O Arthur pode ser considerado um integrante do Guaciara só pela quantidade de comentário publicados aqui nos posts. Além disso, ele já publicou um texto por aqui e de vez em nunca posta algumas coisas no seu ótimo blog. Amigão nosso de longuíssima data, ele sempre botou pra quebrar nas discussões de som, política e nas bobajadas da vida. Nesse texto meio autobiográfico, ele arrepia o moicano e dá uma emocionada aqui nos sócios do Guaci ao falar sobre como o anarquismo entrou na vida dele e qual a importância dessa ética de se relacionar com o mundo em todo movimento da esquerda.
Fala por causa disso, um pouco sobre a minha vida (diretamente) de um jeito muito bonito e certamente sobre a de muitos leitores do blog.
Com isso, o nosso camarada – esquerdista, romântico e descontraído- homenageia os 100 anos de uma das organizações mais importantes na história das lutas sociais da esquerda, a CNT e, repito, deixa todos nós emocionados. Vale a pena ler.
Para os chegados, a minha motivação para escrever este texto é óbvia. Mas vamos lá: diria que desde a quinta-série, ainda em Santo André, acabei me deparando com política – minha escola tinha um Grêmio Estudantil muito forte e eu me identificava com a galera (talvez por andarem de skate e alguns lerem quadrinhos), o PT lá era algo muito presente, comitês de bairro, minha mãe sempre identificada com o Lula e tal (meu pai, operário, curiosamente votou no Enéas em 1989), um lance de base muito interessante. Sem contar que vivi na pele a transformação cultural do primeiro mandato Celso Daniel por lá – isso renderia outro texto. Mas meu temperamento era outro – mais vísceras menos cérebro.
Quando mudei pra Pouso Alegre (mineirismo por opção) – revoltadíssimo por ir embora e devidamente aplicado em Garotos Podres, Vírus 27 e Dead Kennedys por meu irmão mais velho (eu curtia metal mesmo), várias coisas começaram a fazer sentido e a cidade caiu como uma luva pra mim. Desde que me entendo por gente, sempre fui chegado em livros, jornais e gibis. Em Piei, conheci uma galera que curtia muito rock e mais centrado no aspecto comportamental do punk, razoavelmente bem instruída perto da minha chucrice de então: era o caso do Lauro e do Tiago. A casa deles era – como diria um amigo comum de BH, o C.U.P.A (Centro Underground de Pouso Alegre): um mundo novo abriu através dali, de relações sociais, culturais, de forma de ver a vida. Lá, pela primeira vez na vida, descobri que biblioteca em casa não era coisa de novela – eu só conhecia as públicas.
Quem conhece a galera toda especial da cidade e o astral da casa dos Mesquita sabe do que falo. E pelo rock e os quadrinhos, pra resumir a coisa toda, cheguei a uma posição política que coube como uma luva em mim: o anarquismo . O Tiago, esse querido amigo mui respeitável, era uma espécie de pensador anarquista local – lera um punhado de boletins/zines anarquistas e os dois volumes do George Woodcock sobre o assunto (essa é minha lembrança mais forte) e sempre teve esses insights brilhantes que ele tanto gosta de socializar, que vão, para citar uma dupla de MCs geniais, do crucifixo até xoxota. Lá na casa deles, ao mesmo passo, entendi um pouco mais do PT – seus pais eram/são figuras importantes do partido na cidade. E o mais importante: descobri que revolta e descontração eram compatíveis. E é o que faz eu ser eternamente grato a essa família.
trailer Terra e Liberdade
primeira parte de um documentário sobre os anarquistas espanhóis
Salto temporal. Todo mundo vai para São Paulo, Tiago fica mais consequente (uma palavra que ele usava muito na época), Laurose rockstar como sempre (sou fã do Space até hoje) e eu cada vez mais envolvido no anarquismo/punk rock. Para o bem e para o mal. Nesse interím, havia comprado o O Que é Anarquismo? (livretinho safado), Deus e o Estado e Escritos Contra Marx, de um pensador que mexia com minha cabeça e sobretudo com as vísceras: Mikhail Bakunin . Tudo pelo correio. Daí pra frente, foda-se PT, foda-se Estado e o escambau.

“Carregamos um mundo novo em nossos corações, que cresce a cada instante. Neste exato instante ele está crescendo”- Buenvaventura Durruti
Aconteceu de virar um cdf sobre o assunto, conhecer a história das lutas anarquistas de cabo a rabo e fazer uma biblioteca sobre anarquismo/comunismo de esquerda bonita de se ver. E fiz muitos amigos e conheci lendas do meio, como o Maurício Tragtenberg e o Jaime Cuberos (dois autodidatas incríveis) que muito me impressionam até hoje; tanto eles quanto boa parte dos amigos anarquistas que estimo – com os quais não compartilho mais do “nobre ideal”, me sentindo próximo ao autonomismo –, tem uma virtude que é algo que persigo muito: manter relações éticas com o mundo.
O anarquismo pode estar velho, caduco, mas a ética destas pessoas impressiona muito. Isso é motivo de chacota inclusive por parte de muito esquerdista que acredita que os fins justificam os meios sempre. Daí, me parece importante falar sobre os 100 anos da Confederacion Nacional del Trabajo da Espanha, desde sempre, a maior organização anarquista do planeta. Na Guerra Civil espanhola – o que, curiosamente os antiautoritários chamam de Revolução Espanhola – de 1936/39, chegaram a ter dois milhões de associados.

Hoje, junto com a CGT (central derivada da própria CNT), tem pouco mais de 40 mil afiliados. É daí que surgiu uma espécie de Robin Hood/Che Guevara local, Buenaventura Durruti, por exemplo. Se a guerra civil, para a historiografia mundial, marca o fim do idealismo socialista como horizonte possível, para os antiautoritários de diversas estirpes é uma espécie de paradigma.
O filme do Ken Loach sobre o assunto, o Situacionismo, a regravação de hinos do período pelo The Ex, o nome da banda Mano Negra (uma organização anarquista que lutou contra o franquismo), o próprio punk, os punhos cerrados, o teatro do Living Theater, o feminismo, a Nova Esquerda estadunidense (na figura de Noam Chomsky, Paul Goodman e Murray Bookchin por exemplo), certas vanguardas artísticas e uma certa banda pop que emplacou um dos maiores hits dos anos 1990, são exemplares disso.
E, durante o período do ressurgimento do movimento anticapitalista global (“Povo de Seattle”, altermundistas, chame como quiser), a partir de 1999, o período onde fui mais politicamente ativo (comitê pró Timor Leste, luta pela liberdade de Mumia Abul Jamal, manifestações contra a ALCA e pelo vegetarianismo, organizações anarquistas, criação de um espaço anarquista em SP, grupos apartidários na USP, greves etc etc), foi onde mais falou-se/pensou-se sobre a luta espanhola na minha vida.
Se eu não me orgulho de tudo que participei na política , resta o imaginário das transformações que os anarquistas realizaram n’O Curto Verão da Anarquia, para citar o pensador H. M. Enzensberger. E eu ainda possuo algumas utopias porque “uma civilização que, de maneira sistemática, recusa o valor da imaginação e a destrói, está condenada a soçobrar numa barbárie cada vez mais profunda”, como diria o crítico de arte anarquista Herbert Read, curiosamente falecido no mítico ano de 1968.
vídeo Ex
Durruti
Homenagear os “rebeldes que falharam”- só pra citar um poema do próprio Read, me parece sempre fortuito. E os espanhóis fizeram isso lindamente, recuperando as partituras originais dos dois maiores hinos anarquistas, “Hijos Del Pueblo” e “A Las Barricadas”, e as regravando com arranjos atuais. A primeira foi composta por um tipógrafo, Rafael Carratalá Ramos e se tornou hino na Primeira Internacional. A segunda é uma versão de “Warszawianka” ou “Varsoviana”, canção composta na prisão pelo poeta polaco Wacław Święcicki, em 1883.
Em 1933, foi publicada a partitura no jornal “Tierra y Liberdad”, em Barcelona, com letra de Valeriano Órobon Fernandez e arranjos musicais para coro de Angel Miret. Porém, as gravações existentes mais antigas eram de péssima qualidade. Daí a ideia da regravação em comemoração aos 100 anos da CNT. Com a ajuda de pessoas várias, foram resgatadas partituras e o compositor Juan Manuel Yanke começou a trabalhar com os materiais. Após vários meses de trabalho, em 14 de novembro de 2009, gravou-se as faixas no Conservatório “Juan Crisostomo de Arriaga” de Bilbao. Sobre as regravações você pode saber mais aqui e os vídeos das músicas vão abaixo.
Bom, sobre a validade das ideias que essas canções representam, fica para outra ocasião. O que sei, é que os guaciáricos residentes também acreditam que de nada vale pensar política sem algum valor utópico no horizonte, não? Em boa parte é a falta de utopia que faz gente de direita me brochar.
P.S: só para constar, até que se prove o contrário, voto na Dilma. PRAW!




