
Mesquita na panfletagem
Tinha me esquecido como campanha eleitoral na rua cansa e faz bem. Nesse ano, meu pai, o Marcos Mesquita decidiu sair candidato a deputado federal (para quem quiser votar, o número é 1399). Ele é um quadro do PT sul-mineiro desde que eu me entendo por gente, foi vice-prefeito e secretário da Saúde (por duas vezes). Até semana que vem, eu devo escrever um post mais detalhado sobre a importância de se votar nele. Sou filho da fera, mas acho fundamental colocar uma figura dessas na câmara.
Um link recente do Lula falando sobre o Vinícius de Morais diz muito sobre as razões por que eu acho ele um bom candidato. Médico, músico, professor e político, o Mesquita é o sujeito mais democrático que eu conheço. Isso se reproduz no sorriso e na disposição de dialogar com todos. Não é à-toa que é uma das pessoas mais celebradas e amadas que eu já vi (e isso vem de muito antes da candidatura). Mas deixa a rasgação de seda de lado, vou contar o que vi nesse feriadão.
A campanha dele passa longe dessas superproduções de parlamentares midiáticos e é bem modesta, sem profissionais com bandeiras ou panfletos. É composta essencialmente de militantes do Sul de Minas e de amigos. E é nesse quesito que ela é forte. Só a injeção de amizade que ele e todos os participantes da campanha recebem quando vão divulgar seu nome já valeu meu feriado inteiro (e olha que ele teve mais um monte de coisas legais).
Nesse 7 de setembro, eu me juntei às dezenas de amigos que foram as ruas divulgar a candidatura do Mesquita na avenida principal de Pouso Alegre. Uma multidão de mais de 10 mil pessoas se reúne ali para ver exército, polícia, bombeiros e escolas públicas desfilarem com suas fanfarras em ritmos monótonos e com pouca dinâmica.No geral, querem ver os tanques, helicópteros, filhos, sobrinhos, primos e netos que se mostram na avenida.
Tinha gente de tudo quanto é tipo, fazendo campanha e assistindo ao desfile. Por causa disso, uma panfletagem dessas faz você aprender muito sobre quais são as expectativas das pessoas em relação a política e por que pautar o debate só no que repercute pela Internet – pelo menos por hora – é muito equivocado.
Além disso, é o momento de vivenciar a democracia de verdade. São centenas de cabos eleitorais divulgando as mais diversas plataformas políticas e combinações partidárias (ainda mais em Minas onde o quesito diversidade de alianças ultrapassa bastante os limites imaginados por qualquer cientista político). E entre pessoas de saco cheio, outras receptivas, velhinhos que só querem bater um papo todo mundo pergunta (ou se pergunta) pra que eu vou votar nesse cara.
Os votos para deputado federal e estadual são os últimos a serem colocados nas ponderações dos eleitores brasileiros. Muitas pessoas votam com base em critérios fisiológicos. O Brasil ainda é um país de carências gigantescas. Na opinião de boa parte do eleitorado, o Estado é um´provedor que só aparece na época de eleições. Mas muita coisa tá mudando e eu acho que o personagem Lula, suas políticas sociais, seu discurso de valorização dos mais pobres e a prática de inserção das pessoas em conferências locais, estaduais e federais alterou positivamente esse cenário, politizou as pessoas quanto aos seus direito e impôs políticas irreversíveis.
Mas fazer campanha na rua me trouxe algumas grandes lições na prática (com toda distorção que a pequena amostragem pode oferecer). A primeira conclusão é óbvia: quem fala mal do Lula na rua hoje em dia corre risco sério de tomar uns cascudos de desconhecido. O pessoal mais pobre defende ele e “a mulher” (a Dilma) de uma maneira mais entusiasmada que os petistas. É nessa hora que se percebe que a consolidação dela no eleitorado é bem mais forte do que pode parecer. A principal fonte de informação dos transeuntes que eu encontrei em Pouso Alegre no feriado é a TV. A internet como meio de informação ainda é uma coisa abstrata.
Mas a decisão desse eleitor não se dá pelas notícias veiculadas por essa ou aquela emissora, se dá pela comprovação prática de que a vida deles melhorou, que eles conseguem quitar sua casa, comprar eletrodomésticos e com uma identificação muito profunda com o presidente. A comprovação é do dia-a-dia. Informação mais poderosa que a experiência não há, já dizia Stanislavski.
Depois, é que as menções ao Serra nos materiais de campanha tucanos em Minas são raíssimas e queimam o filme. Em Pouso Alegre, em várias ocasiões me disseram que o FHC e o Serra abandonaram Minas Gerais nos mandatos deles. A derrubada do Aécio foi o golpe final e não é sem motivo que o candidato tucano hoje amargue rejeição recorde no segundo maior colégio eleitoral brasileiro (alguns divulgam algo acima dos 45%). O Dilmasia tem pegado fogo pelo interior e isso se soma às combinações mais esdrúxulas para um eleitor tão acostumado à oposição PT-PSDB. Em Minas Gerais tem aliança para todos os gostos.
Mas o mais importante de tudo, é que diferente da Internet onde tudo é super claro, nas ruas do interior mineiro é tudo mais matizado. Lá não existe esse anti-petismo babão e nem raiva do serrismo. Honduras, Colômbia, Venezuela estão muito distantes da vida do pessoal. As perguntas mais comuns sobre os candidatos a deputado são: o que esse cara vai fazer pra melhorar meu bairro, pra conseguir trazer indústrias pra cá, desovar a produção, arrumar emprego pro meu filho, arrumar um dinheiro pra mim e coisas do tipo. Para esse tipo de problema, a campanha lulista tem a comprovação da realidade como elemento. A de Serra e Marina não têm nada, nem um cenário de uma vida melhor.
A militância profissional que ganha para distribuir os panfletos acaba atuando nessa mesma chave: “vote em tal candidato por que ele me arrumou um serviço”. Ou então repete os chavões básicos sobre cada tema. Só militância comprometida é que tem a informação do voto na ponta da língua e nessas horas é fundamental gente comprometida com a campanha. É a hora em que uma estrutura como a do PT vira votos.
A campanha do Serra não faz comícios e raramente vai às ruas. Os militantes serristas se reduzem a mandar spams por e-mail, morrem de medo de ir pra rua. Não é à-toa que desconhecem as aspirações dos eleitores e do país. Preferem pensar o governo a partir de editoriais estrangeiros e nacionais. Isso, sem dúvida, é o reflexo do enfraquecimento dos coronéis que se acastelavam no PFL. Eram esses os caras que davam alguma base de realidade nas campanhas antigas do PSDB, um partido que não desgruda do twitter. O caminho do buraco é certo.
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