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Fábio Júnior é bola no filó

Já falei no ano passado sobre a alegria de ser torcedor do América mineiro em duas ocasiões (aqui e aqui). Na época começávamos a voltar de uma ressaca que abalou o time por longos nove anos.  Em 2001, nós fomos apeados da elite do futebol brasileiro pelo Palmeiras comandado pelo Luís Felipe Scolari. Daí em diante, o torcedor desse time viveu uma ladeira abaixo sem precedentes nos seus 98 anos de história.

Em 2004 , caímos para terceira divisão (que até então o time desconhecia) e quatro anos depois por pouco a gente não escapa de cair pra recém fundada série D. A humilhação poderia ser pior – e foi. No mesmo ano, o meu time de coração caiu para o módulo II  do Campeonato Mineiro.

Comecei a acreditar piamente que torcia para um time moribundo. Mas eis que da maior desgraça de nossas vidas uma torcida que vestia pijama e que não se importava com a expressão local do time mudou completamente de expressão. Começou a tratar o Coelho como ele merece, um time de tradição e com a torcida mais legal do mundo.

E a torcida pequena que tem na mania de ir pro Independência curtir com o time de camisa verde, branca e preta fez o América em três anos volta pra elite do futebol brasileiro. Mesmo sem contarmos com nosso campo (que está em reformas).

A classificação foi sofrida até o fim. E até os 47 minutos e trinta segundos do segundo tempo contra a Ponte Preta tudo podia acontecer. O jogo aconteceu em Campinas e eu acompanhei pela televisão roendo as unhas, ligando pro meu pai e tendo flashbacks de vários piores momentos que eu já vivi com o Coelhão. Mas o time de Flávio, Otávio, Preto, Micão, Gabriel, Shelson, Dudu, Irênio, Euller , Leandro Ferreira, Helton Luiz, Marcos Rocha, Thiago Silvy, Rodrigo, Nando, Fábio Júnior – que foi brilhante – e muito mais, segurou um dos seus jogos mais tensos do campeonato – a Ponte Preta jogava com a posibilidade de estímulo de quase R$ 500 mil oferecido pelo time dos padeiros paulistanos – e voltou pra série A.

Coelhão de primeira

Gritei muito na sala do Guaciara, assim como o pessoal das fotos em cima e do vídeo embaixo. E a vitória marcou um ano muito especial de aflições, torcidas, emoções fortes e mudanças para melhor (nesse final de semana ainda assisti dois shows do Ornette Coleman com momentos que me deixaram arrepiado de emoção). Nos comentários, a gente fala mais da campanha do Coelhão.

Agora é tentar segurar o Mauro Fernandes no comando do time e manter a cabeça da diretoria. No ano passado, disseram que o Coelho não tinha time pra subir na segundona e o Coelho subiu, mesmo com o baque da saída do Givanildo. Nesse ano, já tem colunista esportivo soltando a mesma groselha (apesar das exceções). O Coelhão tem obrigação de desmentir esse pessoal.

E a série A do campeonato brasileiro que se prepare, vai voltar a ser mais legal do que nunca (com Coelho, mas também com o Bahea, que eu aprendi a gostar ainda mais ao longo da Série B).

Cena de "The Cool World", de Shirley Clarke

Começa amanhã e vai até o dia 28 de novembro em BH, o evento de cinema em que eu mais aprendi na vida, o forumdoc.bh. Neste ano, são 145 filmes em 18 dias sem dar refresco para o comodismo e com filmes raramente exibidos no assim chamado circuito de arte brasileiro.

Apesar de também se chamar Festival do Filme Documentário e Etnográfico de Belo Horizonte e ter ganhado prestígio por isso em suas 14 heróicas edições consecutivas, o forumdoc é acima de tudo um festival de investigações visuais sobre a sociedade, com uma programação sempre relevante e reveladora. Por causa disso, os catálogos da mostra (a últma versão está disponível na Bibliotoca Telê Santana) tornaram-se publicações importantes para quem se interessa por cinema, antropologia, artes etc. Além disso, é necessariamente organizado por um grupo de verdadeiros aficionados pelo que assistem e é um dos eventos mais legais, divertidos e interessantes que eu já participei.

O Guaciara irá publicar outros artigos sobre as mostras que acontecem na Sala Humberto Mauro e na UFMG até o dia 28/11. Para começar, publicamos o artigo sobre a Direto.doc, maior mostra sobre o cinema-direto norte-americano já realizada no Brasil, com cineastas como Fredrick Wiseman, Ed Pincus, Pierre Perrault, Michel Brault, Robert Drew, Richard Leacock, D.A Pennebaker, e irmãos Maysles.

No dia 20 de novembro, no Cine Humberto Mauro,  Ed Pincus, João Moreira Salles, Ruben Caixeta de Queiroz e Paulo Maia debatem as obras exibidas na mostra.

No texto abaixo o curador da mostra direto.doc, nosso amigo de fé e descontração Paulo Maia (que também é etnólogo e professor do Departamento de Ciências Aplicadas à Educação – Faculdade de Educação / UFMG), fala um pouco sobre a mudança de perspectiva do cinema direto que citando a falsa analogia entre cores  formulada por Jean-Jacques Rousseau em seu famoso Ensaio sobre as origens das línguas: “sem saber pintar para as orelhas, decidiu-se cantar para os olhos”.

Como Paulo conclui: “o cinema-direto coloca o ouvido no lugar do olhar”. O texto, publicado no catálogo do  forumdoc.bh.2010, é imperdível ( e o pessoal do Guaciara inseriu cenas de alguns filmes comentados) e garanto que muita gente vai querer passar dias enfurnado na Sala Humberto Mauro depois dele para ver, escutar e pensar o mundo na frente da tela de cinema. Vale a pena ler até o final.

Salve o direto!1

Paulo Maia2

A perspectiva dominante nas mais diferentes vertentes do documentário é aquela que admite que o cinema se difere de antemão do real e que postula função do documentário capturar a realidade. O efeito de filmar, segundo essa vertente, é o de capturar o real na forma de sons e imagens, a mediação da câmera e do gravador (e do operador), sincrônicos ou não, tende a ser mascarada, em favor de um estilo-técnico-utópico que, como sugere João Moreira Salles de modo arguto, deseja representar um mundo sem consciência de estar sendo filmado.

Essa é, aliás, a impressão, sob suspeita, que temos a respeito de uma filmografia, convencionalmente chamada de cinema-direto norte-americano. O forumdoc.bh.2010 tem a ousadia de arranjar sob a alcunha de direto.doc uma mostra inteiramente dedicada a apresentar e discutir parte da filmografia de uma dezena de realizadores dos Estados Unidos e do Quebéc, que de formas diversas, associadas ou dissociadas, durante os anos 1960, souberam levar a cabo o sonho de através de uma nova técnica, nova possibilidade, potencializar o cinema em direção ao projeto naif, diriam os críticos mais severos, de filmar na duração, som e imagem sincrônicos, os mundos e as pessoas reais.

Um dos desejos da curadoria dessa mostra é o de superar visões totalizantes sobre essa filmografia, vez que os mais de 50 filmes apresentados, nem todos normalmente dependurados sob o guardachuva do cinema-direto, denotam modos criativos e heterogêneos, mantendo a hipótese de um espectador ativo e um cinema que, mais que representa, cria um mundo consciente de que está sendo filmado.

O elemento contumaz, a linha de fuga desse cinema, é menos a imagem, e mais o som, sobretudo o som direto e sincrônico à imagem: eis a nova técnica a serviço do homem. A diferença original entre filmar (imagem, cor) as pessoas, os animais, as plantas e os objetos em um espaço e gravar-lhes o som tende a ser reformulada na medida em que o som “filmado” é linkado, i.e., sincronizado às imagens e o regime da claquete/palma torna-se padrão. Curioso retorno à falsa analogia entre cores e sons tal como formulada por Jean-Jacques Rousseau em seu famoso Ensaio sobre as origens das línguas: “sem saber pintar para as orelhas, decidiu-se cantar para os olhos”. O cinema-direto coloca o ouvido no lugar do olhar.

Les Raquetteurs (1958), de Michel Brault e Gilles Grouxl, é considerado um precursor do direto, filme experimental e de passagem – assim como La Lutte (1961) – em direção ao som direto, sincrônico às imagens. Apesar de ter levado a fama de ícone gerativo do direto – considerando o efeito que viera a causar a   Rouch anos depois –, é o próprio Michel Brault, em entrevista, quem adverte que, ao pé da letra, Les Raquetteurs tem pouco de direto, na medida em que não são muitos os momentos do filme em que o som é sincrônico. Filmada em 35 mm, a produção não pôde contar com uma câmera leve e silenciosa. Nessa fase de transição, o cinema quebequense ainda estava lidando com limitações tecnológicas relacionadas à câmera – sobretudo o barulho acentuado das de 35 mm e das primeiras câmeras portáteis em 16mm que interferiam na captação do som –, e os gravadores de áudio, pesados demais, além da dificuldade inicial em sincronizar, ainda que a posteriori, o som e suas imagens. Foi certamente o silêncio das câmeras portáteis que permitiu que o cinema falasse.

A história do cinema-direto narra o engajamento gradual em uma nova dimensão sonora, dona das imagens, que passa a ter o mesmo peso ontológico que estas últimas no cinema. Nos filmes de Pierre Perrault, por exemplo, a relação imagem e som é utilizada de forma bem peculiar. A imagem em alguns momentos simplesmente ilustra uma cena sonora. Um exemplo: Perrault recorda que certa vez havia gravado em seu famoso magnetofone uma história contada por “Le Grand-Louis” a respeito de um galo que lhe intrigou imensamente. Era fantástica, contudo, “pas des image!”. O jeito, confessou, foi a posteriori arranjar imagens não filmadas durante o momento em que o velho narrava a história, capturadas exclusivamente para ilustrar a história contada por Grand-Louis, um homem do povo. No Canadá, o direto corria na corrente contrária às peças de rádio, rompera com a linguagem formal e artificiosa das representações ordinárias, em favor de levar para a tela de cinema o povo quebequense, pois o verdadeiro, diríamos, não é um ser imaginado e roteirizado de forma a encarar uma personagempadrão, mas como nos diz Marcel Mauss, o verdadeiro é o melanésio de tal ou tal ilha, é Roma, é Atenas. Verdadeiro, nos termos desse cinema, é a fala de Alexis, Marie e Leopoldo da Île-aux-Coudres no magistral Pour la suite du monde (1962). Um bom filme de cinema direto é aquele que sabe escutar e dar palavra a toda gente, como sugere Nísio Teixeira em ensaio para este catálogo. Novo cinema, nova nação.

A mostra direto.doc está dividida em duas ou três vertentes do cinema-direto norte-americano dos anos 1960. A americana, propriamente dita, teve em Robert Drew e naqueles realizadores que se reuniram em torno dele sua expressão mais emblemática. Primary (1960) foi realizado por ele e pelo coletivo Drew Associates, cujos parceiros mais conhecidos eram Robert Leacock (grande fotógrafo que em 1948 já filmara com Robert Flaherty sua última obra, Louisiana history), os irmãos Albert e David Maysles (famosos por terem filmado juntos um dos maiores documentários do rock, Gimme Shelter, que narra de forma dramática a tragédia no concerto dos Stones em dezembro de 1969 em Almont) e D.A. Pennebaker (que imortalizou as imagens de outra estrela do rock, jovem, charmoso e, por vezes, arrogante: o lendário Bob Dylan, no conhecido Dont look back (1967), focado em uma turnê pela Inglaterra dos anos sessenta).

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Quando chegamos do bar do Alemão, todo mundo se meteu no elevador e foi ver como terminariam os jogos. O Israel vinha confiante,  2 a 0 no primeiro tempo não garantia a vitória mas já despertava aquela coceira na mão de partir para as quartas de final da Libertadores da América. Os tropeços de primeiro semestre do ano do centenário não pareciam mais sinais de mau agouro. Agora era esperar acabar o segundo tempo sem nenhum susto. O Leandro, torcedor do Bahia, achava graça, todo estóico diante daquela ansiedade.

Antes de o elevador deixar o primeiro da turma, os flameguistas já comemoravam o gol do Vagner Love.

O Israel foi o último a aparecer para o almoço no dia seguinte. O Idelber apareceu cedo, mas nem falou no terceiro gol do Santos. Passou a manhã lendo o livro do Zé Paulo (que deixou a gente mais cedo, na noite anterior, depois de um tímido lamento de palmeirense doente que não quer nem mais saber de futebol, nunca mais, nunca mais mesmo), sobre a democracia corintiana, o que meio que equilibrava as coisas. Campeonato tem todo ano.

O Rodrigo aprontou um negócio incrível aqui em Curitiba, junto com a Celise e o pessoal todo do SESC Paraná. E eu não fui o único a dizer – mas eu, para falar de futebol? O Idelber, que esqueceu mais sobre futebol do que eu jamais vou saber, também não entendeu o convite no começo. Acho que essa reação só confirmou a sacada do Rodrigo: futebol, como diria o Aristóteles, se diz de muitas maneiras. Larga um microfone na mão de um pessoal que, quando não tem microfone, quase não fala de outra coisa, que com certeza algum papo bom sobre bola aparece. Eu estava na primeira mesa e, tirando a minha participação, que não vi por causa das luzes e do nervosismo, foi uma noite memorável.

A ideia era discutir futebol, as eleições, copa do mundo, política. O Israel tomou conta da mesa, que era o Leandro Fortes, o José Paulo Florenzano e eu. O Leandro explicou por que o jornalismo esportivo e o jornalismo político são tão ruins no Brasil: a passividade profissional, a falta de preparo e o mau gosto assombram as duas áreas. O José Paulo, que carrega na cabeça todo o universo do futebol brasileiro sob a ditadura, lembrou que a cooptação da seleção de 1970 foi apenas mais um ato de arbitrariedade e violência do regime militar: as práticas de liberdade da delegação brasileira espelhavam e reforçavam um movimento subterrâneo idêntico ao de muitos setores da sociedade brasileira, e que culminou com a seleção de 82, numa derrota tão sublime quanto a do movimento das Diretas Já – que não por acaso carregou como símbolo a mesma camisa amarela, o traje de celebração da liberdade e da alegria oficial do país. Eu tentei reclamar da Copa do Mundo como megaevento privado, danoso e contrário à condução democrática do desenvolvimento das cidades.

O encontro ainda segue, hoje e amanhã. A platéia estava cheia de pessoas interessadíssimas, e interessantes: estudantes de jornalismo, jornalistas, escritores, curiosos. Hoje sentam para conversar sobre arte e profissionalismo na era da imagem, sob a batuta do Lauro Mesquita, Francisco Bosco e André Mendes Capraro. Amanhã, depois da mesa sobre a democracia corintiana, a seleção brasileira e a abertura política, com Idelber Avelar, Marcos Guterman e Sócrates Brasileiro Sampaio de Oliveira, o Dr. Sócrates (sob os cuidados do Rodrigo Merheb), José Miguel Wisnik e Sócrates vão arriscar umas músicas sobre futebol. Eu trouxe uma camisa do São Paulo para ver se o Sócrates leva pro Raí assinar.

Hoje chegou um flamenguista, um santista e um dos dois torcedores do América MG da redação do Guaciara.  O Rodrigo foi cuidadoso o suficiente para garantir a representação plural da sociedade brasileira no evento.

Está sendo duca. Quem está em Curitiba e não veio precisa vir. O serviço está no post logo aí embaixo.

Com pança e tudo até o gol!

Emoção das emoções, graças ao nosso amigo de fé, irmão camarada Rodrigo Merheb, o Guaciara participa de seu primeiro evento, o Agenda 2010 – Futebol e Política, que acontece no Paço da Liberdade –  SESC Paraná. O seminário leva um monte de gente muito interessante para falar sobre  futebol e eleições em 2010.

Como mostra a foto aí do lado, nem sempre as duas coisas transcorrem com tanta fluidez, mas são temas que tocam a vida de todo mundo e que dizem muito respeito sobre o que acontece no Brasil.

Infelizmente o Tiago não vai poder participar or causa de outros compromissos profissionais, mas eu, Jay e o próprio Rodrigo – que organizou tudo – estaremos representando o bate papo moleque dos meninos do Gua Gua.

Eu e o Joaquim estaremos lá ao lado de grandes mestres dos dois assuntos como Sócrates, Idelber Avelar, Leandro Fortes, Israel do Vale, José Miguel Wisnik e mais uma rapa muito da boa. O evento certamente vai ser animado e pra vocês entenderem melhor copio o texto do Rodrigo sobre o assunto.

Futebol e Política: Recortes do jogo que nunca termina

*Por Rodrigo Merheb

A cada quatro anos, dois eventos mobilizam as atenções do país num jogo de informações que monopolizam debates e expectativas.  A coincidência de datas que separa  em apenas três meses Copa do Mundo e eleições presidenciais é uma tradição recente.  Antes de 1994, havia ocorrido apenas duas vezes, em 1930 em plena agonia da República Velha, e em 1950, quando o Brasil perdeu o mundial para o Uruguai dentro do Maracanã e Getulio Vargas foi reconduzido pelo voto à presidência da república, cinco anos após o fim do Estado Novo. Ditadura, deposições e mudanças constitucionais adiaram a proximidades dessas duas celebrações democráticas para 44 anos depois.
Essa convergência no calendário acontece sob o amparo  de fatos cruciais do nosso tempo, tanto na esfera  política  quanto esportiva. PSDB e PT firmaram uma polarização ideológica que hoje domina o quadro eleitoral; o Brasil emergiu como um coadjuvante de peso no cenário mundial, a princípio por causa da estabilidade econômica e posteriormente pelas políticas sociais e o trânsito internacional do Presidente Lula.  A seleção também viveu um momento auspicioso com a retomada de um ciclo de conquistas pelos pés de jogadores que se projetavam como estrelas no novo contexto do futebol globalizado. E se a globalização delimitou o papel do futebol brasileiro como exportador de matéria prima para as grandes competições esportivas européias, nossa economia de terceiro mundo também enxergou apenas de longe os benefícios da nova ordem.

Existe também uma certa simetria simbólica entre Copa do Mundo e eleições que se estende à própria dinâmica de disputa. Ambas funcionam como representação da finitude de um processo, encerramento e inicio de um ciclo cujos rumos serão definidos pelo resultado das duas competições. A disputa presidencial e dos demais cargos num pleito eleitoral replicam os embates emocionais de um jogo com estratégias, dramas e, por fim, o confronto direto nos debates. Impedidos de decretarem vitória, os protagonistas transferem para o público a responsabilidade da decisão, o que, paradoxalmente, confere ao ritual o mesmo grau de imprevisibilidade de uma partida. Não basta jogar melhor, é preciso que a vitória não esbarre numa das inúmeras variáveis entre o meio campo e o gol, entre o discurso e a urna. Para além das analogias possíveis sobre os sistemas internos de cada competição, são muitos os precedentes históricos de apropriações mútuas entre futebol e política. Não surpreende que governantes tenham percebido no fenômeno popular um filtro acessível de comunicação com as massas.  Essa prática sempre existiu, mas foi elevada ao status de política de Estado durante a ditadura militar, desde as tentativas do Presidente Médici de capitalizar o sucesso dos campeões de 70 até o desenvolvimento de um controle metódico sobre a seleção brasileira, cuja face mais visível foi sua crescente militarização. O auge desse processo ocorreu durante a copa de 78, disputada em solo argentino onde também prosperava um violento regime de exceção, quando o comandante da CBD (Confederação Brasileira de Desportos) tinha patente de almirante e o treinador da seleção era um capitão do exército.

Em contrapartida, quando veio o momento da desconstrução das práticas e do discurso que davam sobrevida à ditadura, o futebol se credenciou como uma das principais frentes de interpretação da ansiedade coletiva. Foi num jogo Corinthians e Santos que se estendeu a primeira faixa pela anistia ampla, geral e irrestrita num espaço público. Pouco antes da Copa da Argentina em entrevista ao jornal Movimento, o centroavante Reinaldo se juntou ao coro de figuras públicas que pediam a restauração da democracia. Em paralelo ao movimento dos metalúrgicos no ABC, o Corinthians, o grande clube de massas da capital industrial do país, iniciava um experimento de organização inédito não apenas no futebol, mas no próprio modelo vigente de relações trabalhistas no Brasil. Seus principais líderes passaram a trabalhar ativamente contra os arcaicos vínculos empregatícios mantidos pelos clubes enquanto se expunham em intervenções públicas que contribuíram para a cristalização de um consenso sobre o esgotamento do regime militar.

Esse seminário vai se movimentar por um conjunto de referências históricas para tentar decifrar algo da conjuntura atual do futebol e da política brasileira, naquela zona cinzenta onde estes dois temas se enredam e também nas suas peculiaridades. As possibilidades estão abertas e os debates também.

Rodrigo Merheb

(jornalista, curador do projeto Agenda 2010: Futebol e Política)

E clique aqui em baixo para conhecer a programação completa:

(mais…)

A ansiosidade, como diria o Casagrande, é muita: já já vou danado pra Piei, com vontade de chegar:

Grândola Vila Morena
Zeca Afonso

Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade

Dentro de ti, ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena

Em cada esquina um amigo
Em cada rosto igualdade
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade

Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada rosto igualdade
O povo é quem mais ordena

À sombra d’uma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola a tua vontade

Grândola a tua vontade
Jurei ter por companheira
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade”

 

Deixamos passar batido, mas ontem a Revolução dos Cravos comemorou 35 anos. O movimento foi o resultado da luta dos portugueses contra a ditadura salazarista, que durava no país desde 1926.

Também foi um passo para o fim da guerra colonial, que resultou na independência das colônias portuguesas na África: Angola, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Moçambique, e Guiné Bissau.

A música que vocês escutam aí em cima é a belíssima  Grândola, Vila Morena, de Zeca Afonso.  A canção era proibida pela ditadura Salazarista e foi a senha para estourar a Revolução dos Cravos. A partir da meia noite, uma emissora católica de Lisboa, a Rádio Renascença, começou a tocar a canção. 

E os comandados do Capitão Salgueiro Maia deram início ao último grande movimento de esquerda revolucionária da Europa Ocidental. Hoje há muito questionamento a respeito do que aconteceu depois da Revolução – em O Filho Eterno, de Cristóvão Tezza,a Portugal paralisada pós Revolução é um dos panos de fundo –  mas com certeza é uma data a se lembrar.

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