Para saudar a volta do Guaciara, o Jay pediu uma lista com os meus cinco melhores livros sobre música. Depois de algumas tentativas e a certeza que estava cometendo várias injustiças, achei melhor reduzir o foco e recomendar apenas livros escritos nesse século, em que a indústria fonográfica passa por sua maior revolução desde que os discos começaram a ser lançados no começo do século XX. Por conta desse encerramento de ciclo que coincidiu com a descentralização e a facilidade do compartilhamento da informação, a historiografia musical trabalha com fontes muito mais variadas, embora eu possa dizer pela minha própria experiência que a internet não representa 1% do material aproveitável numa pesquisa, se descontada , claro, a possibilidade do acesso à música propriamente dita.
Deixei coletâneas de artigos de fora porque servem mais aos que se interessam especificamente por um determinado autor. Tive que excluir trabalhos excelentes, alguns lançados aqui mesmo no Brasil para não perder de vista que eram apenas cinco. Qualquer um que se proponha a fazer uma lista está lançando um convite à discordância. Eu mesmo vou discordar possivelmente em alguns meses (dias?). Uma lista que precisa parar nos cinco então é um convite a exasperação (como assim? nenhum Simon Reynolds? Resposta: The Sex Revolts é de 1995). Mas vamos lá em ordem alfabética. E Viva o Guaci:
1. Rob Young. Eletric Eden: Unearthing Britain´s Visionary Music ( Faber&Faber, 2011).
Escrito por um dos editores da revista Wire, este livro parte da música para capturar uma tendência de setores da comunidade artística britânica no final dos anos 1960 que se refletiu nas tensões entre um presente mecanizado e os fantasmas de uma ancestralidade pastoral. Espécie de encarnação de romantismo tardio que contaminou bandas e jovens compositores (Fairport Convention, Incredible String Band, Nick Drake, Vashty Bunian, etc), arquitetos do casamento do rock com a música tradicional de resultado inquietante e também essencialmente transgressor em suas aspirações. Em princípio um estudo sobre a música folk, Rob Young cobre um arco muito mais amplo projetando elementos dessa mitologia na obra de artistas que fundiram sua identidade autoral com novas tecnologias como Kate Bush, David Sylvian e Mark Hollis, líder do Talk Talk. O livro é exaustivo, às vezes prolixo, mas Young compensa de sobra, por ser não apenas um grande pesquisador, mas um analista de fôlego e verve.
2. Paulo César de Araújo. Eu Não Sou Cachorro Não: Música Popular Cafona e Ditadura Militar (Record, 2002)
Poucos livros tiveram um impacto tão decisivo nos estudos da chamada MPB quanto essa minuciosa investigação sobre a música de origem popularesca, o chamado “brega”, durante a ditadura militar. Araújo não se prende muito a debates estéticos, mas aponta como alguns artistas de origem menos favorecida, dotados de uma técnica rudimentar conseguiam tocar em temas incômodos e tabus que incomodavam a censura tanto quanto qualquer canção de Chico Buarque. Uma de suas contribuições decisivas é tirar dos compositores de classe média a aura de mártires da resistência ao regime.O livro tem sido muito utilizado para validar um certo fetichismo sociológico, mas o certo é que Araújo ergueu uma tese sólida e consistente sobre como os mecanismos de exclusão social se estendem a inclinações estéticas motivadas por divisões de classe.E como a historiografia da música brasileira obcecada com os pólos de “tradição” e “modernidade, ignora quase tudo que não se ajuste nestas trincheiras.
3. John Leland. Hip: The History (Harper, 2004)
Embora o hipster tenha ganhado maior proeminência após a Segunda Guerra Mundial, John Leland, repórter do New York Times e ex-colunista da revista Spin, retrocede sua pesquisa aos primeiros navios negreiros que chegaram à América. Tendo em vista o quanto a Califórnia foi um cenário vital para a contracultura a partir dos anos 1950, chega a surpreender como esse livro descreve uma sensibilidade libertária típica da Costa Leste americana. Começa com expoentes da literatura do século XIX (Melville, Walt Whitman, os transcendentalistas da Nova Inglaterra) e segue com a Renascença do Harlem; os beats na Universidade de Columbia e suas relações com a cena do bebop na Nova York dos anos 1940; os textos de Norman Mailer que construíram a mais controvertida interpretação e celebração do hipsterismo, ate chegar ao rock cínico e anfetamínico de Dylan e do Velvet Underground e aos punks do CBGB. Não se trata exatamente de um livro sobre música, nem de uma história ortodoxa, a despeito do título (hip é muito mais fácil de perceber do que definir), mas me impressiona a maneira de Leland unificar os pontos mostrando como esses atores, em conflito direto com culturas dominantes, foram além da estética para interferir na própria fábrica social, redefinindo linguagem,comportamento e sexualidade. Sua visão sobre o que significa ser hipster hoje é bem menos generosa.
4. Peter Shapiro. Turn The Beat Around: The Secret history of Disco (Faber & Faber, 2005)
Um dos grandes méritos do livro de Peter Shapiro é capturar o zeitgeist novaiorquino do começo dos anos 1970 quando a dança, varrida do mapa pelo intelectualismo do rock psicodélico, foi trazido de volta como a melhor tradução de uma cidade que vivia tempos babilônicos de caos urbanos, apagões, lixo nas ruas, criminalidade galopante. A Nova York do movimento gay em ascensão, subculturas que proliferavam em limites geográficos estreitos e de minorias étnicas cada vez mais economicamente ativas. Foi nesse cenário que se forjou um dos capítulos mais fascinantes da cultura pop, tanto nas ascensão fulgurante quanto na decadência que trouxe a tona sentimentos latentes de homofobia e racismo na sociedade americana e entre veteranos do rock sessentista. Particularmente saborosa é a narrativa sobre a gênese de Saturday Night Fever, o momento em que a disco music virou fenômeno de massas: um jornalista inglês que não tinha nenhum contato em Nova York fabricou uma historia fictícia sobre jovens da classe operária do Brooklin baseado unicamente em suas referencias sobre o estilo de vida dos mods londrinos. Apenas a enésima comprovação que em cultura de massas até os fios aparentemente mais desconexos se interligam.
5. Mike Marqusee. Wicked Messenger: Bob Dylan and The 1960s (Seven Stories Press, 2003)
São muitos os livros disponíveis sobre a vida e obra de Bob Dylan, mas se tivesse que destacar só um ficaria com esse, escrito por um americano radicado em Londres, judeu, militante anti-sionista, também autor de outro ótimo trabalho sobre Muhamad Ali. Não se trata de um ensaio apenas sobre a obra de Dylan no período, mas sobre como ela dialogou com os embates políticos e culturais da Nova Esquerda nos anos 1960, sua complicada relação de engajamento e posterior afastamento do movimentos pelos direitos civis, e paralelos pertinentes com outros contemporâneos como Frank Zappa. Em função desse principio norteador, algumas das passagens mais instigantes abordam projetos em que o compositor se envolveu muito anos depois, como uma reflexão tardia sobre o quebra cabeças estilístico de sua obra: o infelizmente fracassado filme “A Máscara do Anonimato” no qual Dylan interpretava a si mesmo na pele de outro personagem e sua heterodoxa autobiografia. Marqusee estabelece uma comparação certeira de um trecho de “Cronicas” com outro de “Bound For Glory” de Woody Guthrie- o livro que foi o fator fundamental na sua decisão de largar a Universidade para mergulhar numa carreira que redefiniu os rumos da música popular.
*Rodrigo Merheb é autor de O som da revolução (Record, 2012), livro que encabeça a lista deste blog de melhores livros recentes sobre música. O trabalho recebeu o prêmio de melhor ensaio/crítica da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) em 2012.





















