
Joseph Kosuth: "Arte Como ideia"
Este é o primeiro texto que pretendo escrever sobre a temporada de arte. Ainda quero fazer algo sobre o trabalho de Rodrigo Andrade e resenhar o livro de Francis Alÿs e mais, mas cada coisa em sua hora. Vontade sobra pra falar de mais coisas.
Muita gente boa fala sobre a obsolescência deste tipo de exposição. Não são palermas que acham que sabem onde começa e onde termina a arte, mas gente que entende o circuito muito melhor do que eu. Os argumentos são ótimos.
Mesmo assim, não posso evitar, gosto muito de época de Bienal. A cidade fica repleta de boas exposições e discussões sobre arte. Um público que não dá tanta bola para a produção contemporânea presta atenção no assunto e uma garotada começa a cultivar o gosto pelas linguagens visuais.
Estive duas vezes nesta Bienal, na quarta-feira da semana passada (24 de setembro) e na abertura. Ainda falta muito, muito mesmo, pra ver, mas o que vi já foi o suficiente pra me deixar animado. Mais do que a ideia da exposição, é muito trabalho bom. Só o que pude testemunhar de Tatiana Blass, Nuno Ramos, Rodrigo Andrade, Anri Sala, Francis Alÿs, Steve McQueen, Cinthia Marcelle, Sara Ramo, Mateus Rocha Pitta, Moshekwa Langa, Joseph Kosuth, Nan Goldin, fora o terreiro de Carlos Teixeira e obras históricas de Antonio Manoel, Oswaldo Goeldi, Carlos Vergara, Antonio Dias, Hélio Oiticica e dos grupos de arquitetos Archigram e Superstudio é pra encher os olhos e ficar feliz.
Além disso, a cidade está pegando fogo. Exposições de primeira estão em cartaz, como a retrospectiva do Antonio Dias na Pinacoteca, a obra de Thomas Hirschhorn na Escola São Paulo, a Paralela (que é sempre legal de ver), mostras de Tunga, Sérgio Sister, Arthur Lescher, Raymundo Colares, Mauro Restiffe, Zerbini (que eu ainda não vi), do Ernesto Neto (que também não vi) e coletivas como a da Galeria Mendes Wood, a da Baró/EmmaThomas, do Instituto Tomie Ohtake e a excelente da galeria Luísa Strina (organizada pelo grande Rodrigo Moura). Aliás, quase me esqueço, o MASP parece mudar de ares. Abriu uma mostra só com a pintura contemporânea alemã, com nomões como Albert Oehlen, Neo Rauch e, sobretudo, Gerhardt Richter (goste-se ou não, ele é um dos maiores artistas vivos).
Só a oportunidade de ver duas belas mostras do Fred Sandback e uma retrospectiva do Sérgio Camargo, aliás, já era motivo de alegria há menos de um mês atrás. Olhem, ainda não sai de São Paulo.

Joseph Kosuth: "Arte"
Quem se interessa, como eu, pelo esforço de se aproximar ou distanciar vida e arte, a cidade também está um prato cheio. A começar pela obra de Hirshhorn. Tenho a impressão que um dos artistas mais militantes do século XXI vai na contramão de boa parte da arte contemporânea. Sua obra, cada vez mais, toma distância da vida para pensá-la criticamente. Trata das ideias de participação, de obra militante e de forma mesmo. Tem muitas outras exposições sobre o assunto na cidade. Acho que as melhores obras contemporâneas sobre o assunto são as que levam adiante esses limites da militância. Sobretudo as que questionam obras de arte que se pretendem politizadas mas só falam do meio de arte e do circuito.
Agora, a discussão é levada a sério na mostra de Joseph Beuys no SESC Pompéia. A maior parte da exposição é feita de documentos do período em que ele deixou de ser artista no sentido tradicional e se tornou escultor social, um militante. Para ilustrar isso, existe uma anedota. Dizem que durante a Documenta de Kassel que ele expôs junto com Richard Serra, perguntaram a ele o que ele achava do grande escultor. ele teria respondido: “É ótimo, mas é arte”.
Aliás, o assunto me faz pensar as últimas três reações conservadoras às obras da Bienal. Por conta de motivos extra-artísticos setores diferentes da sociedade quiseram embargar três obras. Independente da qualidade das obras, acho que o gesto é inadmissível.
Tudo começou por uma ação da OAB – SP, encabeçada pelo famigerado D’Urso. Além de ter um sobrenome legal, o devogado foi protagonista do já esquecido movimento cansei. E sua pena pediu para censurar os desenhos do artista pernambucano Gil Vicente. Nos trabalhos o artista se retrata torturando e assassinando figuras políticas importantes como o presidente Lula, o ex-sociólogo Fernando Henrique Cardoso, Kofi Annan, Ahmadjinejad, Jarbas Vasconcelos e outros. Não é o melhor trabalho do artista, mas é engraçado e parece um gibi. Daquelas obras que são típicas da Bienal de SP.
Agora, por razões morais, o nobre doutor acha que o trabalho deve ficar longe dos olhos do público. Segundo o infeliz, traria ideias perigosas aos visitantes. Convenhamos, nem uma ostra raciocinaria coisa tão primária.
Depois, parece que a justiça eleitoral pediu a retirada da intervenção El Alma Nunca Piensa Sin Imagen, do argentino Roberto Jacoby. Lá, ele reuniu um grupo para fazer, explicitamente, campanha para Dilma Roussef nos pavilhões da Bienal. Sou eleitor da Dilma e fiquei satisfeito em ver as madames torcerem o nariz para a obra na abertura. Mas não acho que isso seja boa arte. É uma bobagem.

Fred Sandback: esse sabia das coisas
É claro que o sentido político é mais efetivo do que de gente que discute o cubo branco, mas é pouco. Agora, independente da qualidade, ajoelhou tem que rezar. Mantenham os caras lá. Eles se aproveitam da estrutura pra veicular uma causa. Tal como os artistas que se ligam em meio ambiente, minorias, direitos dos animais, se trata de oportunistas, mas esse é o meio de arte. Nesse caso, entretanto, parece existir um problema legal. Como se trata de um prédio público, é proibido fazer campanha eleitoral. Mas seria legal sustentar um trabalho, mesmo que ruim, até o final.
Este é só mais um daqueles trabalhos típicos de Bienal. Obras engraçadas de artistas não tão relevantes mas que nos fazem dar risadas e lembrar das histórias anos depois. Isso é outra boa notícia dessa exposição: os trabalhos rídiculos estão de volta. Cabeças de bicho do horóscopo chinês, lutador gay de luta livre, gente namorando desenhada em spray, muita coisa divertida. Prefiro este ridículo do que o bom gosto de discussões de departamento sobre arte e o seu circuito.
Por fim, soube da nova tentativa de censura hoje. Querem fechar agora o belíssimo trabalho de Nuno Ramos no vão do edifício do Ibirapuera. A obra é composta de peças monumentais de areia queimada que formam um espaço de edifícios fechados e abandonados. A cor os envelhece e o fato de não se abrirem para o seu entorno tornam-lhes assombrosos. Em si, já é bastante aterrador. Sobre a obra caixas de som emitem músicas como Carcará, Boi da Cara Preta e outra que eu não me lembro. São exemplos dessa narrativa associada ao pessimismo e uma tristeza constitutiva da nação. Lembra-me as obras de Oswaldo Goeldi, alguns poemas do Drummond e os desfechos do Machado de Assis.
O caso é que urubus sobrevoam os volumes e pousam sobre eles. Com as melhores intenções militantes em favor dos bichos quiseram interditar a obra. A censura se fez presente de novo. Acho que qualquer reivindicação legítima, mas tenho certeza que a obra cumpre as designações legais associada ao cativeiro dos bichos. Acho que esse precedente pode ser muito perigoso. Se começam a proibir todas as obras que ofendem concepções morais de determinados grupos a liuberdade de criação ficaria muito restrita. A arte ficaria chata como os desenhos animados. Hoje os personagens não podem fumar, bater em bichos e ficarem doidões nos desenhos infantis.
Tenho certeza que esses limites tornaram essa linguagem muito chata. Acho que essas restrições violentas à criação podem fazer o mesmo com as ideias no Brasil. Assim, mais que as loucuras da oposição ao governo federal, o autoritarismo mora aí. Fora que, como já nos ensinou de forma muito esclarecedora um sujeito que comentou aqui no blogue, o moralismo é o melhor refúgio dos canalhas.
PS: Saiu no Brasil um dos filmes mais emocionantes que já vi: Step Across the Border, de Nicholas Humbert e Werner Penzel. Aqui no Brasil ele recebeu um nome engraçado: Conexões desconexas. É sobre um dos meus ídolos, o guitarrista e compositor Fred Frith. No filme ele trata sobretudo de uma ética dele que associa sua posição frente ao mundo às suas discussões sobre a música popular e a música de vanguarda. Comovente.
PS2: Amanhã o Joseph Kosuth fala na Bienal, não dá pra perder.
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