Se existe uma mentira que pegou nos bicos dos tucaninhos das redes sociais é a de que a imprensa vive sob ameaça no Brasil de Lula. O argumento não resiste a uma olhadela nas bancas de jornal. Duvida? Olha um greatest hits anti-Lula na imprensa nos últimos anos nesse link.

Tá bom, tá bom, as capas aí já foram exibidas em toda rede e mesmo assim insistem na cascata. Pois bem, a insuspeita Folha on line noticia hoje que o Brasil sobe 13 postos no ranking mundial de liberdade de imprensa (pois é 13 mesmo, como os de Dilma, #coincidência #sabotagem #valetudo?). Vamos ao que diz a matéria:

A ausência de violência grave contra a imprensa e uma maior sensibilização do poder público em relação ao acesso à informação também motivaram o salto do país. “Por último, o Brasil tem uma das comunidades mais ativas na internet”, diz o comunicado. (…)

Benoît Hervieu, responsável pelas Américas da RSF, minimizou a troca de acusações entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e parte da imprensa nacional durante a campanha eleitoral. “A posição da mídia ao dizer que as palavras de Lula são uma ameaça à imprensa é exagerada.”

É lógico que dizer que a profissão de jornalista é um mar de rosas e que a liberdade é lenamente respeitada é uma ofensa aos meus companheiros de trabalho. Casos como o do jornalista F. Gomes, que foi assassinado depois de denunciar um esquema de compra de votos em troca de pedras de crack, comprovam isso.

A imprensa em pequenas cidades – como a que eu nasci: Pouso Alegre – é também um cenário pródigo para se coletar histórias de jornalistas silenciados pelos mandatários locais. É só parar o ouvido e escutar absurdos. O responsável pela Repórter Sem Fronteiras confirma:

Ainda existe uma forte censura prévia no Brasil. Nos últimos anos vimos uma multiplicação de ataques nesse sentido”, diz Hervieu. Para ele, a Justiça brasileira sofre influência de políticos e toma decisões “ridículas, como proibir a citação de nomes e sobrenomes em reportagens”

Mas é inegável que a liberdade deveria começar nas redações que ainda estão bem distantes desse papel. A demissão de Maria Rita Kehl (por um bizarro “delito de opinião”) e a proibição do Falha de S. Paulo é um exemplo de que a liberdade de imprensa deveria começar no quintal deles.

Mas até aí, os jornais deveriam começar também a falar sobre os oposicionistas que só falam com a imprensa quando a pauta é deles ou, pior, sobre governador que não aceita dar explicações sobre a demissão de um diretor da empresa pública responsável pela obra mais importante do governo do maior estado do Brasil:

Enquanto Paulo Preto ainda não era um perigo eleitoral, Goldman fazia questão de alertar Serra sobre o sujeito, o governador ignorou:

Por meio de um e-mail enviado ao então governador José Serra em novembro de 2009, o seu vice à época, Alberto Goldman, classificou como “vaidoso” e “arrogante” o engenheiro Paulo Vieira de Souza, conhecido como Paulo Preto. Na mensagem, Goldman diz que o ex-diretor da Dersa (Desenvolvimento Rodoviário S/A) “fala mais do que deve, sempre”. As informações foram publicadas no jornal Folha de S. Paulo na edição desta quarta-feira (13).

De acordo com a nota, o vice analisava as entrevistas concedidas por Preto e pelo secretário de Transportes Mauro Arce, em razão da queda de uma viga nas obras do Rodoanel. “Parece que ninguém consegue controlá-lo. Julga-se o Super-Homem”, escreveu Goldman. Na época, Preto autorizou que as construtoras mantivessem a mesma estratégia de instalação das vigas que desabaram. “Não (…) tenho qualquer poder de barrar ações. Mas tenho o direito, e a obrigação, de opinar e tentar evitar desgastes desnecessários”, afirmou Goldman na ocasião.”

Mas o Paulo Preto é um cisco no meio de um mar de apatia da imprensa paulista em cobrir o governo estadual. Em Minas Gerais então nem se fale, mas lá é na base da mordaça mesmo.

Em São Paulo, o modus operandi é usar a justiça para CENSURAR quem se posiciona contrariamente ao partido. Como diz o Raphael Tsavkko: “O Tucanato é famoso por tentar censurar e efetivamente censurar jornais, blogs, sites e até mesmo o Twitter.” Vale a pena ler o artigo dele sobre a ameaça a liberdade de expressão com a censura da Revista do Brasil e do Blog do Artur Henrique em que ele mostra como os tucanos escondem tudo pra debaixo do tapete forçando o segredo de justiça.

Na verdade, cada um usa sua mordaça, pra uns é o calaboca, para outros uma mordaça econômica. O excelente NaMaria News mostra que um terço da circulação da editora Abril vem de compras, sem licitação, do estado de São Paulo:

ED. ABRIL / FUND. CIVITA CONTRATO / LINK D.O. VALOR
18.160 assinaturas (renovação) Revista Nova Escola (DE’s/Ofs.Pedags/Escolas) SÓ HÁ 2 REGISTROS EM DO – onde e quando o contrato inicial? ~ 42/2199/04/04 (ver DO 29/12/04) ~14/jan/05 326.880,00
18.160 assinaturas (renovação) Revista Nova Escola ~ 15/1063/07/04 ~23/out/2007 408.600,00
220.000 assinaturas da Revista Nova Escola – edições 216 a 225 – solicitado pela CENP para o “Ler e Escrever” ~ 15/1165/08/04
(ver DO 1/10/2008 ) ~ 25/out/2008
3.740.000,00
415.000 exemplares Guia do Estudante Atualidades Vestibular 2008 ~ 15/0543/08/04 ~23/abr/2008 2.437.918,00
430.000 exemplares Edições nº 7 e 8 do Guia do Estudante Atualidades Vestibular ~ 15/1104/08/04 ~22/out/2008 4.363.425,00
430.000 Guia do Estudante Atualidades Vestibular Ed.08 + 20.000 Revista do Professor ~ 15/0063/09/04 ~11/fev/2009 2.498.838,00
540.000 Guia do Estudante Atualidades Vestibular Ed. 09 + 25.000 Revista do Professor ~ 15/0238/09/04 ~16/jun/2009 3.143.120,00
540.000 Guia do Estudante Atualidades Vestibular Ed.10 + 27.500 Revista do Professor ~ 15/0614/09/04 ~29/ago/2009 3.249.760,00
540.000 Guia do Estudante Atualidades Vestibular 2º sem 2009 + 27.500 Revista do Professor ~ 15/00024/10/04 ~ 2/abr/2010 3.177.400,00
540.000 Guia do Estudante Atualidades Vestibular Ed.11-2º sem 2010 + 27.500 Revista do Professor Nº5 ~ 15/00473/10/04 ~ 15/jun/2010 3.328.600,00
540.000 Guia do Estudante Atualidades Vestibular Ed. 12-2º sem 2010 + 27.500 Revista do Professor Nº6 ~15/00762/10/04 ~17/ago/2010 3.328.600,00
PARCIAL 25.527.661,00
3.000 assinaturas Revista Recreio ~15/0181/08/04 ~29/mar/2008 1.071.000,00
6.000 assinaturas Revista Recreio ~15/0182/08/04 ~29/mar/2008 2.142.000,00
5.155 assinaturas Revista Recreio ~15/0670/08/04 ~12/ago/2008 1.840.335,00
25.702 assinaturas Revista Recreio ~15/0149/09/04 ~17/abr/2009 12.963.060,72
2.259 assinaturas Revista Recreio ~ 15/0528/09/04 ~1/set/2009 891.220,68
PARCIAL 18.907.616,40
95.316 Atlas Nacional Geographic vols. 1 ao 26, sendo 3.666 exemplares de cada volume ~ 15/00273/09/04 ~ 28/mai/2010 733.200,00
5.200 assinaturas da Revista Veja - (Sala de Leitura) ~ 15/00547/10/04 ~ 29/mai/2010 1.202.968,00
5.449 assinaturas da Revista Veja - (Sala de Leitura) ~ 15/0355/09/04 ~20/mai/2009 1.167.175,80
TOTAL 52.014.101,20

A Bolsa Imprensa do governo paulista é generalizada e, segundo a NaMaria, come R$ 250 milhões sem licitação. Por isso, não há o que se estranhar quando o Tarso Genro diz que setores da imprensa serviram como bloco de sustentação de Serra. Com uma verba dessas quem não levantaria suspeitas?

O pior é que os veículos são refratários a críticas e  contam com a conivência e até com a defesa dos andares debaixo, mesmo quando colunista constrange os seus profissionais. Quer exemplos, assista a Marilena Chauí:

Hoje a Folha publicou outra manchete que parece servir única e exclusivamente como atração da campanha tucana.

E sinceramente acho que isso é o maior perigo à democracia. Um país em que os editores calam repórteres que vão longe demais e onde dirigentes não pagam nada por se recusar a responder à imprensa (fora os mega-orçamentos de Minas e São Paulo).

Por isso, o Brasil só pode continuar subindo postos no ranking mundial de liberdade de imprensa com um governo que trata a imprensa com critérios claros e igualdade, inclusive na distribuição de patrocínios.  Além disso, blogs e twitters devem informar sobre a imprensa e sobre qualquer coisa sem o cerceamento de políticos, grandes veículos e empresas de comunicação. A Liberdade deve valer para todos, grandes e pequenos.

A vala

No Brasil, cada vez mais, os conservadores e liberais vendem o case colombiano como uma revolução na gestão democrática. Para eles, que defendem o princípio dos direitos humanos fervorosamente quando o assunto é o Irã, a Colômbia é um modelo a se seguir. Mas pouco eles falam que o modelo do Plano bancado pelos EUA no país sul-americano é caro, pouco eficiente e, necessariamente, violento.

O Jay já falou disso tudo em seu post aqui. E todos demos algum pitaco nesse sentido. Mas uma notícia que o Marco Aurélio Weissheimer postou em seu RS Urgente mostra o quanto é aterradora a situação na Colômbia. Enquanto o carnaval midiático se concentrava no piti de Uribe em cima de Chavez, era descoberta uma vala comum com mais de 2 mil cadáveres em La Macarena, departamento de Meta, na Colômbia.

Segundo relatos do presidente do Comitê Permanente de Defesa dos Direitos Humanos da Colômbia, Jairo Ramírez, desde 2005, o Exército enterrou ali milhares de pessoas, sepultadas sem nome. Supostamente, seriam guerrilheiros mortos em combate, mas é tudo muito nebuloso.

É a maior vala comum da história contemporânea do continente latino-americano. Supera qualquer ditadura dos anos 70. A descoberta não foi divulgada na imprensa colombiana e só agora começa a vazar.

A presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Cilia Flores, já havia acusado, no dia 5 de agosto,  o Governo do presidente colombiano, Álvaro Uribe, de atacar seu país como “estratégia para tentar esconder o genocídio de La Macarena”. O discurso não era monopólio do governo do país adversário: a senadora colombiana Piedad Cordoba, outros parlamentares e ONGs dos direitos humanos já haviam acusado o governo Uribe de construir valas comuns para esconder o genocídio no interior do país.

Até a descoberta ser fartamente documentada, o governo da Colômbia negava a existência da vala comum e acusava pessoas como Piedad Córdoba de terrorismo. Ela e a população local de La Macarena (antes só conhecida pela coreografia mais dançada no mundo) mobilizaram uma delegação internacional composta por 10 dirigentes sindicais, 6 membros do Parlamento europeu, 3 membros do Parlamento britânico, 3 delegados da Espanha e 2 dos Estados Unidos que testemunharam e documentaram a vala comum em Macarena.

Como escreve o jornalista Patrick J. O’Donoghue, Uribe ficou bastante irritado com o diálogo da comissão estrangeira com os membros das famílias dos desaparecidos , em audiência pública organizada pelos senadores. Durante esse evento cerca de oitocentas pessoas de toda a região foram a Macarena contar que sofreram abusos das forças armadas colombianas.

A senadora Córdoba, há muito tempo, cobra informações de Uribe sobre o acontecido em La Macarena e sobre as demais infrações aos direitos humanos cometidas pela temida agência do serviço secreto colombiano, o DAS. São acusações de  espionagem ilegal em figuras públicas, assassinatos e investigação de contas bancárias de adversários de Uribe.

Uribe chama Piedad Córdoba de “inimiga da polícia de Segurança Democrática” e os euro-deputados que participaram da comissão de “porta-vozes para o terrorismo.” Para você ver o grau de dickcheneysse do sujeito.

Além disso, afirma que denunciar os abusos do exército colombiano é uma tática das Farc. O comentário, para a Comissão de Direitos Humanos da ONU, coloca a vida das vítimas que expuseram os abusos e o morticínio em Macarena em gravíssimo perigo.

Matéria no Huffignton Post mostra que existem denúncias de que os militares ocupavam casas e, em pelo menos uma denúncia, confundiam civis com membros da guerrilha. O caso de maior repercussão é o de Maria del Socorro Zapata, desaparecida desde 2007. Acusada pelos militares de fazer parte das Farc, seu corpo foi encontrado na vala comum em Macarena. Para seu marido, Dumar Zapata, que ficou impossibilitado por dias de entrar na sua casa e a encontrou toda destruída e cheia de manchas de sangue, a acusação é um absurdo.

De qualquer forma, mesmo que fosse do exército, a presença do corpo dessa mulher em uma vala comum indica um comportamento inaceitável do governo colombiano. A vala prova execuções sumárias, sem julgamento e sem nenhuma perícia. O argumento uribista é que são mortes de confronto. Mesmo assim, a vala comum destampa um fantasma que a direita brasileira não quer nem ouvir falar: as bizarrices cometidas pelo seu governo modelo em nome de uma guerra ao terror.

O terror continua presente na Colômbia (o lamentável ataque em Bogotá nos mostra isso). E isso não tem nada a ver com o governo reatar ou não com Chavez. Só prova que o Plano Colômbia é uma guerra cara e derrotada que enche os cofres colombianos de dinheiro para paliativos contra os reais problemas do país e deixa parte da população à mercê do tráfico, de guerrilhas, de paramilitares e de um exército violento e instruído para matar.

A resposta de Hugo Chavez às acusações do governo colombiano de que o governo venezuelano é conivente com as FARC e as abriga no seu lado da fronteira são a parte mais visível de um grande festival de diversionismo e oportunismo político em curso na América Latina. Numa coincidência regional curiosa, Colômbia, Venezuela e Brasil estiveram, estão ou estarão nesse mesmo ano em meio a corridas eleitorais importantes. Na Colômbia, Uribe conseguiu emplacar o seu sucessor José Manuel Santos; na Venezuela, as eleições  parlamentares acontecem em setembro, e grandes são as chances de que a oposição (de resto monstruosamente estúpida) consiga aumentar sua presença no congresso; e, nem preciso dizer, em outubro começa (ou termina, dependendo do otimismo do freguês) a corrida para ver quem conduizirá o Brasil nos anos pós-Lula.

Para Uribe e Santos, interessa agora posarem de conciliadores, e fingirem-se surpresos com a reação de Chavez às suas insinuações sobre a presença de tropas das FARC em território venezuelano. A presidência está garantida para Santos, que assume em 7 de agosto, garantindo a permanência do mesmo grupo político que conduziu de forma escandalosamente incompetente, apesar de todas as afirmações em contrário, o famigerado Plano Colômbia.

Interssou, e muito, a Uribe atribuir seu fracasso em resolver a guerra civil colombiana ao Equador e á Venezuela, que no seu entender abrigariam as FARC. É um segredo de polichinelo, que a mídia brasileira (preguiçosa, incompetente ou tendeciosa, em geral as três coisas) ignora solenemente: o Plano Colômbia é um completo fracasso. Já não fosse sua concepção inicial – o financiamento do combate à guerrilha disfarçado de combate ao narcotráfico, e com recursos vindos do mesmo país que, como todo mundo sabe, é o maior consumidor de drogas do mundo – a execução do PC sob Uribe foi desastrosa. Apenas as autoridades americanas responsáveis pelos repasses que devem chegar a 7.3 bilhões de dólares em ajuda principalmente militar e o próprio Álvaro Uribe acham que foi um sucesso. E grande parte de sua popularidade, da aprovação de seu governo e do sucesso em passar a presidência para Santos dependeram de convencer a população colombiana de que de fato o plano é eficiente e bem sucedido. Grande esperteza provocar tensões diplomáticas com o país vizinho cujo presidente é uma das maiores pedras no sapato dos EUA na região, trazendo benefícios políticos para si e para os seus financiadores.

A lista real dos fracassos do Plano Colômbia é enorme, e seria suficiente para acabar com o capital político de Uribe (fumigações criminosas de plantações de coca, repetidas violações de direitos humanos, uma aparente retomada dos índices de violência depois de uma queda expressiva, o que sugere que as ações de segurança pública foram todas de tipo repressivo, deslocamentos forçados de pessoas etc). Mas esse barulho na fronteira (e o recibo ineptamente passado por Chavez) servem como uma útil cortina de fumaça para o grupo político que não foi capaz de conduzir de forma eficiente a pacificação de um país que, como sempre repete Gabriel Garcia Márquez, está em guerra civil há mais de um século).

Chavez também tem sabido tirar proveito desse imbrólio. Apesar de seus sucessos em desmontar a hegemonia política da horripilante oligarquia de república das Bananas que (des)governou desde sempre a Venezuela, Chavez não parece ter grandes planos para impedir que o país caia em uma crise econômica profunda. O PIB venezuelano deve cair mais 3 a 6% esse ano, somada à queda de 3% no ano passado, e o país enfrenta inflação que bate nos 25% e pode chegar a 40%. Não resta dúvida de que, apesar de certa pirotecnia política com o tal do socialismo do século XXI e seu neo-bolivarianismo, as opções políticas de Chavez no continente são mais progressistas do que o capachismo incondicional das elites colombianas, que, junto com os chilenos, parecem sempre muito entusiasmados com a perspectiva de manter o sub-continente como quintal dos EUA, país que é hoje ele próprio um enorme deserto pós-industrial rodeado de estacionamentos de trailler transformados em favelas. Mas a ameaça de Chavez de suspender a venda de petróleo aos EUA mesmo que os venezuelanos tenham que “comer pedra” é, além de bravata, um gesto desesperado de recuperar sua força política.

E aqui no Brasil, esse não-assunto (o vínculo do PT com as FARC) tem se prestado à tentativa desesperada de Serra e de seu vice de fazer a mágica de crescer em ambiente saturado e, de quebra, fazer insinuações que só convencem ao eleitorado conservador de classe média, que já odeia o PT de qualquer jeito, e à imprensa estrangeira. Com essas insinuações, Serra reavivou a tática batizada de “risco Lula”, que agora já não é de caráter econômico, mas geo-político: a eleição de Dilma traria instabilidade ao continente. Até o equilibrado e sempre muito bom Valor Econômico rodou um editorial hoje contendo uma pérola de duplipensar orwelliano: “A posição brasileira [no conflito entre Colômbia e Venezuela] é evitar o confronto a todo custo, embora suas simpatias não estejam com o governo colombiano, e sim com Chávez, que não tem antagonismo ideológico com as FARC. O Brasil, sempre que pode, tem evitado condená-las.” Num giro não lá muito sofisticado, engrossa o coro dos que, por esperteza (ou estupidez) política têm insistido nas últimas semanas em associar o PT às FARC: uma ilação que só atinge e convence os leitores do OESP e da Veja. E o pessoal já devia ter entendido que essa imprensa não tem mais poder de influência sobre o voto para presidente no Brasil desde que Lula, um ano após o mensalão, passou seu rolo compressor político em cima de Geraldo Alckmin, colocando debaixo do braço (definitivamente, ao que tudo indica) uma massa de eleitores que, por inércia, sempre pertenceu à direita.

É isso que pensa o pessoal da Veja e a turma do PPS

É isso que pensa o pessoal da Veja e a turma do PPS

Eu sou apoiador de primeira hora da acolhida do governo brasileiro a Manuel Zelaya. Pelo que tudo indica, o Itamaraty foi pego de surpresa na chegada do presidente legítimo a Honduras, mas mesmo assim o presidente Lula e o ministro Celso Amorim vêm agindo em nome da democracia. Acho que com golpe não se discute e  a intervenção do governo brasileiro obrigou (e o verbo é esse mesmo OBRIGAR) os golpistas de Honduras a retroceder e suspender o Estado de Sítio.

Se a volta do Zelaya à presidência se confirmar, essa vai ser sem dúvida uma das maiores conquistas diplomáticas da história do Brasil.

Alguns podem até achar exagero, mas não é. Quem pensa no histórico de golpes militares na América Latina e como eles rompem com a construção da autonomia continental e da possibilidade de se institucionalizar demandas econômicas e sociais sabe do que eu estou falando.

Fora isso, o interesse dos golpistas é necessariamente manter as coisas favorecendo a poucos. Pelo que parece, a maior preocupação da elite hondurenha com o golpe é saber se eles continuarão a ter visto autorizado para os Estados Unidos… O pior é que ainda existe uma Internacional Consumista que insiste em dar ares de ação democrática ao golpe: uns usam o argumento da ilegalidade de se pedir um referendo sobre segundo mandato, outros (até subprefeitos) trabalham com a possibilidade que Zelaya podia ser golpista e tem até poeta torturado otário que se justifica na base do chapéu e do bigode do Zelaya.

A briga contra os fatos é sempre violenta e procura esfacelar qualquer cabeça que pensa. Por isso, só há uma resposta nesse caso: Zelaya não promoveu nenhum golpe. Ele foi vítima de um sequestro orquestrado pelas Forças Armadas hondurenhas e pelo parlamento. No Brasil, um crime hediondo que pode dar até 30 anos de cadeia para quem o pratica. Na concepção do governo autoritário hondurenho e dos proprietários dos grandes grupos de comunicação, tal ação dá plenos poderes para os criminosos.

A Veja dá voz ao ditador Micheletti na edição dessa semana, depois reclama de ser chamada de imprensa golpista. Adoram um golpe. O ditador hondurenho podia ter aproveitado o ensejo e raptado o proprietário da editora que publica o semanário pró-ditadura. Seguindo a lógica hedionda desse pessoal, ele teria todo direito de assumir o controle do grupo empresarial e teria todo o respaldo da revista mais importante da companhia.

Mas o pior nem é isso. O pior é que a missão de deputados – os mesmos que aprovaram o sequestro relâmpago como crime hediondo – foi confraterizar com o ditador Micheletti em sua visita a Tegucigalpa. A informação é da jornalista Heloísa Vilela em entrevista para o blog Vi o Mundo, do Luiz Carlos Azenha. Só os deputados Janete Pietá (PT-SP)  e Ivan Valente (PSOl – SP) se recusaram a se confraternizar com o representante do governo ilegal. Os outros todos fizeram questão de reconhecer alguma autoridade naquele entulho de autoritarismo.

A idéia partiu – é claro – do deputado Raul Jungman da facção à direita dos DEMO, o PPS. O encontro não estava na agenda oficial dos parlamentares e foi feito só como uma photo opportunity ( o pessoal gosta muito de Opportunity, em geral).

Coloco um trecho da entrevista da  repórter Heloísa Vilela que narra o fato:

Viomundo – Na quinta-feira, os deputados federais Roberto Jungman (PPS-PE), Claudio Cajado (DEM-BA), Bruno Araújo (PSDB-PE), Maurício Rands (PT-PE), Ivan Valente (PSOL-SP)e Janete Pietá (PT-SP)estiveram em Tegucigalpa.  Conversaram com parlamentares locais, com o presidente deposto e Manuel Zelaya. No final, os quatro primeiros se reuniram durante quase duas horas com Roberto Micheletti. Esse encontro fazia parte da agenda?

Heloisa Villela – Não. Por isso mesmo os deputados Ivan Valente e Janete Pietá se recusaram a participar. Os dois ficaram irritadíssimos, pois o encontro não estava previsto e que não era o combinado. Testemunhei os seis parlamentares no elevador discutindo, mas o Ivan e a Janete não conseguiram convencer os outros. E acabou acontecendo aquele encontro.

Viomundo – Eles viram que você estava no elevador?

Heloisa Villela  – O Raul Jungman, do PPS, percebeu que o cinegrafista da Record, Joaquim Leite Neto, estava gravando, e só dizia assim: “Ivanzinho, por favor”. E o Ivan balançava a cabeça.

Viomundo – Na matéria que foi ao ar no JR, a imagem que me marcou foi a do Micheletti e dos parlamentares rindo. Foi esse mesmo o clima do encontro? Os quatro apertaram a mão manchada de sangue do Micheletti?

Heloisa Villela – O tom amistoso e a troca de gracinhas foram irritantes. Não houve cobrança e sim bate-papo. Perguntei ao Micheletti se a presença deputados brasileiros significava um reconhecimento do governo. Ele disse que os parlamentares não tem esse papel,  mas completou: “Espero que eles me ajudem”. Eles não só apertaram a mão do Micheletti como posaram para foto, todos juntos.

Viomundo – Como eles defenderam a visita ao Micheletti?

Heloisa Villela –  Que graças à visita ao Micheletti, eles conseguiram a garantia de que a integridade da embaixada brasileira jamais será violada. Isso não é correto. Essa garantia já havia sido dada, por Micheletti, há dias. Eles também disseram que, na conversa, pediram que as linhas de telefone da embaixada fossem restabelecidas e que o golpista prometeu fazer o favor. Nossa… que favor!

Viomundo – É verdade que o encontro foi regado a vinho e comidinhas?

Heloisa Villela – Infelizmente, é. Na hora acabou o encontro, eu disse ao Mauricio Rands, que tinha sido informada há poucos minutos da provável transferência dos camponeses para um presídio de segurança máxima, onde some muita gente. E perguntei como ele se sentia ao apertar a mão do representante do governo que estava fazendo isso. Ele não respondeu. Não se referiu a direitos humanos, direitos civis, nada. Ficou apenas repetindo o discurso ensaiado de véspera. E pior. Disse que a OEA vai negociar também com os golpistas. Quando comentei que a OEA tem mandato  para isso, ele saiu sem dizer mais nada. Uma decepção…

Viomundo – Na sua permanência em Honduras, qual o acontecimento que mais te chocou?

Heloisa Villela – Nada me chocou mais do que esse encontro dos deputados brasileiros com o Micheletti. Nem o cerco policial e militar à embaixada brasileira. Na verdade, uma barricada humana, que fica ali dia e noite. A grande maioria deles, meninos de 18 a 20 anos que vem do interior para garantir um sustento trabalhando na polícia e nas forças armadas. Aposto que muitos estão com o Zelaya. O Tenente Molina, porta-voz da polícia, disse abertamente que está com o presidente Zelaya. Mas ver nossos representantes fazendo aquele papelão, para jogar para a platéia no Brasil ou tentar com isso criticar o governo brasileiro, que não negocia com golpistas, realmente me deixou superchocada. Confesso, tremia de raiva na hora que fiz a primeira pergunta ao Rands.”

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Na década de setenta, músicos experimentados do Free Jazz se reuniram no projeto de Charlie Haden e Carla Bley: a Liberation Music Orchestra. No grupo eles colocavam tudo o que haviam aprendido na vanguarda musical a serviço das causas populares. Tal associação foi bastante comum, basta lembrarmos do Nationtime do Joe McpheeAttica blues do Archie Shepp e do Fuck De Boere do Peter Brötzmann. Isso sem falar nas criações na música erudita de Luigi Nono e de Cornelius Cardew, mencionadas anteriormente.

No terceiro disco da LMO, Dream Keeper, de 1990, os músicos trataram sobretudo das ditaduras latinoamericanas sustentadas pelo departamento de estado dos Estados Unidos e da esperança do fim delas. Hoje o quadro é diferente, mas como se tratam de tempos de golpe, selecionei duas músicas, um hino à esperança de Silvio Rodrigues e um tema da LMO sobre a opressão em El Salvador. A música de Silvio Rodrigues é Rabo de nube. A apresentação aconteceu dias atrás no festival Meltdown que homenageava Ornette Coleman. Nos vocais escutamos um gênio: Robert Wyatt. Confesso que quando eu soube que isso ia acontecer, tremi nas bases. Dois dos meus músicos favoritos no mesmo palco.

Rabo De Nube

Si me dijeran pide un deseo,
Preferiría un rabo de nube,
Un torbellino en el suelo
Y una gran ira que sube.
Un barredor de tristezas,
Un aguacero en venganza
Que cuando escampe parezca
Nuestra esperanza.

Si me dijeran pide un deseo,
Preferiría un rabo de nube,
Que se llevara lo feo
Y nos dejara el querube.
Un barredor de tristezas,
Un aguacero en venganza
Que cuando escampe parezca
Nuestra esperanza

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Imagens retiradas deste site . A dica é do Idelber

PS: Só hoje eu descobri que o sociólogo Ricardo Prata posta suas interpretações direto de Pipa, no Rio Grande do Norte. Tem muita coisa sobre política brasileira, economia informal e as novas formas da sociedade brasileira. A partir de agora, seu blog está entre os nossos favoritos.

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