Artes


Este é um texto modesto que eu fiz para a +Soma na ocasião da exposição do Caravaggio no Masp. Não tem grandes ambições, mas espero que ajude alguém.

Em 1592, com pouco mais de vinte anos, Michelangelo Merisi chegou em Roma com uma mão na frente e outra atrás. Poucos diriam que aquele rebelde, profano e violento, conhecido como Caravaggio, se tornaria um dos artistas de maior prestígio junto ao clero e a corte dos Estados do Papa.

A vida dele já daria um romance trágico. Viveu literalmente entre a cruz e a espada. Era devoto, mas bissexual, boêmio e extremamente violento. Assassinou um homem, teve malária, participou de brigas sangrentas. Além disso, na última década de sua existência, viveu como um fugitivo. Mas, foi ele que transformou o gosto e o modo de traduzir visualmente a religiosidade católica entre o século XVI e o século XVII.

caravaggio pedro

Michelangelo Merisi da Caravaggio (1571 – 1610)Crucificação de São Pedro (1600)

No período, a arte romana ainda se orgulhava dos feitos dos artistas conhecidos maneiristas como Jacopo Pontormo e Rosso Fiorentino. As discussões em torno da arte se davam em torno de como trabalhar o espaço perspectivo, onde os artistas incluíam pequenas ousadias, os chamados caprichos. Era uma arte do efeito, da imaginação, da elaboração fantasiosa dos temas. As imagens estavam um pouco mais distantes do que haviam estado até o meio do século XVI. Os milagres pareciam comprovados por efeitos, mais do que pela racionalidade.

Nada mais distante dos trabalhos de juventude de Caravaggio. Suas pinturas evitam qualquer idealização. As perspectivas são minúsculas e as figuras parecem ocupar um espaço restrito. Tudo parecia excessivamente próximo. Era uma arte de uma representação direta.

Caravaggio vinha de Milão. Embora tratasse a arte como um ofício culto, formou-se em uma tradição periférica, distante dos debates de Roma ou Veneza. Criou uma pintura mais atenta aos contrastes simples de luz e sombra do que ao desenho sofisticado de Rafael e dos rafaelitas. Para um gosto tradicional, a sua obra parecia pesada. Ele se ocupava de dores e prazeres terrenos, não de uma idealização celestial.

O modo de pintar era mais direto. O artista encenava com modelos os seus motivos no ateliê e os pintava, muitas vezes, sem desenho preparatório, observando aquele teatro através do espelho. Evitava copiar os grandes mestres do passado, buscando uma forma mais concreta. A falta de composição espacial era vista como vulgar e grosseiro. Também aproximava a arte das sensações táteis. Como os efeitos do espelho podem fazer. Mais do que isso, prenunciava o gosto por temas de gênero (que seriam amplamente explorados pelos artistas do século XVII).

Os personagens, frutas, tecidos e objetos ganham presença física. Caravaggio representava temas do dia-a-dia, prazeres menores, prazeres obscenos. Muitas vezes a cor da pele indicava doença. Tudo ganha corpo. As folhas e cascas de frutas ganham cor de ressecamento, envelhecimento, decomposição. A relação entre as pessoas, lugares, tecidos indicam uma tensão erótica. A vida pintada é terrena, corpórea e carnal. Sua natureza morta, feita na juventude, quando o gênero ainda engatinhava, não mostra um cesto luxuoso, com uma mesa burguesa bem posta, mas a natureza com seus sabores, mas também suas idades. São folhas secas, cascas que escurecem.

CARAVAGGIO Canestra di frutta c. 1597 óleo sobre tela, 31 x 47 cm Pinacoteca Ambrosiana, Milão

Esse aspecto cru e cruel, direto e violento que seduziu o cardeal Francesco Maria Del Monte. Depois de ver seus Bacos, as cenas de jogo, Del Monte fez de Caravaggio seu protegido. Aquele personagem à margem aproxima-se do centro da cultura católica. É a imagem assustadora e sedutora que interessa àqueles cardeais e o papado. Uma imagem que não embelezava as figuras e não atenuava a sua presença.

Roma vivia um período tenso e violento. Não havia cem anos que o Vaticano perdera o monopólio do cristianismo ocidental, com o início da reforma protestante. O catolicismo torna-se uma cultura da persuasão, do convencimento. Nas telas de Caravaggio, milagres e martírios dos santos e de Cristo parecem mais próximos dos fiéis. Como se o artista não tentasse colocar espírito na matéria, mas carne na espiritualidade.

O crítico italiano Giulio Carlo Argan diz que se a pintura renascentista é de “argumentação tão perfeita que não é necessária a prova dos fatos” na pintura de Caravaggio “os fatos são tão evidentes que não precisam de nenhuma argumentação”. O sagrado nunca foi tão profano quanto na tela em que São Tomé enfia o dedo na ferida de Jesus. Isso não quer dizer que a pintura não seja religiosa, ela é. Só que o religioso aqui acontece na carne. A prova é sanguínea, não racional.

O interessante foi como essa imagem, cortada por luzes direcionadas, encenada, feita de posições pesadas que surgem ofuscadas na superfície da tela, deram subsídio, séculos depois, à linguagens como o cinema e a fotografia. Sua luz é direcionada, não ilumina todo o ambiente, ilumina as partes de maneira desigual. Aliás, mais que isso, ilumina as partes de maneira teatral.

Por isso os personagens são isolados, recortados em meio às sombras. não parecem dizer respeito ao resto da natureza, mas ao sofrimento que cada um carrega, mesmo no milagre. Talvez, o sofrimento venha junto com a carne, mesmo quando refletida no espelho.

CARAVAGGIO A descrença de São Tomé 1601-02 óleo sobre tela, 107 x 146 cm Schloss Sanssouci, Potsdam

Amanhã, às 19h, abre a exposição da Germana Monte-Mór na Galeria Marília Razuk. Os trabalhos são de primeira e a artista me deu a honra de acompanhar o processo de elaboração da mostra e me convidou para ajudá-la na escolha das peças.

Aprendo muito com os trabalhos da Germana, espero ter comunicado o  entusiasmo. Este ensaio, que desde ontem está na página da Ilustíssima, pode ser lido no Guaciara. Tentei ser justo e comunicar a grandeza da obra a ser exposta.

Fiquei muito satisfeito, a exposição ficará linda, apareçam por lá.

Imagem

Germana Monte-Mór trabalha com as mais variadas linguagens. Consegue resultados notáveis. O seu raciocínio, que inicialmente partia do modo como o desenho organiza o espaço, amplia-se, para objetos translúcidos, imagens fotográficas, esculturas, objetos. Na exposição recente, vemos muitos trabalhos realizados com técnicas diferentes. Embora individualmente eles revelem questões específicas, todos parecem compartilhar alguns princípios.

De maneira geral, todos estes novos trabalhos são superfícies. Mesmo os bancos são superfícies unidas que formam um móvel. A artista atua sobre estas, traçando marcas que dividem o plano ou o facetam em diversas áreas.

Nos melhores trabalhos, essas marcas partem de um ponto na margem e vão parar em outro ponto. Com isso, sugerem que a integridade do plano foi desfeita. Nas pinturas e desenhos isso é mais claro.

As obras sobre tela são pintadas com asfalto. A tela ganha uma cor poluída. A aparência é mais suja, irregular e espessa. De certo modo, lembra as áreas esfumaçadas dos trabalhos chineses tradicionais em nanquim e mesmo o amarelado de papel velho. Mas, como a pincelada é sinuosa, a marca se comporta como um rio a cortar esse terreno indeterminado. Assim, as marcas de pincel tentam contornar formas com a aparência esfumaçada.

Nos trabalhos sobre papel, algo parecido acontece. Curiosamente, no entanto, a artista sobrepõe à folha betumada uma faixa frágil de parafina que faz as vezes de pincelada. Essas superfícies são planos empoeirados, arenosos, com uma faixa sinuosa de parafina a cortar o que parece um solo a se formar em um lado e outro. Aqui, nesses desenhos de cera existe algo de massas de terra, argila, asfalto (por que não?), barro, petróleo, lava, a se comprimirem.

Existe a impressão de um terreno a se constituir lentamente. Como se fosse o momento em que a Pangeia se dividiu, uma ilha tornou-se arquipélago. Mas, curiosamente, nada disso parece violento. Tudo se dá de maneira suave, como uma intervenção lenta, tranquila. O trabalho de Germana Monte-Mór não parece estar à procura de fraturas. As formas são bem constituídas, embora aconteçam em um lugar cheio de indeterminação. Como se tudo estivesse a ser feito.

*

Os motivos de Germana têm algo de geológico. Os delgados relevos de chumbo irregulares, sobrepostos às superfícies negras de asfalto nos polípticos – que a artista faz desde o fim da década passada -, simulam linhas do horizonte e cadeias montanhosas. Eles sugerem que algo está a se formar num mundo onde antes não havia nem alto nem baixo, nem fundo nem raso. Simulam um relevo em um lugar escuro e empoeirado. Como o papel aparece em diferentes alturas, a sensação é de heterogeneidade. O horizonte passa a ser a única forma de ver nesse mundo cego.

Mais do que isso, parece existir certa decomposição geológica. Um movimento lento de uma matéria que decompõe e recompõe os lugares por onde andamos. Algo como os areais do deserto. As representações de Germana guardam familiaridade com aquilo que se esfarela, se cristaliza, torna-se fóssil. De uma matéria que perde a solidez para se tornar outra coisa.

As formas mais sólidas da pintura roçam as faixas pintadas como continentes que se diluem lentamente no mar. Por vezes tal diluição aparece como a retirada da solidez ou da rigidez das coisas. Em suas esculturas isso se expressa na contraposição entre os cortes curvilíneos e os formatos planos. Em outros momentos, como a tentativa de dar forma visível a dinâmicas instáveis.

Curioso como isso se revela em algumas das fotografias de Germana. Na série Âmbar, mostrada a partir de 2008, ela mostra as rochas de modos inusitados. Retrata o fundo pedregoso de riachos rasos. Pedrinhas cobertas por uma malha d’água tranquila e dourada pelo sol. A refração das marolas fazia com que o pedrouço ficasse mais curvo e líquido. Os contornos e as sombras que definiam a solidez de cada um dos corpos rochosos definham. A imagem torna-se ondulada. A água reflete as pedras e fica mais difícil definir o que está na superfície e o que está no fundo.

Essa sensação de impalpabilidade me parece um dos interesses centrais da fotografia de Germana Monte-Mór. Mais tarde ela realizou fotografias verticalizadas de queda d’água. A cascata aparecia centralizada em uma imagem frontal, margeada por uma alta parede rochosa. A solidez da pedra era desfeita pela cortina de líquido e fumaça da cachoeira, que desaguava em um lago. A imagem era de dissolução. De um fluxo que transformava o sólido em líquido e vapor.

Em outras imagens, os contornos parecem igualmente frágeis. A artista registrou cordilheiras de sal altas e abertas em 2010. Os grãos sobem nos altos montes como se se esparramassem em um chão todo informe, encardido, empoeirado. Ali também a forma parece se desfazer. A artista registra a tentativa de atribuir contorno a uma matéria volátil, de difícil controle.

Embora surja de maneira exemplar nas suas imagens fotográficas, essa questão sempre esteve presente no trabalho de Germana. Voltemos aos trabalhos recentes. Acredito que tanto a não aderência da parafina em terrenos sempre de alta indeterminação como a dissolução do plano de tinta indiquem um lugar volátil, difícil de controlar. Nos desenhos, o que parece nos dar alguma definição formal em meio à escuridão granulada do papel é a cera que a artista cola na superfície. As formas nos trazem a lembrança de recortes dos mapas. Mas, como a cera é frágil, tudo parece provisório. Uma tentativa de ordenar em um meio marcado pela adversidade.

Os planos das pinturas indicam coisa parecida. Diferentemente do que ocorre nos desenhos, a linha não define o que acontece no que é contornado por ela. O plano todo é sujo, de difícil orientação. A espessa pincelada não parece dar conta do escorrido de tinta que ocupa a tela inteira. Em um dos mais belos trabalhos, a pincelada forma uma alça. As duas pontas vêm no topo da tela, a curva quase na base. Essa curva é mais larga que as duas partes de cima, como se tivesse se alargado ao tentar segurar o que escorria da tela. Mas tudo pode se romper. É como aquelas linhas que sustentavam os altos bancos de areia. Os gestos se esforçam em inverter uma dissolução iminente. São vigorosos, tentam estabelecer um recanto, mesmo que momentâneo, em um ambiente adverso.

O ambiente contemporâneo muitas vezes exige de nós que passemos boa parte do dia, da semana, dos meses, nos alienando dos nossos desejos, das nossas necessidades mais primordiais. Temos mais contas a pagar e distâncias a percorrer do que espaços de convívio público.

Tais demandas nos fazem viver num fluxo em que as obrigações são constantes. Por isso, olhamos com tanto interesse os momentos que guardamos para nós. Eles acabam se tornando as boas lembranças em meio à vida turbulenta. Nós os identificamos como o lugar onde a vida acontece, onde fazemos nossas vidas.

A arte é um desses lugares em que podemos vislumbrar o mundo de outra maneira. Em que podemos dispor do tempo, dos objetos, das relações pessoais de uma maneira impensável nas condições objetivas da vida. Talvez o seu melhor exemplo seja a pintura matissiana. Feita com seus espaços de colorido intenso e decoração que se confunde com o vigor da natureza, lá nada parecia se curvar a necessidades de composição tradicional.

Germana Monte-Mór vive em outra época. Mas também parece buscar esses recantos. Buscar formas que tentam se livrar de exigências exteriores a elas, impositivas. Em seu trabalho não tem padrão, não tem decoração, tampouco cor. Ele acontece em espaços repletos de fendas, onde a integridade dos corpos é corrompida a toda hora. É discreto, feito de cores brutais, rígido como minério. O cenário em que ele se realiza é parecido com o que descrevem os teóricos da alienação moderna. No entanto, o esforço da artista é traçar, em traços por vezes largos e pesados, áreas onde a vida não foge de nós, e por alguns instantes parece não nos exigir nada, mesmo que logo depois nos passe a rasteira.

Na sexta e no sábado haverá inaugurações imperdíveis em São Paulo. Amanhã, abre a instalação Três, de Roberto Freitas. Eu estou muito curioso. Vi poucos trabalhos do artista, tudo de altíssimo nível. Finalmente ele poderá ser visto em São Paulo. Como são poucos dias, corram!

Imagem

No Sábado, às 11 horas, abre na Pinacoteca uma exposição importante de um dos mais importantes pintores brasileiros: Sérgio Sister. Ainda não sei o que será mostrado, mas me entusiasma a parceria do artista com o crítico Alberto Tassinari na curadoria. Quem perder irá se arrepender.

Imagem

E segue a mostra do Jonas Mekas no CCBB. Está muito divertido. Aprendo todos os dias. Revejo gente que eu não via a algum tempo e converso com esse pessoal com o maior prazer do mundo. Esse clima das mostras do CCBB é um dos melhores que eu conheço.

No começo do ano passado,fiz a curadoria da exposição do pintor Neves Torres para a Galeria Estação . Foi a primeira individual do artista e mais um golaço da Galeria e de sua diretora Wilma Eid. O espaço tem se consolidado como o maior difusor da arte popular no meio de arte contemporânea. É um trabalho fundamental para a cultura brasileira. Este foi o texto que fiz para o catálogo.

Neves Torres Sem título, 2010 Óleo sobre tela 50 x 70 cm

Neves Torres nasceu em Conselheiro Pena, no Vale do Rio Doce, em Minas Gerais. Morou em outros lugares, mas viveu uma parte boa de sua vida no Mutum, no mesmo estado. Lá começou a vida adulta, constituiu família e trabalhou na roça.

O Mutum já foi cenário para as histórias de Guimarães Rosa. Em Campo Geral, o escritor descreveu o lugarejo de maneira simples e quebrada. A partir da voz de algum personagem anônimo que esteve por lá, contou que aquele pedaço do mundo era “um lugar bonito, entre morro e morro, com muita pedreira e muito mato, distante de qualquer parte; e lá chove sempre”.

Não sei quanto esse Mutum do personagem Miguilim se parece com o Mutum de Neves Torres, mas na obra do pintor tudo tem algo desse lugar bonito, perdido, caracterizado pelo que a natureza fez dele. A descrição escrita é singela, não explica nada, mas lista o que o personagem encontrou em Mutum. As descrições feitas pelas linhas de Neves Torres de cada galho também são diretas. A beleza está no modo como esse traço simples nos traz lembranças tão precisas do campo, de maneira tão original.

O texto nos conta de algumas partes desse lugar. Tem pedra, tem mato, tem chuva, mas nada parece ocupar um espaço determinado. É um morro, um lugar e outro morro. Nos quadros, também vemos bichos diferentes, minerais diferentes, vários tipos de planta e de gente e “muito mato”. Tal qual o texto, a imagem também nos mostra figuras meio soltas, individualizadas, isoladas. Tanto, que parece ser difícil reconstruir um mesmo cenário para o pasto, a vaca, as casas e plantas.

Na obra de Neves Torres essas coisas também parecem estar em pedaços de terra insólitos. Se não são distantes no espaço, como no que Guimarães Rosa descreveu, podem sê-lo no tempo. A sensação que temos é de que aquilo é a imagem de algum lugar e de lugar nenhum. O artista reúne suas figuras como se juntasse partes do mundo que ficaram no passado, foram contadas, imaginadas. Embora estejam uma ao lado da outra, talvez não estejam no mesmo lugar, e, no entanto, estão, mas na obra de arte.

Em uma das pinturas, por exemplo, o tom mais claro de verde pode ser fundo onde aparece uma floresta mais fechada. Ao lado, aparece um verde mais escuro, onde aquela floresta é derrubada por lenhadores que têm rosto de pássaro. Eles ocupam a mesma imagem, mas são momentos diferentes na cena, não constroem o mesmo lugar. Relacionam lugares diversos como quem tenta descobrir o vínculo difícil entre tantas coisas que viveu ou imaginou.

***

Neves Torres não morou só no campo. Ele se mudou outras vezes e trabalhou em muitas profissões diferentes. A que mais o orgulhou foi a de operador de trator de esteira. Conta que guiou dos modelos mais antigos aos mais modernos; os mais difíceis e duros de pilotar e os de último tipo: suaves, com direção hidráulica. Era muito bom no ofício, e sua destreza é contada com o orgulho de quem sabe o que está falando.

Neves Torres Sem título, 2011 Óleo sobre tela 50 x 70 cm

Faz algum tempo que o pintor mora, com boa parte da sua família, em Serra, no Espírito Santo. Lá tomou alguma distância de suas origens rurais. A cidade é maior, cortada por avenidas, próxima da estrada e muito perto de Vitória, capital do estado. Está mais para o litoral do que para os campos gerais do interior de Minas. Mais para a multidão do que para o isolamento.

Estimulado por seu filho Francisco, em Serra, ele começou a pintar sobre tela. Dois de seus meninos se dedicavam à pintura desde a juventude. Neves Torres se iniciou no ofício maduro, há menos de dez anos. De lá pra cá, já expôs em coletivas importantes, foi premiado e se tornou conhecido no meio de arte popular.

Decidiu retratar imagens do mundo rural que deixou. Aliás, muito daquele mundo rural que o trator desfez e refez. Na pintura, o artista parece tentar relembrar tudo o que conheceu. Algumas coisas de fato remontam às memórias da vida do artista. A casa das máquinas aparece em várias telas, o moinho, cenas de derrubada da mata, curral, pasto, a vaca no pasto, o lago, os peixes do lago, os pássaros das árvores e as outras plantas.

Há também coisas que parecem sugerir figuras fantásticas, deslumbrantes. Em uma tela, dois pássaros estão no topo da copa da árvore. Como se postam no canto, aquela folhagem parece se tornar um rabo de pavão para cada um deles. Os pássaros e a árvore tornam-se uma coisa só. Mas aquele verde-escuro contrasta com uma forma rosa que destoa completamente da cor do bicho que é mato e do mato que é bicho. Sobre o rosa, uma casa desenhada de maneira simples sugere uma morada no meio dessa natureza encantada.

As imagens carregam algo do meio rural e de uma paz idealizada da vida campestre. Não dá para dizer que a imagem lembra algo da vida do artista, mas o repertório de formas vem daí, ou de alguma coisa que alguém lhe contou e até mesmo de uma visão a partir do que ele conhece.

Em geral são lembranças surgidas no momento em que o artista vive com os dois pés plantados no concreto e no asfalto da cidade. Lembranças de uma vida rural que ficou em um passado, que não existe mais.

A melhor música sertaneja brasileira também foi feita por pessoas do meio rural que viviam em cidades. Elas eram capazes de capturar os prazeres e dificuldades da vida simples no campo. Cantar a saudade de quem precisou abandonar aquele lugar e agora se lembra dele como um paraíso perdido.

Ao que parece, Neves Torres realiza operação muito semelhante. Assim, encontra um lugar de relações mais simples, onde, inclusive, nada parece estar mais distante e nada mais próximo. Nenhuma das figuras parece ser mais importante que as outras. São imagens de pequenas lembranças, cada uma traçada com a mesma dedicação e feita como uma lembrança individual, não como parte de uma imagem completa.

A árvore parece ter papel tão importante quanto o homem, o peixe, a folha e a flor. Mas sempre é uma forma idealizada daquela vida. Uma forma que opta, como nas melodias das modas e pagodes da música caipira, por dar certa graça e floreio ao murmúrio harmônico da natureza e à simpatia dos camponeses.

Na imagem, o artista conta aspectos dessa vida. Reúne figuras que parecem ser representativas de lá. Talvez por isso Neves tenha pensado uma maneira tão original de nos mostrar como eram aqueles lugares. Em vez de se dedicar a pintar paisagens, formas em perspectiva, ou inserir os animais e as coisas em cenários reconhecíveis, ele os reúne uma série de figuras isoladas em planos regulares e coloridos, distintos uns dos outros. A articulação entre tais formas de cor é que dá unidade à pintura.

Em um dos trabalhos mais fortes, o artista pinta faixas coloridas horizontais representando partes diferentes da paisagem campestre. Uma faixa azul, outra ocre, outra rosa, outra num bege cor de areia e uma azulada, que não chega nem à margem direita nem à esquerda da pintura. No topo, o azul esbranquiçado é o céu. Abaixo, linhas simples sugerem o campo, a plantação, os elementos vegetais. Na terceira faixa, pontos azuis formam círculos decorativos sobre uma base rosada. Qual um campo florido e perfumado. O jardim tem por vizinhança um vilarejo, que acaba quando começa um lago, ou uma forma branca azulada.

Embora todos os elementos de uma paisagem estejam na tela, o quadro não organiza a imagem como uma vista da natureza. Na pintura de paisagem da tradição europeia, a imagem tenta descrever essa visão. Organizá-la de um ponto de vista específico. Assim, artistas como Constable e Ruysdael decidem a distância entre o céu e a terra, a cor e o modo de pincelar cada elemento para que ele forme uma imagem íntegra, o mesmo ponto de vista, organizado no espaço perspectivo.

Neves Torres reúne elementos soltos dessa paisagem. A pintura agrupa as folhas em formas planas. As folhas podem ser de vários lugares. Estão juntas não por reconstruir um lugar qualquer, mas por trazer à lembrança um sentido da vida que parece estar presente em todos esses lugares.

Não é por acaso que o colorido é tão forte. Ele dá individualidade a cada figura, mas também traz a esses elementos uma dimensão fantasiosa. O pintor encaixa esses cacos de cor como se arranjasse um espaço desejável. Neves Torres encontrou um modo de colocar tudo isso no mesmo lugar. De reunir elementos que viu em lugares diferentes e fazê-los tão bonitos.

***

Neves Torres Sem título, 2012 Óleo sobre tela 50 x 70 cm

Na década de 1960, a gravação de Belmonte e Amaral de Saudades da minha terra, composta por Goiá e Belmonte, fez muito sucesso. A música, como as pinturas de Neves Torres, construía a imagem do campo como um lugar calmo. E afirma a beleza como a calma.

Em tom contrariado, mas resignado, Belmonte cantou a desilusão das promessas da cidade diante das belezas e prazeres simples do campo. Começava perguntando “De que me adianta, viver na cidade,/ Se a felicidade não me acompanhar”. E seguia enumerando as belezas da roça. A voz chorosa falava com saudade de “Ver na madrugada, quando a passarada,/ Fazendo alvorada, começa a cantar,/ Com satisfação, arreio o burrão,/ Cortando o estradão, saio a galopar;/ E vou escutando o gado berrando,/ Sabiá cantando no jequitibá”. Ou do “galo cantando,/ O inhambu piando no escurecer,/ A lua prateada, clareando as estradas,/ A relva molhada desde o anoitecer”. A saudade é tanta que, no fim da canção, os cantores afirmam que voltaram para aquele lugar que abandonaram e do qual nunca deviam ter saído.

Neves Torres, que viveu em tantos lugares diferentes, deve sentir falta de muitas das coisas que ele coloca na tela. Parece também identificar a beleza nessas alegrias da vida simples. Bela é essa relação harmônica com a natureza e suas alegrias. Assim, embora idealizada, a imagem não é de um lugar melhor que o mundo em que vivemos, mas de um lugar onde o que existe de mais bonito se encontra.

Diferentemente da canção, no entanto, esse lugar não existe, ou não existe mais. Provavelmente o campo que ficou para trás já não é mais o mesmo. O artista pode mostrar a nós todas as belezas enumeradas pela música, por exemplo. Na pintura, contudo, essas belezas nunca vão embora. Mais que isso, encontram-se com todas as outras em uma malha de cores.

Este texto é a resenha da última exposição do Lucas Arruda e foi publicado na revista DASartes número 25. 

Imagem

LUCAS ARRUDA
Sem título
2012
óleo sobre tela
51 x 61 cm

Lucas Arruda parte de gêneros tradicionais da pintura. As suas telas são marinhas, paisagens. O artista parece preocupado com todas as prerrogativas do gênero: as proporções entre céu e terra, os modos de fazer a luz em cada quadro, a maneira de dispor os elementos mais verticalizados no horizonte. Mas não é só isso. Parece haver um modo de tratar a imagem que escapa a quem não presta atenção na forma.

Na sua última exposição, na Galeria Mendes Wood, no fim do ano, Lucas Arruda continua a série Deserto modelo. No mais das vezes, são paisagens litorâneas, mas agora, também começam a aparecer uma série de trabalhos com mata. Nenhum quadro é grande. Aliás, aqui, a maior parte dos trabalhos é pequena, o que faz lembrar pintores como Boudin e Jongkind.

O interesse é menos o assunto, e mais no modo como ele aparece a nós. A pintura parece guardar a ambiguidade da melhor arte moderna. É feita de uma tessitura de pinceladas descontínuas que se cruzam na tela e sugerem tanto uma forma abstrata plana como uma imagem reconhecível.

Nestes trabalhos de agora, tenho a impressão que as figuras foram ainda mais simplificadas do que em trabalhos anteriores. Arruda chamou a atenção para aspectos mais estruturais da obra.

Imagem

LUCAS ARRUDA
Sem título
2012
óleo sobre linho
40 x 40 cm

Em algumas das paisagens mais interessantes, o quadro tende a uma cor só. Lucas Arruda trabalha com gestos mais carregados de tinta sobre uma superfície mais rala de valores do mesmo espectro de cor.

Uma marca sobre a outra sugere uma variação. Como a variação tonal é pequena, a cor parece se diluir, as figuras parecem se desfazer e a imagem também parece ter pouca solidez.

Em um pequeno quadro que tende à cor de chumbo, temos a impressão de que o artista escolheu uma paleta muito parecida para descrever o lugar que ele mostra. Assim, água, céu, areia, tinta, tela, parecem compartilhar da mesma natureza. É como se o material fosse disposto em movimentos horizontais e seguisse um movimento de sedimentação. Esse movimento parece ser desmentido por áreas mais dispersas da tela. A pintura parece ser feita dessas imagens que ora aparecem com muita clareza, mas é permeada de lapsos.

Esse modo de descrever um lugar tem algo das virtudes e das vicissitudes das nossas lembranças. A imagem parece incompleta, imperfeita. Além disso, também parece tornar aqueles lugares mais distantes de nós.

As lembranças cuidam de subtrair o que queremos esquecer. Se revivêssemos o que passou, talvez a lembrança perdesse a validade. Quanto mais nos aproximamos, essas paisagens de Lucas Arruda também parecem desaparecer. São miragens. Se carregam alguma ilusão, é aquela dos afetos, que encontra em pessoas e lugares o que ninguém mais vê.

Imagem

LUCAS ARRUDA
Sem título
2012
óleo sobre linho
24 x 30 cm

Saiba de tudo clicando no cartaz

Não percam

Muita coisa boa dele aqui também

Jonas Mekas, Walden, 1969 (excerpt) from RE:VOIR on Vimeo.

Sobre mãos, armas, carne, vegetais e o problema da censura. Sobre a organização da sociedade e sobre “o que fazer?”. De 1964, muito apropriado para nosso momento:

Tudo bem, tudo bem, nesse blog já passa mosca e o que tem de teia de aranha acumulada aqui e ali não está no gibi. O ano de 2011 não foi fácil pra ninguém e isso acabopu refletindo nesse abandono do Gua Gua. Mas a retomada começa agora e nada mais nobre do que dar uma força ao nosso grande amigo André Mantelli.

A alegria em pessoa Mantelli foi responsável por momentos muito felizes no Rio e são dele (e do meu chapa Alberto), as imagens de um dos dias mais felizes da minha vida.

Ele é um fotógrafo excelente e ontem foi assaltado no Rio. No roubo, subtraíram dele quase todo seu equipamento, isso bem em meio a um grande trabalho que ele faz sobre a Mata Atlântica. Por isso reproduzo o post que ele fez em seu blog. E convido todos a darem uma força em sua vaquinha.

manta aid

é verdade, como cartunista sou um excelente fotógrafo.

e é exatamente por isso que criei esta página para que aqueles que gostam das minhas imagens-histórias possam me ajudar na reconstrução de um pequeno patrimônio de trabalho.

(para quem ainda não sabe, perdi todo o meu equipamento fotográfico, que estava sem seguro, num assalto no rio)

pensei muito antes de optar em colocar este help aqui. aliás, bastaria dar o nº de uma conta. contudo achei interessante abrir valores, prestar contas e agir com transparência monitorando publicamente a evolução desta campanha. se tiverem outras sugestões, serão mais que bem-vindas.

fiz duas listas: a primeira corresponde exatamente ao que perdi, que é a meta mínima, 18 mil reais;

a segunda coloquei um ‘plus’ sobre o equipamento – vai que a galera se empolga – e tento complementar.

mas, afinal como disse lévi-strauss, ’vive-se em abundância e “nada falta a não ser o que não se tem.’

o link da ‘vaquinha’ é este aqui: http://www.vakinha.com.br/VaquinhaP.aspx?e=112370

acho que é um bom negócio pra todo mundo. ;)

para alguns, pode ser uma oportunidade de investimento. mais ou menos como um leilão.

por exemplo.

se vc doar 20 reais pra causa, ganha um portrait de vc mesmo em formato digital que mandarei por email. não se preocupe, uma hora estaremos na mesma cidade, rs.

imagino fazer uma expo com retratos deste movimento solidário. usarei sua imagem, se autorizar.

por módicos 50 reais vc leva o mesmo retrato impresso, formato 20 x 30 cm.

doando 100, vc faz três destes últimos (mas só um seria usado naquela exibição).

500 reais a gente faz o portrait que poderá ser usado na expo + um ensaio fotográfico, com 20 fotos finais (sem impressão).

1000, vc ganha o ensaio + uma ampliação de 75 x 50 cm de foto a escolher no flickr/mantelli.

ou faça sua proposta!

mas nos ensaios não estão incluídos possíveis custos de produção, certo?

peço que espalhem, divulguem, me ajudem a romper a meta.

absolutamente tudo será revertido para uma produção fotográfica apaixonante.

(pelo menos é o que pensa o apaixonado)

obrigado de coração pela generosidade e fraternidade.

um caloroso abraço,

:)

A excelente revista +Soma publicou  há uns dois meses a resenha que eu escrevi pro último disco do Mike Watt, hyphenated-man. Sempre fui muito fã do Minutemen e do próprio Watt. O trabalho mais recente foi uma grata surpresa. Nas curtas composições no disco lançado neste ano, o baixista volta a trabalhar com a estética de síntese musical que ele, D. Boon e George Hurley desenvolviam no início dos 80, a partir dos trabalhos do pintor flamenco Hyeronimous Bosch.  

O punk partiu de uma necessidade de refletir e sintetizar de maneira crítica o que até então havia acontecido no rock. O clichê do punk como inimigo do rock progressivo nada mais é do que uma interpretação pouco aprofundada sobre um grupo de pessoas que se afirmou – no final dos anos 70, começo dos 80 – reconhecendo na música popular para rádio uma estética já formada e que não precisava de diálogo com estilos mais consolidados para ser levada a sério, para dialogar com as outras coisas do mundo.

Nenhuma banda foi tão efetiva nesse sentido como o Minutemen. Inspirados pelo Pink Flag, do Wire, partiram para suas longas reflexões sobre a música em composições de pouco mais de sessenta segundos. Coisa que só amigos, obcecados por som poderiam fazer. Ao longo da carreira, começaram a elaborar esses pequenos fragmentos em composições maiores e em outros tipos de canção, sempre refletindo sobre o rock e sobre o impacto da cultura independente na sociedade.

D. Boon, guitarrista do Minutemen, definia o punk, em tradução livre, como qualquer coisa que queremos que assim seja. Após a sua morte, esta noção de liberdade continuou permeando as carreiras dos dois remanescentes da banda de San Pedro. Mike Watt, o baixista,
principalmente.

Sua trajetória errática no cenário independente americano fez com que Watt passasse em formações que vão dos Stooges aos experimentalismos dos Ciccone Youth. Mas em seus trabalhos solo, sempre parecia que o baixista mais influente da música independente americana estava tateando um caminho. Isso até o incrível “hyphenated-man”.

O disco é chamada por Watt de sua terceira ópera, mas não espere a trajetória de protagonistas com começo meio e fim ou uma interpretação roqueira de algum modelo clássico. Inspirado pelo pintor flamenco do século XV, Hyeronimous Bosch, hyphenated-man é composto de 30 pequenos fragmentos musicais (só uma canção tem mais de dois minutos) que soam como se olhássemos para uma tela cheia de personagens caricaturais e situações bizarras. São peças com significados particulares – como os personagens-provérbio de Bosch –, mas que têm um sentido comum entre elas.

É nesse painel que Watt recupera muito do poder de síntese do Minutemen (são só três instrumentos!), dialogando com a estética que o grupo construiu nos anos 80 (as canções foram compostas em uma antiga telecaster de D. Boon) e com muito da música que formou a sua geração – de Captain Beefheart e Credence a Wire, Black Flag, Gang of Four. O resultado é empolgante e esclarecedor para entender um dos personagens que ajudou a dar forma para o rock como nós o conhecemos hoje.

Pablo Pires é um dos consultores do Guaci em temas internacionais. Autor do blog Longes, ontem ele nos enviou o seguinte e-mail:

Só pude imaginar o Guaciara para dar conta do meu delírio madrugadôncio. Como de praxe, leio até altas horas e a The Nation está com uma proposta de “qual a melhor canção de protesto de todos os tempos?

O que é ótimo, boas indicações e pesquisa. Mas me deu vontade de falar do Brasil. Daí gastei umas horas tardias e fiz esta lista. Não é o caso do meu blog, mas acho que pode ser o caso do Guaci. A verdade é que fiz com cuidado, mas, só eu não vale. Daí pensei em fazer uma enquete também.

Na verdade, me interessei em saber o que é, o que ficou, sob vários parâmetros… Importância histórica, significado na época, mas, o que nós, da geração posterior, pega e o que fica, a estética e a política, enfim, acho que dá caldo.

Claro, você vai entender a lista e, bora….

Segue minha lista primeira é esta (querendo que seja contestada e acrescida…)

1 – Geraldo Vandré, “Pra não dizer que não falei das flores” 60′s

2 – Chico Buarque, “Apesar de você” 70′s

3 -Maria Bethânia (versão da composição de Joao do Vale/José Cândido’) “Carcará” 60′s

4 -  Elis Regina (versão da canção de Belchior) “Como nossos pais” 70′s

5 – Nara Leão (versão da música de Ze Ketti)  “Opinião” 60′s)

6 – Tom Zé, “Todos os olhos”, 70′s

7 – Caetano Veloso, “Proibido proibir” 60′s (versão original do discurso no FIC)

8 – Sérgio Sampaio, “Eu quero é botar meu bloco na rua” 70’s

9 – Raul Seixas, “Paranóia” 70′s

10 – Mutantes, “Panis et Circenses” 60′s

11 -Gonzaguinha, “Vamos à luta” 80′s

12 – Elis Regina (versão de música de João Bosco e Aldir Blanc) “O Bêbado e a equilibrista” 70′s

13 – Marília Medalha, Edu Lobo, Quarteto Novo e Conjunto Momento Quatro “Ponteio” 60′s

14 - Gilberto Gil, “Aquele abraço” 70′s

15 -  Gal Costa (composição de Jards Macalé e Waly Salomão) “Vapor Barato” 70’s

Como o Pablo deixa claríssimo, a idéia é comentar, criticar e sugerir novas listas aqui na caixa de comentários. Acho que a conversa rende demais.

Próxima Página »

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 83 outros seguidores