No ano passado, fui honrado com um convite da Vanda Klabin e do Ronaldo Brito a participar da exposição Belo caos, dedicada à obra de Jorge Guile, na Fundação Iberê Camargo. Fiz um dos textos do catálogo e estive em um ciclo de palestras dedicado à pintura do artista. Resolvi copiar um trecho do texto e compartilhar com vocês.

Jorge Guinle: As Vogais, 1986 (140x140 cm)

As cores não são coisas. Nós as tratamos como atributos de outros objetos: é o azul do céu, o branco do leite e das nuvens, o verde do limão, e o cinza da fumaça de caminhão, dos dias nublados, dias poluídos, dias tristes. Mesmo na pintura, as cores são propriedades dos materiais. O trabalho de Jorge Guinle inverte essa equação, em suas telas as coisas saem das cores. Não se trata da cor das coisas, mas as coisas que surgem da cor. Assim como nos recortes de Henri Matisse, não é um corpo que é azul, mas um azul que se mostra como figura.

Quando o artista francês desenhou com as tesouras, ele não coloriu um contorno, fez a cor se assentar e encontrar uma feição, uma face reconhecível. A forma de Jorge Guinle deve muito a esse tipo de integridade, como de resto, deve muito a Matisse. Embora as cores não busquem repouso, elas se relacionam umas com as outras insinuando figuras. Elas têm primazia sobre a figura e não são limitadas por linhas e nem por nenhum tipo de contorno. Acredito que a variedade de abordagens e a liberdade da pintura do artista devam muito a isso, a esse jeito selvagem de lidar com os elementos da arte.

A pintura de Jorge Guinle nunca procurou nenhuma filiação. Surgiu na arte brasileira de maneira insólita e não quis se tornar um veículo para a propagação de manifestos. O artista não aderiu a nenhum movimento de retomada disso ou derrubada daquilo. Até onde eu sei, sua produção não guarda relações orgânicas com nenhum grupo e nem quis ser base avançada de poéticas estrangeiras. Assim, não foi porta-voz de valores estéticos e nem denunciou o seu declínio. Aliás, provavelmente foi o artista que mais incorporou linguagens, figuras e elementos de outros artistas na pintura contemporânea brasileira. Ele chamava as vanguardas históricas de heresias e acendia velas para todas elas.

Jorge Guile (desenho de 1980)

Sua obra é sobre gostar das coisas. Nada mais apropriado para um país que acabava de se livrar de uma ditadura militar. Evidentemente, suas pinturas também não seguem nenhum esquema tradicional, mas seria pouco classificá-lo como um artista de vanguarda. Sua relação com a vanguarda é forte, mas Jorge Guinle lida com o modernismo de um jeito diferente, é de um outro período.

Ele é um dos resultados estéticos das liberdades conquistadas ao longo do século passado. Começa a pintar em uma época em que elas não são mais tão radicais e escandalosas como outrora. Estabeleceram-se e fazem parte de um repertório consolidado, das possibilidades da criação. A cor liberada para ele já não é um desafio, mas um exercício dessa liberdade, um modo de articular relações visuais. A cor, já no nascedouro, não precisa cumprir função nenhuma. Na tela, ela anda como dona, como se aquele fosse o seu espaço. Guinle, que quis ser artista depois de ver uma tela de Henri Matisse, aprendeu a força dessa cor que se desprendeu de uma função e fez com que ela se tornasse o seu idioma. Um idioma que não tolera restrições aos seus elementos e não define papéis muito claros a eles.

Muitas vezes, o artista mistura o estilo de um pintor ao tema de outro, mas não parece emular esses artistas e nem discutir as suas linguagens. Coloca-os para conversar um com o outro, talvez em busca dessa linguagem fluída que caracterizou os seus melhores trabalhos. O seu desenvolvimento foi muito diferente do da pintura que lhe foi contemporânea, como o novo expressionismo da década de oitenta do século passado e a transvanguarda. Acertadamente ou não, muitas vezes ele foi relacionado às movimentações desses pintores que ganharam fama naquela época. Esses artistas, de fato, tinham muito em comum com Jorge Guinle. Recuperavam o prestígio da pintura e trabalhavam com os seus elementos de maneira mais selvagem, como se voltassem ao que o fauvismo e o expressionismo tivessem de rebelde.

No entanto, muitos daqueles artistas trabalhavam isso como um retorno a um prazer mais hedonista de pintar ou um cacoete para se explorar símbolos e elementos da pintura. Jorge Guinle tratava da cor com a influência de Matisse e dos pintores norte-americanos. Tinha uma postura menos simbólica e menos historicista, o que, de saída, o diferencia muito da produção dos seus contemporâneos neo-expressionistas da Alemanha, como Salomé, Immendorf e Lüpertz. Uma diferença crucial é o tratamento que esses artistas dão à figuração. Eles pintavam estruturas e símbolos da pintura como elementos cheios de significado, um vocabulário ancestral. Era uma tentativa de reforço e deslocamento daqueles símbolos. Cuja atualização, implicava a avaliação de uma herança que muitas vezes se mostrou nefasta. Por isso, os pintores ordenavam uma visão distanciada, traziam sentidos que aquelas imagens queriam escamotear, carregar para o túmulo.

Tratava-se do trauma alemão em torno da relação íntima que o nazismo parecia ter com os níveis mais elevados da razão ocidental. Anselm Kiefer foi quem levou essa articulação de símbolos mais longe. O artista é mais talentoso do que os outros três, por isso usa do seu vocabulário para mostrar mais ou menos uma substância trágica que acompanha a história do povo alemão e, em última instância, a história da racionalidade e da pintura. Os símbolos por vezes são reiterados, por vezes subvertidos, mas trata-se de operar com eles. Inclusive, as formas de pintar são pensadas a partir do seu sentido simbólico, como a perspectiva. Trata-se de uma pintura que opera com significados arraigados na cultura.

Jorge Guinle: CAVALO DE TROIA, 1986 (200X140)

Para Jorge Guinle, a relação com elementos reconhecíveis da pintura e até mesmo a citação tem um sentido quase oposto. Não se trata de esmiuçar os significados do que é inserido na tela, mas de afrouxar os seus significados. Não se trata de revelar o significado de um elemento, mas de diluí-lo, mostrar que esse significado é fluido, modifica-se na pintura, e essa possibilidade de dar sentidos vários a uma coisa traz liberdade, não a mera denúncia.

Jorge Guinle: Macunaíma,1986

Por vezes, o artista opera com elementos arraigados na cultura brasileira, como em Macunaíma e Copacabana me engana, mas esses símbolos surgem com a mesma pressa com que desaparecem. São figuras que se desfazem em manchas;  e manchas que dão a impressão de ganharem feitio de figuras. Não se trata de um discurso sobre essas referências, mas uma ordem visual que passa por elas. Nessa ordem, nenhuma figura, forma, cor ou mesmo estrutura pictórica tem significado fixo. Os elementos se relacionam de forma solta e maleável. Na conversa entre eles, são diluídos os significados uns dos outros. Aqueles pintores alemães muitas vezes procuravam uma subversão crítica dos elementos da pintura, que lhes atribuísse significados que aqueles símbolos, por vezes, escondiam. Jorge Guinle procura uma relação em que as figuras e formas não têm mais significado permanente, ora são vistos como uma coisa ora outra.

Guinle é menos substancialista que Kiefer. O pintor alemão quer revelar, de forma irônica, uma verdade mais verdadeira que existe por trás das figuras que ele pinta. Está preocupado com o sentido da figura. Guinle não parece menos preocupado com as conseqüências conceituais do que com a liberdade de pintar. Para ele a pintura é necessariamente ficção. As cores podem criar a relação que quiserem, aliás, liberadas de função, desenham e até moldam. Na ficção, não precisam se depurar e encontrar um sentido puro e fixo para elas, são contaminadas, podem mudar de sentido no quadro, mais de uma vez.

Tem tanta coisa sobre a tela, a pintura aponta para tantas direções, que dificilmente se designa uma única função para uma parte ou outra da pintura. As partes têm relações simultâneas umas com as outras. A explosão de cores e direções, bem como o jeito solto de Jorge Guinle pintar também são conseqüência de um afrouxamento das relações entre uma parte e a outra da sua pintura. Mais que isso, de um relaxamento na conversa entre os elementos.

Em meio à bagunça da pintura de Jorge Guinle, não é necessário se restringir às coisas de sempre. Seu trabalho formaliza como poucos a simultaneidade dos fenômenos da vida contemporânea e a possibilidade de se entusiasmar com coisas tão diferentes. Mais do que isso, a possibilidade de encontrar graça e ficção em momentos tão fugazes da rotina, bem como de conseguir ver graça em coisas tão diferentes da nossa vida. Por isso, Jorge Guinle pintava com gosto. Via encanto em Walt Disney e Matisse. Procurava pintar os Selvagens da festa e uma Pastoral.[1]

Jorge Guinle: A Tela, 1983 (191x191)

Em Os exércitos da noite, o escritor norte-americano Norman Mailer fala que o autoritarismo é a forma de poder que restringe as razões para se entusiasmar. Na arte recente, são cada vez mais comuns as regras de conduta em exposições, a tendência ao comentário e o achincalhar do gosto.  É corriqueiro um artista ser taxado de passadista por não atender às demandas de um gosto internacional (que, aliás, é bem nacional) ou, pelo avesso, ser celebrado por fazer o que sempre se espera dele. Jorge Guinle é o oposto de tudo isso, seu trabalho é a festa do gosto. Coisas de tempos e origens diferentes, aqui conversam sem nenhum impeditivo. Seu critério é baseado no gosto, no que ele prefere, e ele gostava de muita coisa. Sua obra coloca os elementos que ele apreciava juntos, via se dava conversa entre eles, ao menos um flerte rápido. Se incorporar o que se gosta na sua forma não for uma relação forte entre arte e vida, não sei o que é.


[1] São títulos de trabalhos de Guinle.

Com muita honra, fui convidado pela +soma para cobrir um evento com novíssimos nomes da arte contemporânea na Inglaterra. Tive sorte e peguei a cidade em uma animação danada. Exposições com trabalhos inéditos de Anselm Kiefer,  Gustav Metzger, Damien Hirst, Anish Kapoor e  Carlos Garaicoa; além das retrospectivas de John BaldessariEd Ruscha e um ponto de vista equivocado, mas forte , sobre os desdobramentos da pop. Aqui em Londres confirmei que a Sophie Calle de fato não faz o meu tipo (em breve mando um artigo sobre isso), mas vi muitos garotos cheios de energia fazendo arte e música boa.

Um que faz as duas coisas ao mesmo tempo é o Felix Thorn. Vi e gostei das suas traquitanas. Por isso, aproveito e posto as máquinas operando. Enquanto o tempo não passa, aviso que no sábado vou ver o Steve Reich executar as suas peças e domingão tem a alegria da London Improvisers Orchestra de sempre (para mim um dos melhores programas turísticos de Londres). Hoje eu soube que ontem perdi a Haco, mas a vida é assim…

Em 1943,um avião da Luftwaffe nazista cai em um deserto de rochas da Criméia com o então jovem telegrafista das forças armadas da Alemanha: Joseph Beuys . Fato ou não, a partir dali um artista criou uma mitologia em que a criatividade transforma os sentidos de alguns materiais e esse novo uso dos significados há de curar o mundo. O dever do artista passa a ser compartilhar relações criativas com as coisas.

Em 1972, Joseph Beuys já é o artista mais conhecido da Europa. Desenhista e escultor virtuose, tornou-se famoso pelo modo de agrupar os seus materiais artísticos e pelo sentido que dava a arte, vista mais como uma ação sobre o mundo comum que uma criação de alguma imagem em separado do mundo. Por isso, ele se recusava chamar as suas performances com esse nome. Para ele, tratavam-se de ações, ações efetivas de transformação do mundo.  Sua obra de arte já é uma maneira de militância. Ele atua em tudo que toca, como se sensibilizasse os objetos.

Suas aulas também pretendem ter o mesmo efeito. As aulas foram como quase todas as suas apresentações: uma forma de criar. Diante de uma sala super-lotada, por onde já haviam passado nomes da cultura alemã como o pintor Anselm Kiefer e Conrad Schnitzler do Kluster, por exemplo, ele criava um evento, uma forma de friccionar a criação com o mundo, como ele fazia com seus materiais.

Por isso, em 1974, ele abre a Universidade Livre Internacional, junto com o escritor Heinrich Böll, despreocupado com o estatuto das coisas e mesmo com a possibilidade de se fazer arte. Aliás, isso sempre me fez duvidar, mesmo sem saber nada de alemão, (aliás, talvez por isso) da interpretação da frase: “Jeder Mensch ein Künstler” como “Todo mundo é um artista”

O artista abriu um dos seus cursos com a frase, o que me parece, se traduzido desta forma, paradoxal.  Se Beuys buscava uma ideia ampliada da arte em que ela, no limite, deixaria de existir, para que deixar que seus alunos carregarem uma honraria tão putrefata?

Parece mais apropriada a tradução que vi no texto de Adolfo Vásquez Rocca, a tradução literal : “Cada homem, um artista”. Que se parece com: “Cada cabeça, uma sentença”. Mas embora afetasse dar tão pouca bola para a arte, em um artigo belíssimo, o crítico inglês David Sylvester revela o quanto disso era balela e quão grande era a cultura artística do alemão.

Em 2009, eu tento toda a sexta postar uma música neste blog. Sempre varia. Como a vida anda dura, na última sexta não deu, me atrasei e postei hoje. Acho que nunca postei algo tão heterodoxo com0 o que insiro hoje.  Às vezes sou motivado por razões afetivas, razões militantes ou pela vontade de mostrar algo que todos deveriam ver.

O motivo para este vídeo combina todas as razões apresentadas antes e mais algumas. Como não sei postar as músicas, sempre posto vídeos do youtube. Hoje, mais do que nunca, a imagem se faz necessária.Pois ela acontecerá em absoluto silêncio diante de um rosto. É quase uma experiência cageana. Diante de um silêncio tão dramático, a experiência se mostra arrebatadora, como diante do Laocoonte. Embora se pareça com os filmes de Andy Warhol, o filme apela aos sentimentos, diante de uma expressão fria. Ele nos encara, como se esperasse alguma reação. Ficamos diante do silêncio, e do aprisionamento do personagem Beuys em um espaço tão diminuto, a perceber tudo.

Beuys vem da experiência da Alemanha nazista. Que abalou a confiança alemã no progresso, na afirmação da ação e na racionalidade técnica como caminho para libertação das amarras primitivas. O que havia de mais sofisticado no saber técnico acabara de ser usado no extermínio e tornava-se uma intolerante forma de obscurantismo.

Portanto sua ação vai com bastante vagar, não descaracteriza os elementos orgânicos que usa. Ao colocá-los lado a lado, eles surgem, mais pacientes. Nota-se que com o tempo as imposições de suas atribuições funcionais vão sendo esquecidas. As partes passam a se energizar mutuamente, retirando os elementos de sua opacidade cinzenta e nos fazendo perceber nossa indiferença, que mediava nossa sensibilidade como escama.

Nessa busca de uma verdade das coisas, o artista procura estender as capacidades sensitivas do homem. Tal procedimento se estende para as “ações” do artista. É conhecido o episódio de sua conferência, onde ele convidou a audiência a aspirar o ar com ele, sentindo o que poderia existir de singular e intenso lá. É desse desejo de reconciliar o homem com seu mundo, em uma troca energética permanente, onde um revitaliza o outro, que parece se alimentar a obra de Beuys.

A redenção do homem com as coisas parece o fim que o artista queria nessa troca de forças. De fato ela não ocorreu. Mas a força de Beuys não se dá no campo das intenções. Provavelmente, nossa relação com o mundo hoje é mais predatória. Mas a obra de Beuys nos abriu a possibilidade de a arte se reconciliar com o mundo, tornando-se capaz de mostrá-lo reavivado a nós e vice-versa. Seus objetos, quando reunidos criam uma espécie de fricção, emque nada mais se apresenta como antes.

Hoje, o artista está em baixa na interpretação. Cansei de escutar aqui e acolá argumento sobre a fragilidade de seus argumentos e de suas profecias. Ele falava coisas que pareciam sem nexo, mostrava objeos que hoje parecem inocentes, mas de forma geral, foi um esforço de mudar o modo do homem lidar com os objetos com apenas um parâmetro no século XX: Picasso (o maior artista daquele século).

Mas duas coisas me parecem importantes:

1) Ele joga um balde de água fria naqueles que vêm a arte como um espaço de prestígio. Para ele a arte é uma coisa qualquer, que pode mudar a vida das pessoas, mas menos do que a atividade social e espiritual

2) Beuys é um artista virtuose, faz objetos preciosos. Quando discursa atua mais como profeta do que como artista, com todos os recursos cênicos e retóricos do profeta. Assim, como diria o Paulo Emílio sobre o Glauber Rocha, o profeta não está aí para acertar, mas para profetizar.

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