música


Em 2003, a atriz Lana Clarkson morreu com um tiro na boca, na mansão do lendário Phil Spector, também proprietário da arma que a matou. A opinião de quem acompanhou a história oscila entre certeza da culpa do atribulado e irascível gênio que inventou a figura moderna do produtor musical e a desconfiança de que ele não teve pleno direito à defesa, e que Lana andava profundamente deprimida e com papos de suicídio, sua carreira de estrela de filmes B (trabalhou com Roger Corman, por exemplo) há tempos no retrovisor. Em 2009, Phil foi condenado a 19 anos de prisão.

Vikram Jayanti gravou uma série de conversas com Phil Spector, que intercalou com cenas de seu julgamento. O resultado é Agonia e êxtase de Phil Spector (2009), na íntegra abaixo.

Al Pacino encarnará o próprio em Phil Spector, dirigido por David Mamet, produzido pelo canal HBO e com estreia marcada para este mês. Abaixo o trailer.

Alguns clássicos do malucão:

Para saudar a volta do Guaciara, o Jay  pediu uma lista com os meus cinco melhores livros sobre música. Depois de algumas tentativas e a certeza que estava cometendo várias injustiças, achei melhor reduzir o foco e recomendar apenas livros escritos nesse século, em que a indústria fonográfica passa por sua maior revolução desde que os discos começaram a ser lançados no começo do século XX. Por conta desse encerramento de ciclo que coincidiu com a descentralização e a facilidade do compartilhamento da informação, a historiografia musical trabalha com fontes muito mais variadas, embora eu possa dizer pela minha própria experiência que a internet não representa 1% do material aproveitável numa pesquisa, se descontada , claro, a possibilidade do acesso à música propriamente dita.

 Deixei coletâneas de artigos de fora porque servem mais aos que se interessam especificamente por um determinado autor. Tive que excluir trabalhos excelentes, alguns lançados aqui mesmo  no Brasil para não perder de vista que eram apenas cinco. Qualquer um que se proponha a fazer uma lista está lançando um convite à discordância. Eu mesmo vou discordar possivelmente em alguns meses (dias?). Uma lista que precisa parar nos cinco então é um convite a exasperação (como assim? nenhum Simon Reynolds? Resposta: The Sex Revolts é de 1995). Mas vamos lá em ordem alfabética. E Viva o Guaci:

1. Rob Young. Eletric Eden: Unearthing Britain´s Visionary Music ( Faber&Faber, 2011).

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Escrito por um dos editores da revista Wire, este livro parte da música para  capturar  uma tendência de setores da comunidade artística britânica no final dos anos 1960 que se refletiu nas tensões entre um presente mecanizado e os fantasmas de uma ancestralidade pastoral. Espécie de encarnação de romantismo tardio que contaminou  bandas e jovens compositores (Fairport Convention, Incredible String Band, Nick Drake, Vashty Bunian, etc), arquitetos do casamento do rock com a música tradicional de resultado inquietante e também essencialmente  transgressor em suas aspirações. Em princípio um estudo sobre a música folk, Rob Young cobre um arco muito mais amplo projetando elementos dessa mitologia  na obra de artistas que fundiram sua identidade autoral com novas tecnologias  como Kate Bush, David Sylvian e Mark Hollis, líder do Talk Talk. O livro é exaustivo, às vezes prolixo, mas Young compensa de sobra, por ser não apenas um grande pesquisador, mas um analista de fôlego e verve.

2. Paulo César de Araújo. Eu Não Sou Cachorro Não: Música Popular Cafona e Ditadura Militar (Record, 2002)

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Poucos livros tiveram  um impacto tão decisivo nos estudos da chamada MPB quanto essa minuciosa investigação sobre a música de origem popularesca, o chamado “brega”, durante a ditadura militar.  Araújo não se prende muito a debates estéticos, mas aponta como alguns artistas de origem menos favorecida, dotados de uma técnica rudimentar conseguiam tocar em temas incômodos e tabus que incomodavam a censura tanto quanto qualquer canção de Chico Buarque. Uma de suas contribuições decisivas é tirar dos compositores de classe média a aura de mártires da resistência ao regime.O livro tem sido muito utilizado para validar um certo fetichismo sociológico, mas o certo é que Araújo ergueu uma tese sólida e consistente sobre como os mecanismos de exclusão social se estendem a inclinações estéticas motivadas por divisões de classe.E como a  historiografia da música brasileira obcecada com os pólos de “tradição” e “modernidade, ignora quase tudo que não se ajuste nestas trincheiras.

3. John Leland. Hip: The History (Harper, 2004)

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Embora o hipster tenha ganhado maior proeminência após a Segunda Guerra Mundial, John Leland, repórter do New York Times e ex-colunista da  revista Spin, retrocede sua pesquisa aos primeiros navios negreiros que chegaram à América. Tendo em vista o quanto a Califórnia foi um cenário vital para a contracultura a partir dos anos 1950, chega a surpreender como esse livro descreve uma sensibilidade  libertária  típica da Costa Leste americana. Começa com expoentes da literatura do século XIX  (Melville, Walt Whitman, os transcendentalistas da Nova Inglaterra) e segue com a Renascença do Harlem; os beats na Universidade de Columbia e suas relações com a cena do bebop na Nova York dos anos 1940; os textos de Norman Mailer que construíram a mais  controvertida  interpretação e celebração do hipsterismo, ate chegar ao rock cínico e anfetamínico de Dylan e do Velvet Underground e aos punks do CBGB. Não se trata exatamente de um livro sobre música, nem de uma história ortodoxa, a despeito do título (hip é muito mais fácil de perceber do que definir), mas me impressiona  a maneira de Leland unificar os pontos mostrando como esses atores, em conflito direto com culturas dominantes,  foram além da estética para interferir na própria fábrica social, redefinindo  linguagem,comportamento e sexualidade. Sua visão sobre o que significa ser hipster hoje é bem menos generosa.

4. Peter Shapiro. Turn The Beat Around: The Secret history of Disco (Faber & Faber, 2005)

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Um dos grandes méritos do livro de Peter Shapiro é capturar o zeitgeist novaiorquino do começo dos anos 1970 quando a dança, varrida do mapa pelo intelectualismo do rock psicodélico, foi trazido de volta como a melhor tradução de uma cidade que vivia tempos babilônicos de caos urbanos, apagões, lixo nas ruas, criminalidade galopante. A Nova York do movimento gay em ascensão, subculturas que proliferavam em limites geográficos estreitos e de  minorias étnicas cada vez mais economicamente ativas. Foi nesse cenário que se forjou um dos capítulos mais fascinantes da cultura pop, tanto nas ascensão fulgurante quanto na decadência que trouxe a tona sentimentos latentes de homofobia e racismo na sociedade americana e entre veteranos do rock sessentista. Particularmente saborosa é a narrativa sobre a gênese de Saturday Night Fever, o momento em que a disco music  virou fenômeno de massas: um jornalista inglês que não tinha nenhum contato em Nova York fabricou uma historia fictícia sobre jovens da classe operária do Brooklin baseado unicamente  em suas referencias sobre o estilo de vida dos mods londrinos. Apenas a enésima comprovação que em cultura de massas até os fios aparentemente mais desconexos se interligam.

5. Mike Marqusee. Wicked Messenger: Bob Dylan and The 1960s (Seven Stories Press, 2003)

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São muitos os livros disponíveis sobre a vida e obra de Bob Dylan, mas se tivesse que destacar só um ficaria com esse, escrito por um americano radicado em Londres, judeu, militante anti-sionista, também autor de outro ótimo trabalho sobre Muhamad Ali. Não se trata de um ensaio apenas sobre a obra de Dylan no período, mas sobre como ela dialogou com os embates políticos e culturais da Nova Esquerda nos anos 1960, sua complicada relação de engajamento e posterior afastamento do movimentos pelos direitos civis, e paralelos pertinentes com outros contemporâneos como Frank Zappa. Em função desse principio norteador, algumas das passagens mais instigantes abordam projetos em que  o compositor se envolveu muito anos depois, como uma reflexão tardia sobre o quebra cabeças estilístico de sua obra: o infelizmente fracassado filme “A Máscara do Anonimato” no qual Dylan interpretava a si mesmo na pele de outro personagem e sua heterodoxa autobiografia. Marqusee  estabelece uma comparação certeira de um trecho de “Cronicas” com  outro de “Bound For Glory” de Woody Guthrie- o livro que foi o fator fundamental na sua decisão de largar a Universidade para mergulhar numa carreira que redefiniu os rumos da música popular.

*Rodrigo Merheb é autor de O som da revolução (Record, 2012), livro que encabeça a lista deste blog de melhores livros recentes sobre música. O trabalho recebeu o prêmio de melhor ensaio/crítica da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) em 2012.

No geral ele tá certo…

What on Earth are you doing, God?
Is this some sort of joke you’re playing?
Is it ’cause we didn’t pray?
Well I can’t see the point of the word without the action
Are you just hot air, breathing over us and over all?
Is it fun watching us all?
Where’s your son? We want him again!

And next time you send your boy down here
Give him a wife and a sexy daughter
Someone we can understand
Who’s got some ideas we can use, really relate to
We’ve all read your rules, tried them
Learnt them in school, then tried them
They’re impossible rules
And you’ve made us look fools
Well done, God, but now please…

Don’t hunt me down, for Heaven’s sake!
You know that I’m only joking, aren’t I?
Pardon me, I’m very drunk!
But I know what I’m trying to say
And it’s nearly night time
And we’re still alone
Waiting for something unknown, still waiting
So throw down a stone, or something
Give us a sign, for Christ’s sake!

E já que a pauta é a Yoani, mais uma prova de que debate com a CIA no meio é sempre bem melhor:

The Fugs – CIA Man

Who can kill a general in his bed?
Overthrow dictators if they’re red?
Fucking-a man!

CIA Man!

Who can buy a government so cheap?
Change a cabinet without a squeak.
Fucking-a man!
CIA Man!

Who can train guerillas by the dozens?
Send them out to kill their untrained cousins?
Fucking-a man!
CIA Man!

Who can get a budget that’s so great?
Who will be the 51st state?
Who has got the secrets as Service?
The one that makes the other service nervous?
Fucking-a man!
CIA Man!

Who can take the sugar from it’s sack,
Pour in LSD and put it back?
Fucking-a man!
CIA Man!

Who can mine the harbors a’ Nicaragua?
Out hit all the hitman of Chicagua.
Fucking-a man!
CIA Man!

Who can be so overtly covert?
Sometimes even covertly overt.
Fucking-a man!
CIA Man!

Whos the agency well known to God?
The one that copped his staff and copped his rod?
Fucking-a man!
CIA Man!
Fucking-a man!
CIA Man!
Fucking-a man!
CIA Man!
CIA Man!
CIA Man!
CIA Man!
CIA Man!
CIA Man!
C
I
A

Eu ouvi demais esse disco em 2011-2012. Já tinha pirado com Sighs trapped by liars, de 2007, disco da mesma parceria entre Mayo Thompson e o grupo de arte conceitual anglo-americano, mas essa sequência de retratos musicais de uma lista idiossincrática de figuras icônicas norte-americanas  - Wile E. Coyote, George W. Bush, Jimmy Carter, John Wayne e Ad Reinhardt – grudou na cabeça. Abaixo a íntegra do disco.

Trumans Water, para mim, já foi a coisa mais intensa do mundo. De certa forma, continua sendo…

O contato com a música de Stockhausen modificou muito a composição de Anthony Braxton.

O compositor, saxofonista e improvisador chega a dizer que a influência do inovador alemão foi existencial e o levou a radicalizar a sua música pra caminhos diferentes de outros precursores do free jazz. Achei um depoimento do gênio falando sobre sua composição favorita.

As variações e a sintaxe de fato têm muito a ver com a música de Braxton. É muito interessante as relações que ele faz com o ritmo e sobretudo as variações de andamento.

Aqui vai tudo junto.

Cada dia me interesso em quem faz da música algo tão sério quanto a própria vida e sabe que o ato de tocar pode ser confundido com o próprio viver. O Joe McPhee é um desses caras.

Recomendado pra quem ainda acha que as discussões sobre distribuição e impacto mercadológico a são menos importantes que a criação.

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