Obama


premiação de caserna

Nunca foi segredo o papel do entretenimento hollywoodiano no complexo militar-industrial dos Estados Unidos. Premiações como o Oscar revelam intenções dessa indústria e como o galo tem cantado nas relações entre capital e estado no maior país do Atlântico Norte.

No período ao redor à premiação, um número considerável de notícias associando a produção de filmes blockbuster ao aparato americano de segurança assustou. Ninguém escondeu nada. as agências de vigilância e inteligência estiveram associadas à criação de mitologias em torno da CIA, forneceram informações para filmes de propaganda e até tentaram escolher quem entrava e quem não entrava no auditório do evento.

Embora eu não entenda nada de segurança nacional do pessoal do EUA, não tenha interesse específico por filmes de Hollywood e nem esteja a par da cooptação da indústria do entretenimento pelo poder bélico, as informações são tantas que fazem temer o poder que Langley ganha nos corredores da Casa Branca sob Obama.

eis algumas dessas notícias:

1) Existem evidências convincentes que comprovam a participação de agentes americanos no fornecimento de informações ultrassecretas para a realização do filme A hora mais escura, de Kathryn Bigelow. Como o filme justifica a tortura (a ponto de muitos compararem a diretora a Leni Riefenstahl) e insinua que Obama mudou o tratamento dos presos de Guantanamo, o filme parece ser peça de propaganda da guerra ao terror a la Obama. O artigo de Glenn Greenwald, em Salon, é particularmente perturbador.

2) O filme Argo, realizado por um diretor medíocre e baseado em uma sucessão de falsificações, premiado pela primeira dama dos Estados Unidos, foi criticado por exagerar o papel da CIA na operação de resgate dos funcionários da embaixada americana em Teerã. Isso não é pouco. A derrota acachapante sofrida pela CIA durante a revolução iraniana é transformada em vitória humanitária. Aliás, os funcionários da embaixada foram vítimas dessa situação lamentável, em parte, pela inabilidade intervencionista de seus agentes qualificados.

O papel do agente herói é construído ao modo das pinturas históricas da Academia Francesa de Belas Artes entre os séculos XVIII e XIX. São burocratas que se tornam figuras míticas, abnegados. A música faz o encaminhamento de um memorando parecer um gesto de transformação do planeta.

Muitos sugerem a licença poética como uma salvação para Affleck. Convenhamos, tal como na pintura tradicional, aqui o mito pretende explicar a história. Não é por acaso que as imagens de arquivo são encenadas com tamanha verossimilhança. O caso é menos grave. Trata-se apenas de mais um filme hollywoodiano ruim.

3) Não bastasse isso, ainda mantiveram o diretor palestino Emad Burnat detido antes da premiação. Tá certo que essa festa do Oscar deve ser chata pra caramba, mas até aí, ficar em cana no aeroporto de um país estrangeiro não é consolo. O fato é que não reconheceram que um sujeito como aquele, com todos os documentos, pudesse participar da festa deles.

“Quem convidou esse cara? A passagem dele era para outro lugar. Não era para Abu dabi? Abu zadis?”

Esse blog jamais integraria linchamento de quem quer que fosse, mas achamos que a blogueira cubana Yoani Sánchez podia, para remover a sombra da dúvida sobre sua atuação e apaziguar os ânimos em sua passagem pelo Brasil rumo a turnê mundial, responder a algumas perguntas:

(1) se é verdade que, no seu retorno a Cuba em 2004 depois de dois anos na Suiça, recebeu de fonte não identificada cerca de 250 mil dólares, e se esse valor está de algum modo relacionado à sua militância;

(2) em caso positivo, se a origem dessa quantia pode ser revelada sem constrangimentos de ambas as partes;

(3) se é verdade e se não há nenhum motivo para ocultar as visitas que mantinha ao então chefe da seção de interesses norte americanos (SINA) em Havana, Michel Parmly, documentadas e divulgadas pelo Wikileaks;

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Sede da Sección de Intereses de los Estados Unidos (SINA) em Havana, Cuba, ou a lanhouse de Yoani?

(4) se ela sabe que as respostas de sua suposta entrevista com Obama foram redigidas não pelo presidente norte americano mas por um funcionário da mesma SINA;

(5) se ela recebe suporte técnico e financeiro para manter seu blog e conta de twitter cuja escalas seriam inviáveis com o acesso precário de que alegadamente dispõe em Cuba e se é verdade que usa recursos artificiais para inflar a quantidade de seguidores de sua conta no twitter.

Algumas dúvidas: qual seria o comportamento do eleitorado de qualquer país se o governo federal acabasse de instituir que a saúde que até ontem era paga poderia também ser pública, gratuita e acessível a todos os cidadãos? E se a carga tributária fosse a menor desde 1955? Provavelmente o presidente seria erguido em praça pública e saudado por todos como um grande herói. Em quase todo lugar do mundo, mas existe um país muito louco onde isso não acontece.

E se um presidente colocasse um país em uma guerra sem fim e, graças a uma política econômica irresponsável – com o apoio dos grandes conglomerados empresariais –, arrastasse o país –e o resto do mundo a reboque – a uma crise com proporções nunca antes vistas? Provavelmente, as pessoas iriam as ruas para derrubá-lo e o presidente seria considerado, no mínimo, um aventureiro incompetente.

Pois é, nos Estados Unidos, a coisa é estranha. Se Bush só afundou depois que a vaca chamava o brejo de casa e passou a maior parte do governo em nuvens de popularidade,  o governo Obama mergulha num descrédito gigantesco (80%) e é apontado como uma ameaça às liberdades individuais. Tudo em meio a uma batalha de recuperação econômica.

A oposição americana fala que, além de não precisar de um sistema de saúde, não tem obrigação nenhuma em salvar o sistema financeiro. O partido Republicano vive sem horizonte algum e nesse cenário se alimenta de intolerância e fundamentalismo.

Os conservadores por Deus e contra o sexo anal e a nova ordem mudial

Muito dessa reação violenta e escandalosa contra o governo é atribuído ao movimento Tea Party.  Você pode imaginar o que vem no caldo especial dessa turma: homofobia, xenofobia, a oposição ao sexo anal e a tudo que não se encaixa ao perfil dos “fundadores” da nação.

Esse é o ponto que me chama mais atenção. Os tea partiers, pelo pouco que acompanho se dividem entre Ron Paul e Sarah Palin. De um lado, estão os inimigos mortais da alegria, de um mundo mais desinibido; querem os valores protestantes como regras oficiais do país. São os fãs da Sarah Palin (eles são fãs mesmo, uma vez que a falta de debate político é outra característica do movimento).

Por outro lado, tem os libertarians que se juntam ao senador texano Ron Paul. São contra qualquer tipo de regulação ou intervenção do Estado na economia, a ponto de defenderem a falta de necessidade de Corpo de Bombeiros bancados pelo Estado.

Segundo o próprio Paul, Obama é um corporatista. Ou seja, trabalha pela dominação dos grandes conglomerados, com isso  sufoca a iniciativa individual. A posição desse pessoal é um pouco melhor do que o republicanismo radical, mas a falta de compreensão do papel do Estado é a mesma, ainda mais depois da crise financeira de 2008 que tem nos 30 anos de políticas de desregulamentação um dos seus principais vilões. Pelo menos são contra as intervenções militares americanas e radicalmente a favor da divisão entre estado e religião. Em uma recente pesquisa Rasmussen, o senador libertarian aparece empatado com Obama.

Na maior parte dos casos, os manifestantes das Tea Parties se rebelam contra o establishment político em geral e contra as instituições. O movimento se baseia em um fundamentalismo que remonta à independência dos Estados Unidos  e a uma paranóia em que o Estado é um inimigo e que os servidores públicos trabalham noite e dia para espoliar a vida do “cidadão de bem”.

A paranóia de que o governo federal é um monstro hobbesiano que irá chegar de dsco voador e dominar a liberdade de escolha está presente em todo imaginário dos EUA.

Tal desespero de que o comunismo, o totalitarismo e a invasão alienígena estão à espreita tem sido o combustível do radicalismo anti-Obama. A justificativa número um é o possível aumento de impostos por causa da criação do sistema de Saúde Pública e ajuda aos grandes conglomerados no pós-crise. O engraçado era que poucos reclamavam quando o aumento de impostos era para combater o terrorismo no Iraque.

O medo do centro e da esquerda política americana é que essas manifestações de rua descambem pra mais capítulos de violência nos EUA. Por causa disso, Bill Clinton recentemente comparou a ascensão do Tea Party ao atentado ao Oklahoma City Building há 14 anos atrás. Assim como a galera que reclama da “Nova Ordem Mundial”, o responsável pelo atentado, Timothy McVeigh, também participava de manifestações contra os impostos, o controle de armas e a intervenção do governo federal na vida dos americanos.

O atentado matou 168 pessoas e para McVeigh o atentado serviu para um “bem maior”, pois as pessoas que “traem a constituição são inimigos domésticos e deveriam ser punidas de acordo”.  É uma relação muito louca com a Constituição (que serve mais ou menos como o Corão ou a Bíblia) e com os outros regimes de governo, que são uma espécie de grande Satã. Também é um discurso que sempre ganha em agressividade quando os democratas estão no poder.

A não ser que tenha guerra. Quando um democrata assume o poder, o estado se torna um inimigo automático, os políticos e funcionários públicos são chamados de gangsters e tratados como uma ameaça permanente aos direitos individuais (nada muito diferente da reação da direita por aqui).

É claro que a euforia em torno da Tea Party pode ser exagerada. Mas esse discurso foi o que fortaleceu a bancada republicana no primeiro governo Clinton. Na ápoca a reação era contra uma Lei Criminal de 1994, que entre outras coisas previa a admissão de gays nas forças armadas.

A movimentação contra essa legislação nos estados americanos mais conservadores deu brecha, entre outras coisas para o aumento da bancada republicana nos EUA  de 94 até 2006. Essa ascensão fez o ex-presidente democrata fritar no óleo da Monica Lewinski e empurrou o governo Clinton para uma administração mais à direita.

Isso certamente pode acontecer e, seguindo o gosto da direita americana, pode força-los a novas intervenções militares, avanço do protecionismo e perseguição de estrangeiros. A coisa toda ainda está pra ser escrita, mas até agora a oposição ao Obama no Congresso Americano faz de tudo para barrar qualquer proposta que o poder executivo propõe.  O cenário é bem pouco animador.

Amigo nosso de BH, o jornalista Pablo Pires acompanha pelas redações os conflitos mundo afora há um bom tempo. Hoje no Estado de Minas e também na incrível revista Graffitti 76% Quadrinhos. Pouco se falou, mas uma crise profunda balançou a relação carnal entre Israel e Estados Unidos.  A análise do Pablo rende uma ótima conversa (inclusive sobre o Brasil e a relação dos conservadores com a política internacional).

Netanyahu vira as costas pro mundo todo, mas o lobby não sai da mão

A crise entre os EUA e Israel, detonada com o anúncio da construção de 1,6 mil casas em Jerusalém durante a visita à cidade do vice-presidente norte-americano, Joe Biden, não se limitou à diplomacia e foi o estopim também de outros movimentos.

A reação da secretária de Estado, Hillary Clinton, que telefonou para o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, dando-lhe um verdadeira bronca – “insultante” e “negativo para o processo de paz” foram alguns dos termos divulgadas pelos porta-vozes. – foi o ápice da tensão entre a potência e seu fiel e maior aliado no Oriente Médio. Houve quem apontou a rusga diplomática como a maior desde 1975, quando os EUA forçaram Israel a se retirar do Sinai.

No entanto, as consequências e, como é de praxe quando se lida com o conflito israelense-palestino, são exacerbadas. De um lado os conservadores dos EUA, em grande maioria fiéis ao poderoso lobby judeu, condenaram de pronto a reação de Hillary, classificando-a de exagerada e equivocada.

Também serviu a organizações mais aliadas à direita israelense e aos republicanos nos EUA, como a American Israel Public Affairs Committee (Aipac) ou a The Israel Project para pressionar o Congresso norte-americano a demonstrar publicamente o apoio ao Estado judeu.

Do outro lado do espectro político, a organização J´Street, que se se diz um lobby pró-Israel, mas que defende a paz e tem posturas mais liberais, acredita, assim como o presidente brasileiro – que a crise pode servir como uma oportunidade para relançar as negociações de paz sob um novo ângulo, menos submisso à postura radicalmente direitista e ortodoxa que domina o gabinete de Netanyahu.

A J´Street também denunciou o uso, por setores conservadores, da crise como fomentador de uma campanha contra o presidente Barack Obama. E manteve firme a sua posição de recolher assinaturas para que o governo dos EUA mantenha a postura firme em relação à administração israelense. Ou seja, continuar falando grosso para as coisas andarem.

O imbróglio diplomático entre os dois aliados refletiu nos EUA a provocou a mobilização dos dois setores de maneira radical, refletindo a divisão, não apenas da postura dos judeus-americanos em relação ao governo israelense, mas o próprio racha da sociedade norte-americana, que opõe liberais e uma classe universitária cosmopolitas a um poderoso grupo conservador que faz campanha de medo e terror, com apoio da mídia, e consegue mobilizar os que temem o “socialismo” de Obama ou que se alimentam do pânico do radicalismo islâmico.

Karzai, Ahmadinejad e Ali Zardari: pelo jeito, está tudo tranquilo.

Karzai, Ahmadinejad e Ali Zardari: pelo jeito, está tudo tranquilo.

O presidente Obama quis trazer a mudança, mas esqueceu de combinar com os russos. Ou com os iranianos, afegãos, paquistaneses e norte-coreanos, para ser mais exato. No UOL, os novos testes nucleares de Pyongyang (e mais no New York Times). No site Carta Maior, a sobrevivência da paranóia como forma política nos EUA ( e mais na The Nation sobre os discursos de Obama e Cheney), e os recuos da adminstração atual em relação ao tratamento de casos de tortura. Under the rose: os libaneses não aguentam mais tanto espião israelense fuçando em seus assuntos. Só nas últimas semanas, foram quase 24 espiões desmascarados, presos ou expulsos do país, entre eles oficiais de alta patente das FDI. Você não gosta de mim, mas os seus aliados gostam: Ahmadinejad realiza encontro de cúpula com os presidentes do Afeganistão e Paquistão e acentua o seu poder de influência regional. No The Observer, a situação da população tâmil no Sri Lanka depois do que parece ser o fim nada pacífico de uma guerra civil de três décadas. Tariq Ali discute o fracasso americano no Afeganistão, na New Left Review. E um instrutivo panorama da situação política mundial no atlas do The Onion.

Não sei o que está escrito, mas felizes eles não estão

Não sei o que está escrito, mas felizes eles não estão

Governar um país deve ser mais ou menos como manobrar um petroleiro ou porta-aviões: demora um certo tempo até que a mudança de rumo comece. O Titanic acabou se arrebentando por causa do mesmo fenômeno.

Mas desde logo se pode perceber as iniciativas e ações que, mais para frente, resultam em mudanças.

Em um mês de governo, para mérito seu – cumprindo compromissos assumidos em campanha -, Obama começou a desmontagem do campo de prisioneiros de Guantánamo. Mas sobram sinais de que as guerras americanas no Oriente Médio ainda vão azedar muito antes de qualquer sinal de melhora.

Obama ordenou o envio de mais 17 mil soldados ao Afeganistão, antes mesmo de a comissão encarregada de analisar a situação no país (criada por sua equipe de governo) emitir seu primeiro relatório, indicando que o novo governo apostará ainda na solução militar para cuidar do assunto. Isso apesar das declarações durante a campanha de que essa mesma solução não resolveria o problema.

Ainda, Obama parece ter dado seu aval à continuação da “guerra secreta” tocada pela CIA em território paquistanês. Dois bombardeios na última semana tiveram como alvo campos comandados pelo líder Talibã Baitullah Mehsud, acusado de ordenar e coordenar o assassinato de Benazir Bhutto. Somadas, as duas medidas só tendem a desestabilizar ainda mais a região e dar continuidade à violência que tem feito centenas de vítimas por ano.

A aproximação entre democratas e republicanos, ou entre a esquerda e setores mais conservadores, almejada por Obama, parece estar ocorrendo, ainda que diferente da encomenda: para a editora da The Nation, a escalada pode fazer com que a guerra do “Sr. Bush” vire a “guerra do Sr. Obama”; para o New York Times, Obama parece disposto a dar continuidade às guerras secretas da administração anterior.

"Rock é bom por que não pega nada"

"Rock é bom por que não pega nada"

Mesmo apagado pela onda Obama-  que tomou conta do Pólo Norte ao Chuí -, o ódio a George W. Bush foi um dos motores da criatividade musical americana nos últimos oito anos. O ex-presidente hoje é um cachorro morto, mas não foi sempre assim. Por isso, dá pra dizer que os músicos tentaram eliminar ele no berro, mesmo quando o republicano ainda era bem avaliado e queridinho da reaçolândia internacional.

O nosso consultor informal André Maleronka deu a dica do ótimo texto escrito pelo jornalista musical inglês Dorian Lynksey, onde ele revela o impacto de W. Bush no cancioneiro norte-americano. E o pouco efeito que essas composições tiveram nos Estados Unidos (a reeleição de Bush em 2004 é exemplo dessa ineficácia) . Nesse contexto, ele procura levantar algumas razões do pouco impacto da antes influente canção de protesto nos EUA.

A galera do Guaci traduz alguns trechinhos, mas vale muito mais a pena ler o texto na íntegra.

(…) se você precisa de uma trilha sonora do “já vai tarde” para George W. Bush o que não faltam são gravações. Entre a fala da Dixie Chick Natalie Maines que “tinha vergonha do presidente dos EUA ser do Texas” (em Londres, em 2003) e a declaração feita por Kanye West de que Bush “não se importava com os pretos”  – em um programa beneficente às vítimas do Katrina, em 2005 -,  a taxa de aprovação do então presidente minguou e o que era apenas uma goteira de canções críticas se tornou uma enxurrada. É possível construir um box-set bem decente de músicas anti-Bush – Songs in the Key of W, talvez – que passam de Bright Eyes a Eminem, Pink a Public Enemy, Jay-Z a Elbow. Nem Nixon ou Ronald Reagan atraíram tão consistente ou variada gama de insultos.

(…)

E ainda assim, embora não falem exemplos, não nos parece que tenhamos vivido um boom de músicas de protesto. Um pouco disso se deve ao fato de nenhuma dessas canções estarem inseridas em um movimento cultural mais persuasivo e significante. Mas também é importante observar que só “American Idiot” e a suavemente contra a guerra “Where Is the Love”, do Black Eyed Peas, foram grandes sucessos nos EUA.

Os dois comentários musicais mais significantes sobre a administração Bush não eram canções mas as falas de Natalie Maines e de Kanye West.

Rob Tannenbaum, editor da revista musical americana Blender vê algo significante nisso: “Eles encontraram uma mídia diferente do que colocar uma música no rádio. Não há muita razão para se escrever uma música de protesto uma vez que a [rede gigante de rádios] Clear Channel não vai tocar a música e nem a MTV vai exibir os vídeos. Você precisa de algo mais viral, mais guerrilheiro.  Eu também acho que há um descrédito da canção de protesto tradicional”.

A falta de crédito deve-se, entre outras coisa à fragmentação cultural da era dos computadores. “Se você quisesse atingir pessoas alienadas em 1968, era só colocar uma canção no rádio e elas todos iriam te ouvir na mesma semana. Agora não há uma estação em que todos estão sintonizados e quando eu digo isso não quero dizer só estação de radio, não há nenhuma estação de mídia onde todos estão sintonizados.”

Nesse sentido, acho que fica a pergunta de qual o potencial contracultural da canção popular nos dias de hoje? Por onde ela pode atacar e ter influência como agente de mudança?

Agora o chapéu tá com ele

Agora o chapéu tá com ele

Até onde irá a audácia de Obama?, pergunta a editora da The Nation. Para Katrina Vanden Heuvel, até onde for, também, a pressão dos que o elegeram. No Libération, jornalistas debatem o futuro do governo Obama que, para o Counterpunch, já começou modorrento. E que será da rede que elegeu Obama, agora que ele está na Casa Branca Para Alexander Cockburn, a equipe de governo de Obama já é uma afronta a eles. E será que sua chegada ao salão oval simboliza mesmo a última pá de cal na questão racial para os norte-americanos? No site CartaMaior, textos de Bernardo Kucinsky e Tariq Ali sobre o que esperar do 44º presidente dos Estados Unidos. Na Slate Magazine, um medidor de mudanças que promete acompanhar diariamente o governo Obama. E sugestões para os 100 primeiros dias de governo, na Dissent.

(Esse post é inspirado no site www.bookforum.com, que o Guaciara recomenda.)

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Obama toma posse amanhã. As festas começaram ontem lá no Lincoln Memorial em Washington com um festival cheio de cantores pop e estrelas de Hollywood. Apesar de alguns momentos bonitos – é legal ver o Pete Seeger mandando aquela mensagem pra classe trabalhadora e ouvir que o Stevie Wonder é bom até do lado da Shakira -, no final ficou aquela cara de Grammy/Oscar/Emmy em versão parada militar.

Eu acabei pensando o quanto o brasileiro é diferente do americano. Existe uma série de paralelos entre a eleição do Obama e a eleição do Lula em 2002. Os dois são candidatos com origens bem diferentes do establishment político tradicional, militaram em movimentos populares, ambos venceram com um discurso de esperança, a mobilização da campanha petista e democrata levava em conta a construção de um grande arco de representação política e o envolvimento de uma enorme parcela da sociedade organizada (movimentos sociais, movimento pelos direitos fundamentais, empresários etc.)

As diferenças também são muitas. Obama era uma novidade para o povo americano, veio da militância universitária, calcou sua carreira no parlamento e Lula e o PT foram construindo o nome dele como possibilidade ao longo de anos.

Mas o que importa nesse texto é falar sobre o sentimento de mobilização e pertencimento que ambas as campanhas geraram. E na festa de ontem, que é onde muita gente divide esse sentimento. Assim como Lula em 2002, Obama colocou o eleitor como o centro da mudança.

Mas tem um lance dos eventos populares americanos em que todo mundo fica paradinho vendo as estrelas brilharem que eu acho meio esquisito. Tudo é uma demonstração de poder e de “mostrar a que veio”, isso não vem só de quem está no palco, mas também da platéia e até do telespectador na telinha. O crítico Lorenzo Mammi já havia escrito sobre isso no genial artigo “O projeto Utópico da Bossa Nova” (só pra assinantes).

Ao comparar jazz e bossa nova, ele escreve:

“Deste ponto de vista, a música brasileira fala de uma experiência diferente da dos Estados Unidos, onde a vida particular é sempre uma forma de treino para a vida pública. A peça que os músicos (de jazz)  improvisam depois do concerto é experimento para a próxima apresentação, e até uma canção executada numa festa de aniversário tende a ser apresentada como num show profissional. Um concerto de João Gilberto, ao contrário, mesmo num estádio, mantém algo de uma reunião de apartamento, em que se pede ao convidado uma canção (com o risco, inclusive, de que não cante). (…) Se o jazz é vontade de potência, a bossa nova é promessa de felicidade.”

A comemoração da vitória de Lula também se assemelhava a isso, com a multidão que se acotovelava para abraçar o presidente recém-eleito (como se fosse para dar parabéns a um aniversariante); os empolgadões que tranformavam o espelho d’água do palácio presidencial em piscina; o pessoal que fez a Praça dos Três Poderes de casa ao longo de toda temporada de posse e mais um monte de exemplos. O mais interessante da posse do Lula estava na reação do público com o “momento histórico”, com o local da festa. O mais chamativo, interessante e divertido era a curtição de quem estava lá.

Na festa do Obama (que ainda não foi a posse), a história parece se fazer mais no palco do que na platéia, os eleitores reagem ao que se faz ao lado das cadeirinhas das famílias Obama, Biden e dos convidados. A comemoração no Lincoln Memorial se parecia mais com uma premiação de final de ano. Eu fiquei até esperando alguém aparecer com um envelope e anunciar algum “Melhor qualquer coisa”. Certamente, o frio de Washington em janeiro deve ter algo a ver com a reação comportada.

Quero deixar claro aqui que a idéia não é realizar um concurso da festa de posse mais legal, é sim ressaltar particularidades bastante específicas que falam muito dos dois países pro bem e pro mal.

De resto, depois de oito anos desastrosos a entrada de Barack Obama enche a gente de esperança e deixa feliz todo mundo que acredita em um mundo mais democrático e igualitário. É uma oportunidade excelente de dar adeus ao conservadorismo mais tacanho que nega a ciência, o multilateralismo e qualquer possibilidade de dissenso ao mercado.

Dado o adeus aos lamentáveis neocons, é hora de esperar se o dia seguinte será bom e se o governo americano está preparado a ter uma nova relação com os outros países e com as propostas divergentes de mundo.

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