No geral ele tá certo…

What on Earth are you doing, God?
Is this some sort of joke you’re playing?
Is it ’cause we didn’t pray?
Well I can’t see the point of the word without the action
Are you just hot air, breathing over us and over all?
Is it fun watching us all?
Where’s your son? We want him again!

And next time you send your boy down here
Give him a wife and a sexy daughter
Someone we can understand
Who’s got some ideas we can use, really relate to
We’ve all read your rules, tried them
Learnt them in school, then tried them
They’re impossible rules
And you’ve made us look fools
Well done, God, but now please…

Don’t hunt me down, for Heaven’s sake!
You know that I’m only joking, aren’t I?
Pardon me, I’m very drunk!
But I know what I’m trying to say
And it’s nearly night time
And we’re still alone
Waiting for something unknown, still waiting
So throw down a stone, or something
Give us a sign, for Christ’s sake!

E já que a pauta é a Yoani, mais uma prova de que debate com a CIA no meio é sempre bem melhor:

The Fugs – CIA Man

Who can kill a general in his bed?
Overthrow dictators if they’re red?
Fucking-a man!

CIA Man!

Who can buy a government so cheap?
Change a cabinet without a squeak.
Fucking-a man!
CIA Man!

Who can train guerillas by the dozens?
Send them out to kill their untrained cousins?
Fucking-a man!
CIA Man!

Who can get a budget that’s so great?
Who will be the 51st state?
Who has got the secrets as Service?
The one that makes the other service nervous?
Fucking-a man!
CIA Man!

Who can take the sugar from it’s sack,
Pour in LSD and put it back?
Fucking-a man!
CIA Man!

Who can mine the harbors a’ Nicaragua?
Out hit all the hitman of Chicagua.
Fucking-a man!
CIA Man!

Who can be so overtly covert?
Sometimes even covertly overt.
Fucking-a man!
CIA Man!

Whos the agency well known to God?
The one that copped his staff and copped his rod?
Fucking-a man!
CIA Man!
Fucking-a man!
CIA Man!
Fucking-a man!
CIA Man!
CIA Man!
CIA Man!
CIA Man!
CIA Man!
CIA Man!
C
I
A

Trumans Water, para mim, já foi a coisa mais intensa do mundo. De certa forma, continua sendo…

Saiba de tudo clicando no cartaz

Não percam

Muita coisa boa dele aqui também

Jonas Mekas, Walden, 1969 (excerpt) from RE:VOIR on Vimeo.

Sobre mãos, armas, carne, vegetais e o problema da censura. Sobre a organização da sociedade e sobre “o que fazer?”. De 1964, muito apropriado para nosso momento:

Tudo bem, tudo bem, nesse blog já passa mosca e o que tem de teia de aranha acumulada aqui e ali não está no gibi. O ano de 2011 não foi fácil pra ninguém e isso acabopu refletindo nesse abandono do Gua Gua. Mas a retomada começa agora e nada mais nobre do que dar uma força ao nosso grande amigo André Mantelli.

A alegria em pessoa Mantelli foi responsável por momentos muito felizes no Rio e são dele (e do meu chapa Alberto), as imagens de um dos dias mais felizes da minha vida.

Ele é um fotógrafo excelente e ontem foi assaltado no Rio. No roubo, subtraíram dele quase todo seu equipamento, isso bem em meio a um grande trabalho que ele faz sobre a Mata Atlântica. Por isso reproduzo o post que ele fez em seu blog. E convido todos a darem uma força em sua vaquinha.

manta aid

é verdade, como cartunista sou um excelente fotógrafo.

e é exatamente por isso que criei esta página para que aqueles que gostam das minhas imagens-histórias possam me ajudar na reconstrução de um pequeno patrimônio de trabalho.

(para quem ainda não sabe, perdi todo o meu equipamento fotográfico, que estava sem seguro, num assalto no rio)

pensei muito antes de optar em colocar este help aqui. aliás, bastaria dar o nº de uma conta. contudo achei interessante abrir valores, prestar contas e agir com transparência monitorando publicamente a evolução desta campanha. se tiverem outras sugestões, serão mais que bem-vindas.

fiz duas listas: a primeira corresponde exatamente ao que perdi, que é a meta mínima, 18 mil reais;

a segunda coloquei um ‘plus’ sobre o equipamento – vai que a galera se empolga – e tento complementar.

mas, afinal como disse lévi-strauss, ’vive-se em abundância e “nada falta a não ser o que não se tem.’

o link da ‘vaquinha’ é este aqui: http://www.vakinha.com.br/VaquinhaP.aspx?e=112370

acho que é um bom negócio pra todo mundo. ;)

para alguns, pode ser uma oportunidade de investimento. mais ou menos como um leilão.

por exemplo.

se vc doar 20 reais pra causa, ganha um portrait de vc mesmo em formato digital que mandarei por email. não se preocupe, uma hora estaremos na mesma cidade, rs.

imagino fazer uma expo com retratos deste movimento solidário. usarei sua imagem, se autorizar.

por módicos 50 reais vc leva o mesmo retrato impresso, formato 20 x 30 cm.

doando 100, vc faz três destes últimos (mas só um seria usado naquela exibição).

500 reais a gente faz o portrait que poderá ser usado na expo + um ensaio fotográfico, com 20 fotos finais (sem impressão).

1000, vc ganha o ensaio + uma ampliação de 75 x 50 cm de foto a escolher no flickr/mantelli.

ou faça sua proposta!

mas nos ensaios não estão incluídos possíveis custos de produção, certo?

peço que espalhem, divulguem, me ajudem a romper a meta.

absolutamente tudo será revertido para uma produção fotográfica apaixonante.

(pelo menos é o que pensa o apaixonado)

obrigado de coração pela generosidade e fraternidade.

um caloroso abraço,

:)

Cada dia me interesso em quem faz da música algo tão sério quanto a própria vida e sabe que o ato de tocar pode ser confundido com o próprio viver. O Joe McPhee é um desses caras.

Recomendado pra quem ainda acha que as discussões sobre distribuição e impacto mercadológico a são menos importantes que a criação.

Sim , sim, o blog anda meio parado e o acúmulo de tarefas dos três responsáveis por este espaço tem impossibilitado aquela atualização ágil e o debate moleque que sempre rolou nessa linda plataforma. Não temam, as coisas estão ficando mais tranquilas e acho que a alegria deve voltar a ser mais frequente por aqui. Pra começar, publicamos  o texto da nossa grande amiga Carol Trevisan – que é jornalista e trabalha com iniciativas da área social – sobre sua participação no primeiro evento da Copa do Mundo de 2014 e todas as cores que o império absolutista da bola brasileira pode ter. Para ler, recortar e comentar:

Pontapé inicial – Impressões sobre a bizarra experiência de participar  do primeiro chute da Fifa para a Copa do Mundo 2014, por Maria Carolina Trevisan

Bom humor e muita emoção...

Rio de Janeiro, 29 de julho. Seis e meia da tarde. Hora do rush na cidade maravilhosa. Ônibus lotados, carros e pedestres se misturam a um lusco-fusco que cega. As luzes vermelhas das lanternas em fila contrastam com a Baía de Guanabara, o cheiro da maresia e uma temperatura amena, o que faz do calçadão de Copacabana o melhor lugar para se estar.

Mas era hora do compromisso. Os ônibus com convidados da Fifa para o banquete que antecede o sorteio das eliminatórias da Copa 2014 partiam do luxuoso hotel Windsor Copacabana rumo ao Pier Mauá. O convite, assinado por Joseph Blatter, presidente da Fifa, e Ricardo Teixeira, presidente da CBF, sugeria como traje “bussiness atire”. Pouco a pouco os assentos foram ocupados por homens de terno-uniforme azul escuro, idênticos e com a palavra FIFA bordada no canto esquerdo do paletó. Para acompanhar, loiras perfumadas, cabelos em laquê, vestidos longos e brilhos mais adequados a casamento de princesa.

Esse foi o primeiro choque. O segundo, golpe bem mais forte, foi perceber que esse veículo cheio de desconhecidos e desimportantes seria escoltado por pelo menos quatro batedores da Polícia Rodoviária Federal, montados em uma bela Harley Davidson vintage. A população, espremida nos coletivos, era literalmente apartada para deixar passar sem atrasos tão distinguida turma. Foram pelo menos 10 desses. E assim, a Fifa, o governo e a prefeitura do Rio, começaram a mostrar que a elite brasileira, política e futebolística, é capaz de organizar uma Copa do Mundo. Deu vergonha.

Na chegada ao pier, os convidados eram recebidos com champanhe Chandon rose, caipirinhas, claro, e vários petiscos típicos de sabores irreconhecíveis. Carros pretos brilhantes, com motoristas negros brilhantes, estacionavam em uma área ultra vip (VVIP, segundo a Fifa O que seria? Very Very Important People? #medodessagente). Desembarcavam ali cartolas, ministros, prefeitos, secretários e secretários dos secretários. Perceber essa divisão entre as pessoas foi o choque número três. Mas não acabou.

Choque número quatro: com tantos VVIP, o mar seria um meio de ataque terrorista óbvio e fácil. Para evitar qualquer atentado, um barco da polícia esteve de prontidão do começo ao fim do evento, garantindo a segurança de todos nós. Enquanto isso, conversava-se, fumava-se e bebia-se a vontade. Até que as portas para o banquete foram abertas.

Cartões nominais espalhados sobre as mesas guiavam os comensais. No mapa de lugares, mais um choque: a Fifa guardou para a área de responsabilidade social uma mesa no lugar mais importante, primeira fila, cara a cara com o palco. Era a patota da “Corporate Social Responsibility” dividindo espaço com o Ministro do Esporte, Orlando Silva, o governador do Rio, Sergio Cabral, o prefeito do Rio, Eduardo Paes, o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, o prefeito de Belo Horizonte, Marcio Lacerda, o ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes, além de Blatter, Teixeira, Havelange, Cafu, Bebeto, entre outros. O que isso significa?

Estava, então, claríssimo que faz parte da reconstrução da imagem da Fifa dar importância à sua área de responsabilidade social. E o cheiro do poder é ludibriante. Pode mesmo embriagar a vista de quem não estiver atento e preparado. Os “privilégios” não paravam: o cardápio em português e inglês anunciava fettuccine de palmito pupunha, camarão ao gengibre com couscous marroquino, filet em crosta de ervas e haricot vert, além de mil sobremesas. E champanhe a vontade. Para nós, serviço na mesa. Para o resto, só buffet.

Havia cerca de dois mil convidados. Na mesa VIP da responsabilidade social éramos nove. Bem poucos para tamanha missão. Em meio ao rega-bofe, o “muito obrigada” em português forçado do Mr. Blatter. Assim que o jantar terminou todo o mundo saiu correndo de volta para o hotel, em um estranho movimento de fuga. Na volta, a mesma escolta vergonhosa, agressiva e, ao mesmo tempo, muito reveladora.

O sorteio

Mas o grande show aconteceria no dia seguinte, na Marina da Gloria. Gastou-se cerca de R$30 milhões, entre prefeitura e governo local, para que o sorteio das partidas preliminares da FIFA World CUP fosse um sucesso e continuasse mostrando a capacidade do país em receber o megaevento. Fui com a convicção e a esperança de que alguma coisa importante pudesse acontecer, além das bolinhas, mas decidi não mais aproveitar a carona em ônibus escoltado. As presenças ilustres contrastavam com a manifestação do lado de fora que pedia “uma Copa do povo” e “ fora Teixeira”.

Para adentrar o local do evento, era necessário passar pelo controle da Polícia Militar, pelo raio x e pelo scanner de bolsas, além de deixar isqueiros ou outros objetos “perigosos” para trás. Na entrada, um corredor com estandes das cidades-sede mostrava as promessas de cada uma, seus merchandisings, marketing propositions, presentations e folders. Tudo em inglês, logicamente. O mundo do futebol internacional não fala português. Mas parece que ama o Brasil.

Soou o sinal e era momento de entrar. A TV Globo não poderia tolerar atrasos. Ventava muito e a tenda ameaçava sair voando. De novo, a elite estava ali, ocupando suas praças reservadas. E o grupo da responsabilidade social, outra vez, na primeira fileira. Foi o choque número seis: apenas dez metros nos separavam de Blatter, Grondona, Teixeira, Havelange, Pelé, Cafu, Neymar, Bebeto, Zico, Zagallo, Ronaldão, e, mais tarde, da Presidente da República do Brasil, Dilma Roussef. Não dava para acreditar.

Choque número sete: repetiu-se muitas e muitas vezes, para todos os cerca de 600 milhões de telespectadores de mais de 200 países, que a Copa do Mundo 2014 é, agora, a “Copa do Mundo da FIFA”. No Brasil, fala-se Copa do Mundo e ponto, sempre foi assim. Agora, a “Copa do Mundo da FIFA” é marca registrada e tem preço.

Os discursos que se seguiram foram elucidativos. Estava claro que Pelé (escolhido como embaixador honorário da Copa) e Teixeira não estão de amizade, que o rei é aliado de Dilma e que a presidente não dá a menor bola para Teixeira ou Blatter. As falas do governador e do prefeito do Rio mencionaram o legado da Copa e ressaltaram avanços nos campos esportivo, estrutural e econômico, na mobilidade urbana e no saneamento. Eduardo Paes passou quase perto ao dizer que “futebol não tem classe social” e que é “um meio de transformação”, porém, não disse nada sobre sua função e seu papel em um mega evento para diminuir as diferenças sociais. Mas citou o ex-presidente Lula e declarou: “o maior legado da Copa é a auto-estima do povo brasileiro”. Mas, e se o Brasil perder a Copa? Suicídio geral?? Choque número oito.

A situação melhorou quando a presidente Dilma subiu ao palco. Falou em liberdade, justiça social e paz como legados. Não era possível iniciar esse evento sem que ao menos essas palavras fossem lembradas. Em resumo: a Copa do Mundo da Fifa é uma coisa. A Copa do Mundo de Futebol, no imaginário do povo brasileiro, é outra coisa. E é de todos.

A partir daí começou o momento bolinhas, uma espécie de bingo. Estrelas como Neymar, Cafu, Ronaldo, Bebeto e Lucas sortearam a teia de jogos eliminatórios até a Copa. Os cerimonialistas vestidos de gala, Fernanda Lima e Tadeu Schmidt, apresentadores da TV Globo, anunciavam cada passo. O deslize ficou por conta de Schmidt, que equivocadamente chamou Ronaldo de Romário, sendo este último persona non grata na Fifa, a ponto de nem aparecer em nenhuma das imagens de futebol brasileiro que se mostrou. Entre um sorteio e outro, com pequenos shows nos intervalos, vídeos de pessoas como Gisele Bündchen (expert no tema), Paulo Coelho (!!) e até Oscar Niemeyer tentavam convencer os presentes da capacidade brasileira de receber a Copa, lembrando que futebol é a paixão nacional, mas esquecendo de seu componente tóxico, o ópio do povo.

Como vocês viram, saí chocada de todo esse espetáculo. Preocupada também. Mas entendi que há um espaço que precisa ser ocupado por propostas e ações e que o momento é agora. Se a Fifa está precisando da ala da responsabilidade social para mudar a sua imagem e nós queremos uma Copa do Mundo com o mínimo de efeitos sociais nocivos – queremos o contrário -, é preciso aproveitar (com olhar crítico, sempre), impôr o papel da sociedade civil e propor alguma alternativa. Porque o pontapé inicial (kick off) da Copa foi dado. Mas é o povo brasileiro que está sendo chutado.

A excelente revista +Soma publicou  há uns dois meses a resenha que eu escrevi pro último disco do Mike Watt, hyphenated-man. Sempre fui muito fã do Minutemen e do próprio Watt. O trabalho mais recente foi uma grata surpresa. Nas curtas composições no disco lançado neste ano, o baixista volta a trabalhar com a estética de síntese musical que ele, D. Boon e George Hurley desenvolviam no início dos 80, a partir dos trabalhos do pintor flamenco Hyeronimous Bosch.  

O punk partiu de uma necessidade de refletir e sintetizar de maneira crítica o que até então havia acontecido no rock. O clichê do punk como inimigo do rock progressivo nada mais é do que uma interpretação pouco aprofundada sobre um grupo de pessoas que se afirmou – no final dos anos 70, começo dos 80 – reconhecendo na música popular para rádio uma estética já formada e que não precisava de diálogo com estilos mais consolidados para ser levada a sério, para dialogar com as outras coisas do mundo.

Nenhuma banda foi tão efetiva nesse sentido como o Minutemen. Inspirados pelo Pink Flag, do Wire, partiram para suas longas reflexões sobre a música em composições de pouco mais de sessenta segundos. Coisa que só amigos, obcecados por som poderiam fazer. Ao longo da carreira, começaram a elaborar esses pequenos fragmentos em composições maiores e em outros tipos de canção, sempre refletindo sobre o rock e sobre o impacto da cultura independente na sociedade.

D. Boon, guitarrista do Minutemen, definia o punk, em tradução livre, como qualquer coisa que queremos que assim seja. Após a sua morte, esta noção de liberdade continuou permeando as carreiras dos dois remanescentes da banda de San Pedro. Mike Watt, o baixista,
principalmente.

Sua trajetória errática no cenário independente americano fez com que Watt passasse em formações que vão dos Stooges aos experimentalismos dos Ciccone Youth. Mas em seus trabalhos solo, sempre parecia que o baixista mais influente da música independente americana estava tateando um caminho. Isso até o incrível “hyphenated-man”.

O disco é chamada por Watt de sua terceira ópera, mas não espere a trajetória de protagonistas com começo meio e fim ou uma interpretação roqueira de algum modelo clássico. Inspirado pelo pintor flamenco do século XV, Hyeronimous Bosch, hyphenated-man é composto de 30 pequenos fragmentos musicais (só uma canção tem mais de dois minutos) que soam como se olhássemos para uma tela cheia de personagens caricaturais e situações bizarras. São peças com significados particulares – como os personagens-provérbio de Bosch –, mas que têm um sentido comum entre elas.

É nesse painel que Watt recupera muito do poder de síntese do Minutemen (são só três instrumentos!), dialogando com a estética que o grupo construiu nos anos 80 (as canções foram compostas em uma antiga telecaster de D. Boon) e com muito da música que formou a sua geração – de Captain Beefheart e Credence a Wire, Black Flag, Gang of Four. O resultado é empolgante e esclarecedor para entender um dos personagens que ajudou a dar forma para o rock como nós o conhecemos hoje.

Nosso amigo Walter Hupsel é colunista do Yahoo e já melhorou bem os conteúdos do Guaci, colaborando por aqui. Em uma semana passada tão triste com as mortes de Abdias d Nascimento, Gil Scott Heron e dos ambientalistas Zé Cláudio Ribeiro e sua esposa Maria do Espírito Santo, além da triste e avassaladora derrota do ambientalismo no Congresso Nacional, a Marcha da Liberdade (e pela maconha que não pode ser mencionada) deu um alento ao insistente conservadorismo e interrompeu uma sequência ininterrupta de repressão de Estado às manifestações em São Paulo que já durava mais de 8 anos. A Vice publicou um relato bem divertido e Walter Hupsel traz um outro olhar sobre o que aconteceu da Paulista a República em São Paulo. 

A gente quer inteiro, por Walter Hupsel


Vamos tentar começar com um lide careta: Sábado, dia 21, teve a marcha da maconha em São Paulo. Na calada da noite da sexta-feira anterior, um desembargador resolveu que não curte estas coisas de liberdade e concedeu uma liminar ao Ministério Público proibindo a marcha com base numa parada que é difícil de entender: apologia ao crime.

Bom, podia falar eu que qualquer protesto para a mudança de uma lei é, por definição, fora da lei, e, por isso, seria esta parada aí de “apologia”. Pro tal desembargador é isso mesmo, conforme-se ou apanhe.

Uns abnegados fizeram a marcha assim mesmo. Acharam que pedir mudança nas leis não é crime, e por isso, ao invés de fazer uma passeata pelo direito de tomar um cafezinho na padoca da esquina, foram falar de liberdade.

A polícia também não curtiu muito isso aí. Durante a marcha da maconha, ofendidos com a tal liberdade de expressão, desceram o sarrafo feio na galera. Jogaram bombas, atiraram balas de borracha com armas de calibre 12 (escopeta). Uma polícia eficiente e bem técnica a da tucanolândia. As imagens são chocantes, assim como os relatos dos participantes. Enfim, a ordem pública foi cumprida, com requintes de crueldade, mas foi.

A violência legal do magistrado e a violência brutal dos gambés irritaram uma galera, que resolveu marcara para o Sábado seguinte uma nova marcha, a da liberdade.

Com a marcha marcada, o mesmo Ministério Público entrou novamente com um pedido de liminar para acabar com a nova marcha, a da liberdade. (só eu que acho irônico uma decisão judicial proibir a liberdade?).

O pedido foi julgado procedente por um outro desembargador, que também concedeu a liminar, também na calada da noite da sexta feira (impedindo que qualquer pessoa viesse a questionar a liminar, por falta de tempo hábil). Fã de Tom Cruise e do Minority Report, este brilhante sujeito viu na marcha da liberdade a possibilidade única de criar a figura do crime avant la lettre. A marcha da liberdade estava proibida porque seria uma marcha da maconha disfarçada, e as pessoas iriam lá pro MASP cometer apologia ao crime.

Mais um motivo pra ir, pensei eu, uma brutalidade desta não pode passar.¡No Passarán!

Fui, cheguei cedo, e comecei a ficar assustadíssimo com a quantidade de policial. Já vi clássicos na Fonte Nova com menos polícia. Mas eles tão certos, gente nas ruas pedindo a liberdade é muito, mas muito mais perigoso que um clássico com torcidas rivais.

O MASP tava lindo. Cartazes, flores, música. Gays, héteros, ecologistas, mães com crianças, ciclistas, punks, feministas… tudo e todos, com suas pautas múltiplas, vetoriais. Cada um querendo a sua liberdade de ser e de falar. Só não tinha políticos (eu, pelo menos, vi só dois: Ivan Valente, PSOL, e Eduardo Jorge – Secretário de Alckmin). Mais fantástico ainda. Política não partidarizada.

Enfim. Marcha da liberdade proibida (novamente: só eu me espanto com esta ironia?), clima tenso, policiais com suas câmeras filmando os participantes. Estranho, bizarro. Liberdade com vigilância não é liberdade, mas, enfim, não dá pra esperar coisas diferentes nesta tucanolândia mesmo.

Os policiais isolaram o MASP num cordão de isolamento, deixando claro que não permitiriam que os manifestantes se manifestassem.(Eu passei por isso em 2000, quando a polícia fez a mesma coisa e, depois que um retardado arremessou uma latinha de coca-cola nos gambés, eles invadiram o vão-não-tão-livre, metendo bala e jogando bombas. A galera ficou prensada entre as bombas e o despenhadeiro do MASP – 9 de julho. Pânico total!. Por causa disso, eu estava meio tenso).
Mas veio a boa notícia: Num acordo entre o Comando da PM e os manifestantes, a passeata foi liberada, desde que não cometesse a tal apologia. Alívio geral.

(aliás, impressão minha ou a PM descumpriu a ordem judicial? Ela tinha que proibir a manifestação, não? Ô TJ, mande prendem o comando da PM por descumprimento de ordem judicial, ou por desobediência militar, sei lá! Afinal, leis über alles, né?).

E a marcha (nomezinho feio, mas…) saiu, tomou às ruas. 4.000 pessoas segundo os sites, 10.000 pelos números dos manifestantes. Não existia palavra de ordem, apenas gritos de liberdade. De liberdade para os gays, para os ciclistas, de um mundo com menos ódio, contra o código florestal, pela liberdade de se questionar a ordem e suas instituições… como já disse, gentes difusas, tal como a sociedade. Foi realmente linda e alegre, mas paradoxal, contraditória.

A marcha da liberdade não podia falar de drogas, de maconha. É crime falar, é a tal da apologia. Assim, sem liberdade nenhuma,tutelada e controlada, filmada pelos senhores da ordem, a marcha foi andando. Um aqui, outro acolá, faziam trocadilhos com pamonha, se dizendo macumbeiro, e coisas assim. Alguns gritos no meio da multidão expressavam a rebeldia, e ousavam falar o inominável. Mas eram gritos tensos, medrosos, que anteviam cassetetes.

A marcha da liberdade existiu, foi bem bonita. Mas não foi livre. Foi “permitida” e não conquistada. Foi uma pequena traquinagem, foi pela metade, e não inteira. E liberdade pela metade é uma não-liberdade. Mas foi algo, algo bem melhor que ficar xingando no twitter, nas redes sociais.

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