pitt. Mas ela reaparece mais sofisticada em “Tron: O Legado”.
Mas qual é a importância da evolução dessa tecnologia? Por que ela pode ser uma revolução? Porque ela pode significar um passo decisivo para concretizar aquela velha fantasia – desejada por muitos, temida por outros – de ressuscitar atores já mortos. Com ela, será possível que Marlon Brando ou Marilyn Monroe, para ficar em dois exemplos, voltem a aparecer em filmes inéditos.
E é justamente isso que George Lucas, o homem por trás de “Star Wars”, pretende fazer. Pelo menos é isso o que garante Mel Smith, um antigo colaborador do cineasta, em uma entrevista ao jornal americano “Daily Mail”. “Ele está comprando os direitos para o cinema de estrelas mortas com a esperança de colocá-las juntas num filme com truques de computador. Assim, Orson Welles e Barbara Stanwyck poderão aparecer ao lado das estrelas de hoje”, contou Smith.
Com essa sintetização da face humana e sua remodelação computadorizada, acho que o mundo atinge um limite da manipulação desses fantasmas canônicos da indústria cultural. O ator em si se torna uma marca sem previsão de expirar. Um velho de setenta anos pode ter vida útil como galã por mais centenas de anos e um defunto sepultado há algumas décadas pode ser estrela de uma superprodução.
Se essa história vingar, a face humana que ganhava eternidade em filmes e na imaginação das pessoas continua ativa como ativo da indústria do cinema e da TV da maneira como desejarem os criadores ao longo dos anos. Os personagens vividos anteriormente pelos atores se tornam entidades coladas a cada cartaz na porta dos cinemas num verdadeiro candomblé da indústria cultural.
Humilhação. É assim que todos os jornais – excetuando os madrilenhos, que viram um pênalti no apagado Cristiano Ronaldo – analisaram o jogo Real e Barcelona. Até se esqueceram do 6 a 2 de 2008, em pleno Santiago Bernabéu. Mas é que a imprensa ama destruir os que acreditam em suas próprias ladainhas, em suas “estimativas” e “dados”. Mourinho, o ultra-campeão, com a tríplice coroa e com o orçamento milionário do time dos Bourbon, acreditou. Como sou Barcelona e o futebol é uma caixinha de tristezas, também acreditei. Mas, como toda Pandora, o futebol mantém suas delícias, e elas têm chegado a esse pobre pai-de-família por meio do time blaugrana.
Diferentemente do duelo travado entre Uruguai e Gana, que relatei aqui desse mesmo blog, essa era uma luta entre mocinhos e bandidos. Entre a hiper-exposição midiática, o preenchimento do Real pela Imagem e a imagem como pele distante do que é ver o time do Barcelona em campo. Porque o que falam do Barcelona não se compara ao que você vê. Os apanhados de cenas de futebol das televisões não se comparam ao ritmo seguro, estável, assombrosamente natural com que o Barcelona envolve seus adversários. È o meu vislumbre contemporâneo do sublime de Beethoven e Beuys. Aquela natureza que permite a arte.
Também porque o Real Madrid é o time das “estimativas”, dos “dados levantados pelos jornalistas do jornal tal” e, principal e mais irritante de tudo, é o “time das estrelas”. José Mourinho é o gênio da retranca e Cristiano Ronaldo é mais antipático dos grandes jogadores do futebol mundial, superando até mesmo Sjeneider.
Já Guardiola é um tradicional revolucionário, ou seja, um artista. Enfrenta a sua própria admiração pela tradição para superá-la, sem inventar absolutamente nada para os desinteressados, mas muito para os que têm aquele prazer estético pelo futebol. O Barcelona que vemos agora é o que começou o seu movimento histórico com o técnico Cruyff, e que tinha o próprio Guardiola como jogador símbolo: alguém que dava passes simples e perfeitos e que parecia não correr, mas estava em todos os lugares do campo. O próprio Cruyff, como jogador, era o cara do deslocamento tático em campo, mas não gosto de falar de alguém que eu não tenha visto vários jogos ao vivo ou in loco. Enfim, a geração que vemos hoje, o time atual de Guardiola, é o ápice de uma tradição inventada nos anos 80 de jogar o toque de bola e o arremate simples, quando o gol é visível. Também é o jogo do deslocamento de quem vai receber o passe, que é dado quase sempre reto e rasteiro, no espaço onde não há adversários. Como a operação é simples e depende de qualidade técnica, mas não de alguma espetacular capacidade de dar efeito na bola, vários jogadores do Barcelona são capazes de dar esses passes, e também de recebê-los. Dessa forma, Iniesta e Xavi podem municiar o tempo inteiro os atacantes, mas também os atacantes e mesmo os laterais podem dar e receber esses passes, criando a grande dificuldade de marcação que enfrentam os adversários do Barcelona. Porque, na verdade, O Barcelona joga um “dois toques”, do treinamento básico de futebol, feito na metade do campo, só que em um campo inteiro. Ou, pelo menos, na metade do campo do adversário.
Outra coisa que Guardiola fez foi deixar os meninos criados juntos no futebol, jogarem juntos contra gente que não os conhece como eles se conhecem. Dorival Júnior estava fazendo isso com o Santos até ser destituído pela cretinice legalista de um clube que também vive de sua máscara do passado. De uma torcida que grita “tri-mundial” no primeiro gol do campeonato paulista. Apoiada pela Imagem Capitalista, é claro.
Várias notas deixaram a vitória tão bonita. As provocações de Mourinho. O desprezível apoio de Maradona ao suposto algoz de seu sucessor. Os jornais madrilenhos arrotando as glórias do passado antes de serem repetidas.
Xavi depois do primeiro gol
Depois, um jogo do Barcelona como deve ser: ignorando o adversário. E esse era o Real Madrid de Cristiano Ronaldo, Xavi Alonso, Ozil e Di Maria. É triste e engraçado ver grandes jogadores correndo atrás dos adversários, na posição desconfortável de aturdimento e pequenez que costumam a reduzir os outros times. Casillas sentado no chão, depois do quarto e quinto gol, foi hilário. A troca de passes de letra, calcanhar e chaleira – nessa ordem e respectivamente – entre Xavi e Iniesta foi um momento de restabelecimento da fé na grandeza da espécie humana. Messi só não foi Messi porque não fez gols. Somente duas assistências e a sua série arqui-conhecida de fileiras de adversários sentados no chão. Já Xavi e Iniesta foram, respectivamente, Xavi e Iniesta. O Barcelona foi o Barcelona. E o Palmeiras de 96. E o São Paulo de 91. E aquela sala bacana da Tate Modern com o “Veado Iluminado por um Raio” de Beuys. E a canção dos trabalhadores de Cardew. E aquela historia engraçada do amigo contada mais uma vez. E o café da manhã com a mulher escolhida. E o filho, com suas mãozinhas golpeando o ar.
obama:"sabemos que 2 bombas explodiram, causando danos.mas não sabemos nem quem nem por que".maior orçamento de defesa e segurança do mundo. 1 month ago