Em 2003, a atriz Lana Clarkson morreu com um tiro na boca, na mansão do lendário Phil Spector, também proprietário da arma que a matou. A opinião de quem acompanhou a história oscila entre certeza da culpa do atribulado e irascível gênio que inventou a figura moderna do produtor musical e a desconfiança de que ele não teve pleno direito à defesa, e que Lana andava profundamente deprimida e com papos de suicídio, sua carreira de estrela de filmes B (trabalhou com Roger Corman, por exemplo) há tempos no retrovisor. Em 2009, Phil foi condenado a 19 anos de prisão.

Vikram Jayanti gravou uma série de conversas com Phil Spector, que intercalou com cenas de seu julgamento. O resultado é Agonia e êxtase de Phil Spector (2009), na íntegra abaixo.

Al Pacino encarnará o próprio em Phil Spector, dirigido por David Mamet, produzido pelo canal HBO e com estreia marcada para este mês. Abaixo o trailer.

Alguns clássicos do malucão:

Para saudar a volta do Guaciara, o Jay  pediu uma lista com os meus cinco melhores livros sobre música. Depois de algumas tentativas e a certeza que estava cometendo várias injustiças, achei melhor reduzir o foco e recomendar apenas livros escritos nesse século, em que a indústria fonográfica passa por sua maior revolução desde que os discos começaram a ser lançados no começo do século XX. Por conta desse encerramento de ciclo que coincidiu com a descentralização e a facilidade do compartilhamento da informação, a historiografia musical trabalha com fontes muito mais variadas, embora eu possa dizer pela minha própria experiência que a internet não representa 1% do material aproveitável numa pesquisa, se descontada , claro, a possibilidade do acesso à música propriamente dita.

 Deixei coletâneas de artigos de fora porque servem mais aos que se interessam especificamente por um determinado autor. Tive que excluir trabalhos excelentes, alguns lançados aqui mesmo  no Brasil para não perder de vista que eram apenas cinco. Qualquer um que se proponha a fazer uma lista está lançando um convite à discordância. Eu mesmo vou discordar possivelmente em alguns meses (dias?). Uma lista que precisa parar nos cinco então é um convite a exasperação (como assim? nenhum Simon Reynolds? Resposta: The Sex Revolts é de 1995). Mas vamos lá em ordem alfabética. E Viva o Guaci:

1. Rob Young. Eletric Eden: Unearthing Britain´s Visionary Music ( Faber&Faber, 2011).

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Escrito por um dos editores da revista Wire, este livro parte da música para  capturar  uma tendência de setores da comunidade artística britânica no final dos anos 1960 que se refletiu nas tensões entre um presente mecanizado e os fantasmas de uma ancestralidade pastoral. Espécie de encarnação de romantismo tardio que contaminou  bandas e jovens compositores (Fairport Convention, Incredible String Band, Nick Drake, Vashty Bunian, etc), arquitetos do casamento do rock com a música tradicional de resultado inquietante e também essencialmente  transgressor em suas aspirações. Em princípio um estudo sobre a música folk, Rob Young cobre um arco muito mais amplo projetando elementos dessa mitologia  na obra de artistas que fundiram sua identidade autoral com novas tecnologias  como Kate Bush, David Sylvian e Mark Hollis, líder do Talk Talk. O livro é exaustivo, às vezes prolixo, mas Young compensa de sobra, por ser não apenas um grande pesquisador, mas um analista de fôlego e verve.

2. Paulo César de Araújo. Eu Não Sou Cachorro Não: Música Popular Cafona e Ditadura Militar (Record, 2002)

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Poucos livros tiveram  um impacto tão decisivo nos estudos da chamada MPB quanto essa minuciosa investigação sobre a música de origem popularesca, o chamado “brega”, durante a ditadura militar.  Araújo não se prende muito a debates estéticos, mas aponta como alguns artistas de origem menos favorecida, dotados de uma técnica rudimentar conseguiam tocar em temas incômodos e tabus que incomodavam a censura tanto quanto qualquer canção de Chico Buarque. Uma de suas contribuições decisivas é tirar dos compositores de classe média a aura de mártires da resistência ao regime.O livro tem sido muito utilizado para validar um certo fetichismo sociológico, mas o certo é que Araújo ergueu uma tese sólida e consistente sobre como os mecanismos de exclusão social se estendem a inclinações estéticas motivadas por divisões de classe.E como a  historiografia da música brasileira obcecada com os pólos de “tradição” e “modernidade, ignora quase tudo que não se ajuste nestas trincheiras.

3. John Leland. Hip: The History (Harper, 2004)

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Embora o hipster tenha ganhado maior proeminência após a Segunda Guerra Mundial, John Leland, repórter do New York Times e ex-colunista da  revista Spin, retrocede sua pesquisa aos primeiros navios negreiros que chegaram à América. Tendo em vista o quanto a Califórnia foi um cenário vital para a contracultura a partir dos anos 1950, chega a surpreender como esse livro descreve uma sensibilidade  libertária  típica da Costa Leste americana. Começa com expoentes da literatura do século XIX  (Melville, Walt Whitman, os transcendentalistas da Nova Inglaterra) e segue com a Renascença do Harlem; os beats na Universidade de Columbia e suas relações com a cena do bebop na Nova York dos anos 1940; os textos de Norman Mailer que construíram a mais  controvertida  interpretação e celebração do hipsterismo, ate chegar ao rock cínico e anfetamínico de Dylan e do Velvet Underground e aos punks do CBGB. Não se trata exatamente de um livro sobre música, nem de uma história ortodoxa, a despeito do título (hip é muito mais fácil de perceber do que definir), mas me impressiona  a maneira de Leland unificar os pontos mostrando como esses atores, em conflito direto com culturas dominantes,  foram além da estética para interferir na própria fábrica social, redefinindo  linguagem,comportamento e sexualidade. Sua visão sobre o que significa ser hipster hoje é bem menos generosa.

4. Peter Shapiro. Turn The Beat Around: The Secret history of Disco (Faber & Faber, 2005)

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Um dos grandes méritos do livro de Peter Shapiro é capturar o zeitgeist novaiorquino do começo dos anos 1970 quando a dança, varrida do mapa pelo intelectualismo do rock psicodélico, foi trazido de volta como a melhor tradução de uma cidade que vivia tempos babilônicos de caos urbanos, apagões, lixo nas ruas, criminalidade galopante. A Nova York do movimento gay em ascensão, subculturas que proliferavam em limites geográficos estreitos e de  minorias étnicas cada vez mais economicamente ativas. Foi nesse cenário que se forjou um dos capítulos mais fascinantes da cultura pop, tanto nas ascensão fulgurante quanto na decadência que trouxe a tona sentimentos latentes de homofobia e racismo na sociedade americana e entre veteranos do rock sessentista. Particularmente saborosa é a narrativa sobre a gênese de Saturday Night Fever, o momento em que a disco music  virou fenômeno de massas: um jornalista inglês que não tinha nenhum contato em Nova York fabricou uma historia fictícia sobre jovens da classe operária do Brooklin baseado unicamente  em suas referencias sobre o estilo de vida dos mods londrinos. Apenas a enésima comprovação que em cultura de massas até os fios aparentemente mais desconexos se interligam.

5. Mike Marqusee. Wicked Messenger: Bob Dylan and The 1960s (Seven Stories Press, 2003)

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São muitos os livros disponíveis sobre a vida e obra de Bob Dylan, mas se tivesse que destacar só um ficaria com esse, escrito por um americano radicado em Londres, judeu, militante anti-sionista, também autor de outro ótimo trabalho sobre Muhamad Ali. Não se trata de um ensaio apenas sobre a obra de Dylan no período, mas sobre como ela dialogou com os embates políticos e culturais da Nova Esquerda nos anos 1960, sua complicada relação de engajamento e posterior afastamento do movimentos pelos direitos civis, e paralelos pertinentes com outros contemporâneos como Frank Zappa. Em função desse principio norteador, algumas das passagens mais instigantes abordam projetos em que  o compositor se envolveu muito anos depois, como uma reflexão tardia sobre o quebra cabeças estilístico de sua obra: o infelizmente fracassado filme “A Máscara do Anonimato” no qual Dylan interpretava a si mesmo na pele de outro personagem e sua heterodoxa autobiografia. Marqusee  estabelece uma comparação certeira de um trecho de “Cronicas” com  outro de “Bound For Glory” de Woody Guthrie- o livro que foi o fator fundamental na sua decisão de largar a Universidade para mergulhar numa carreira que redefiniu os rumos da música popular.

*Rodrigo Merheb é autor de O som da revolução (Record, 2012), livro que encabeça a lista deste blog de melhores livros recentes sobre música. O trabalho recebeu o prêmio de melhor ensaio/crítica da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) em 2012.

Aceitamos de elogios a xingamentos, passando pelo xaveco e pela provocação, qualificada ou barata, nomes completos ou completo anonimato, mentiras, sexo explícito e violência gratuita. Mas não admitimos pessoas tentando se passar por outras. Essas a gente exclui e bloqueia.

Sem mais,

A Direção

Esse blog jamais integraria linchamento de quem quer que fosse, mas achamos que a blogueira cubana Yoani Sánchez podia, para remover a sombra da dúvida sobre sua atuação e apaziguar os ânimos em sua passagem pelo Brasil rumo a turnê mundial, responder a algumas perguntas:

(1) se é verdade que, no seu retorno a Cuba em 2004 depois de dois anos na Suiça, recebeu de fonte não identificada cerca de 250 mil dólares, e se esse valor está de algum modo relacionado à sua militância;

(2) em caso positivo, se a origem dessa quantia pode ser revelada sem constrangimentos de ambas as partes;

(3) se é verdade e se não há nenhum motivo para ocultar as visitas que mantinha ao então chefe da seção de interesses norte americanos (SINA) em Havana, Michel Parmly, documentadas e divulgadas pelo Wikileaks;

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Sede da Sección de Intereses de los Estados Unidos (SINA) em Havana, Cuba, ou a lanhouse de Yoani?

(4) se ela sabe que as respostas de sua suposta entrevista com Obama foram redigidas não pelo presidente norte americano mas por um funcionário da mesma SINA;

(5) se ela recebe suporte técnico e financeiro para manter seu blog e conta de twitter cuja escalas seriam inviáveis com o acesso precário de que alegadamente dispõe em Cuba e se é verdade que usa recursos artificiais para inflar a quantidade de seguidores de sua conta no twitter.

Eu ouvi demais esse disco em 2011-2012. Já tinha pirado com Sighs trapped by liars, de 2007, disco da mesma parceria entre Mayo Thompson e o grupo de arte conceitual anglo-americano, mas essa sequência de retratos musicais de uma lista idiossincrática de figuras icônicas norte-americanas  - Wile E. Coyote, George W. Bush, Jimmy Carter, John Wayne e Ad Reinhardt – grudou na cabeça. Abaixo a íntegra do disco.

John Ford preferiu, na sua versão da vida de Abraham Lincoln, retratar sua juventude. Em Young Mr. Lincoln (1939) Henry Fonda posa para o retrato do Lênin americano quando jovem: um letrado do interior, o filósofo-jurista tímido, honesto e destinado à grandeza, uma figura saída de uma pastoral de um Walt Whitman meio chauvinista, o “Abe” que, segundo a canção de sua campanha presidencial de 1860, “came out of the wilderness“. Uma versão bom-moço dos personagens de Ford que John Wayne já encarnara em No tempo das diligências, do mesmo ano, e que encarnaria, como milico e como caubói, em uma sequência de filmes.

Quando estabeleceu banca de advocacia em Springlfield, Illinois, em 1836, aos 27 anos, Lincoln já havia participado de uma guerra contra índios nativos, e veteranos da guerra de independência americana (1776) ainda perambulavam pelo país.

O filme termina sob glória, glória, aleluia, a imagem do monumento Lincoln real (esculpido dezenove anos antes do filme de Ford, em 1920) ao fundo – a última frase do filme é o verso cantado pelo coro: “his truth is marching on” (que é exatamente como termina também Abe Lincoln em Illinois, de John Cromwell (1940), os mesmos versos acompanhando o trem que levará Lincoln a Washington DC). Dois anos depois do filme de Ford, os americanos retaliariam os japoneses, iniciando sua participação na Segunda Guerra Mundial e marcando sua entrada triunfal no centro do palco do século XX.

Ajuda, acho, a pensar no São Lincoln dos Últimos Dias do Spielberg.

 Esse comentário foi escrito em resposta a uma reportagem de Uirá Machado, na Folha de São Paulo, à época das eleições municipais de 2012. Nela o jornalista relatava – ironizava, sejamos justos – a suposta petulância de passagens da tese de doutorado do então candidato Fernando Haddad, defendida no departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo, em que ele comentava com viés crítico a obra de filósofos, clássicos e contemporâneos, globais e locais. Me incomodou nela não apenas o subtexto amarrozado, por assim dizer – José Serra despencava rumo à derrota, Haddad subia nas pesquisas, o que pode ter ou não incomodado parte da equipe, ou mais propriamente da direção, daquele jornal, e daí a pauta meio gratuita – mas a falta de compreensão da natureza da própria vida intelectual, institucionalizada em universidades e suas dinâmicas e ritos, puramente acadêmicos ou nem tanto. O texto fez que ia sair na própria Folha mas não saiu, e ficou guardado na gaveta. Tomando carona na iniciativa do Lauro, o guardião eterno do Guaciara, resolvi postar o bichinho para ele pelo menos tomar um ar. É meio metido a sério e posudo, talvez, mas a intenção era tentar não contaminá-lo com o calor das eleições. Eu o dediquei na época, e dedico aqui novamente, à memória do professor Antônio Flávio Pierucci.

            A vida intelectual é fundada no conflito. Inovação e criatividade, em todas as áreas da vida acadêmica, pressupõem oposições e rivalidades. A imagem convencional do filósofo ou do cientista metido com seus pensamentos em seu gabinete, ou tomando notas solitariamente durante a pesquisa de campo ou no laboratório para depois apresentar, triunfalmente, seus resultados a uma audiência embasbacada, satisfaz nosso desejo de paz e concórdia na Torre de Marfim (o já folclórico azedume da política acadêmica à parte) – afinal, seus habitantes estariam desde sempre envolvidos em uma busca compartilhada pela Verdade –, mas é falsa. “Não devemos nos esquecer”, escreveu o economista Joseph Schumpeter, “que escolas de pensamento são realidades sociológicas. Elas possuem estruturas próprias – relações entre líderes e seguidores – suas bandeiras, seus gritos de guerra, seus humores, seus interesses demasiado humanos. Seus antagonismos fazem parte da sociologia dos antagonismos de grupo e das guerras de facções. Vitória e conquista, derrota e perda de território, são em si mesmos valores para todas as escolas de pensamento, e parte de sua existência”.

Dar um passo atrás e olhar com certa distância sociológica os episódios de disputa intelectual pode nos deixar menos assombrados com sua aparente violência ou falta de modos e entender melhor os motivos estruturais que levam a vida acadêmica a se organizar em torno dessas rivalidades.

Territórios em disputa

Intelectuais têm em comum com gangues juvenis e Estados o fato de disputarem espaços escassos. No caso destes últimos, estão em jogo áreas de controle e influência – seja o do comércio ilegal em um bairro ou de recursos naturais estratégicos – via o monopólio, legítimo ou de fato, do exercício da violência. No caso dos primeiros, está em disputa o que se convencionou chamar de espaço de atenção intelectual – o lugar da “ação intelectual” –, igualmente escasso. Assim, onde há criatividade intelectual há rivalidade em função da disputa por recursos via de regra minguados. O campo intelectual se divide historicamente em no mínimo duas posições (uma andorinha só não faz verão) e no máximo seis. Abaixo disso há estagnação intelectual, pouca ou nenhuma criatividade, repetição e ortodoxia, o fantasma de alguma figura proeminente que esqueceu-se de deixar tarefas instigantes para a geração posterior; acima desse patamar máximo, há uma cacofonia que se sustenta por pouco tempo e indica um período de crise e reorganização dos espaços de atenção. Não é de surpreender, então, que, assim como no caso gangues e Estados, o padrão básico da vida intelectual seja o de formação de alianças e o estabelecimento de rivalidades.

 Gentileza e acrimônia

Essa rivalidade pode assumir, no entanto, pelo menos duas formas diferentes. Quando se trata de demarcar uma nova posição a partir de um capital cultural herdado, ao qual o membro de uma nova geração queira se associar sem se subordinar, o racha pode ser gentil: “Platão é um grande amigo”, teria dito Aristóteles a respeito de seu mestre, “mas a Verdade uma amiga ainda maior” (verdade aqui sendo um código para “minha posição”).

Mas as rivalidades podem ser mais intensas e azedas, em especial quando se trata de intelectuais que por força das circunstâncias, e não por falta de talento, se viram excluídos dos espaços de atenção disponíveis. Schopenhauer dava pulos de ódio ao ver seu colega Hegel assumir a posição de super star do Idealismo alemão, arrastando pequenas multidões para suas conferências enquanto as de Schopenhauer ficavam literalmente às moscas. Ambos foram alunos de Fichte, ambos estavam na linha de sucessão prontos para assumir o papel de nova eminência da filosofia na Alemanha. Mas tratava-se de uma cidade pequena demais para os dois, e Schopenhauer teve sorte de viver o bastante para ser redimido pela geração seguinte de intelectuais (entre eles, famosamente, Wagner e Nietszche) e salvar-se de uma provável condenação a uma posição secundária no panteão do Idealismo.

Boa parte do caráter corrisivo da prosa de Marx também pode ser atribuída ao sentimento de ter ficado, em vida, de fora do agito. Os alvos de sua crítica ácida em A ideologia alemã – Feuerbach, Bruno Bauer, Stirner – haviam sido seus companheiros de círculo de discussão filosófica, e todos saíram na frente com a publicação de seus sistemas. Bakunin e outras figuras do movimento revolucionário que provaram do veneno de sua pena também haviam conseguido se sentar primeiro na cadeira que Marx julgava ser sua por direito. (Postumamente, Marx assumiria o papel de padroeiro de (quase) toda revolução, real ou imaginária).

Há ainda uma outra espécie de acrimônia na disputa intelectual, quando o que está em jogo é um embate não intra, mas intergeracional. Aspirantes correm o risco de parecer pouco originais, ainda mais quando trabalham sob as asas de um intelectual eminente. Nesses casos o embate pode ser mais incisivo, quando o aspirante pressente no ar a abertura de novos espaços a serem ocupados por quem tiver mais talento ou chegar primeiro. Muitas vezes a estratégia de sobrevivência de quem não quer assumir o lugar mais modesto de seguidor é atirar para todos os lados. O conflito é constitutivo do mundo intelectual, e condição para que seja um ambiente marcado pela criatividade e não pela repetição escolástica de ortodoxias.

Lutando morro acima

Esses lembretes sobre a natureza conflitiva do mundo intelectual ajudam a repensar o sentido das anedotas acadêmicas recontadas por Uirá Machado em artigo nesta Folha, envolvendo o professor e candidato a prefeito Fernando Haddad e outras figuras importantes da faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo, o filósofo José Arthur Giannotti entre elas, assim como dos comentários supostamente pretensiosos de sua tese de doutorado.

É claro que, feitas as contas, academicamente Haddad, enquanto aspirante, estava lutando morro acima. Gerações anteriores – Giannotti, Ruy Fausto e Paulo Arantes, para ficar com exemplos locais – estabeleceram um padrão altíssimo para os estudos de clássicos da filosofia moderna, Hegel e Marx entre eles.

Discordar de um intelectual e elegê-lo como rival, no entanto, é reconhecer sua centralidade no debate.“Para manter-se na linha de frente da ação intelectual”, escreveu o sociólogo norte-americano Randall Collins, que reconstruiu em detalhes esses vínculos de conflito que atravessam a longuíssima história universal dos intelectuais, “é preciso estar antenado com o ponto onde as linhas de oposição estão em mutação; um intelectual formula não apenas a sua posição, mas a sua posição enquanto distinta de posições que são muito parecidas com as suas, e também enquanto ponto de oposição às de seus  rivais proeminentes.”

Intelectuais estabelecidos e aspirantes entram necessariamente em oposição. Muitas vezes são pesos-pesados, e o ruído dos sopapos que trocam, muitas vezes em público, pode assustar uma audiência menos acostumada à rispidez dessas situações. Um murro de George Foreman poderia custar a vida a mim e a você; Muhammad Ali, no entanto, aguentou oito rounds seguidos de jabs, diretos, cruzados e uppercuts do então campeão até levá-lo à lona. Foreman jamais deixaria isso acontecer se seu rival não soubesse bater e apanhar como gente grande.

Refração

É claro que o debate intelectual reflete – ou antes, refrata – outros posicionamentos: políticos, por exemplo. Como o próprio artigo nos lembra, a tensão espelha uma outra, entre PSDB e PT. Essa é a principal lição do estudo de Pierre Bourdieu sobre a “ontologia política” de Martin Heidegger. A interpenetração de crise econômica, política e universitária dos anos 1920 na Alemanha se traduziu, na obra de Heidegger e de outros pensadores conservadores contemporâneos seus, numa metafísica da decadência. Da mesma maneira, quando um intelectual favorece uma ou outra interpretação de um clássico (como Marx ou Habermas) também indica onde repousam suas lealdades, filosóficas mas também políticas.

As regras do jogo

O que soa como desrespeito e pretensão é, nessa perspectiva, indício da autonomia do debate intelectual num país cuja democracia mostra sinais de boa saúde, no qual política e universidade se interpenetram sem se colonizar. Um ambiente que permite que intelectuais conduzam seus embates em termos puramente – ou quase – disciplinares, disputando interpretações e pretensões de validade no seu jargão próprio, jogando um jogo cujas regras todos reconhecem como legítimas, ainda que vez por outra alguém na geral grite “falta!”.

Publiquei esse texto no caderno Ilustríssima, em maio passado. Enrolei pra subir ele aqui, mas as insinuações de um romance entre o filósofo esloveno Slavoj Zizek e Lady Gaga – ou seria uma amizade intelectual ? – me animaram a colocá-lo à disposição do pessoal que acompanha o blog. 

Com essa suposta amizade intelectual – ou seria um romance? – a fera subiu no meu conceito. Ainda mais considerando os lances cabeça que ele falou do vestido de carne da ídala pop. 

O texto saiu no dia 15 de maio, e agradeço ao Paulo Werneck, editor do caderno, pelas sugestões e mudanças no texto final. As groselhas são de minha responsabilidade, 100%, como se diz.

Zizek, sobre Lady Gaga: "Filé."

SLAVOJ ZIZEK É HOJE a figura mais pública entre os intelecuais ligados à “esquerda radical”. O entusiasmo em torno de seus livros e de suas aparições ao vivo lhe renderem o apelido, a princípio irônico mas –numa torção de sentido bem a seu gosto– hoje assumido, de “Elvis Presley da crítica cultural”.

Zizek recolocou a filosofia e a crítica social marxista na atenção do público e da mídia –e parte desse sucesso pode ser atribuída, como em todo popstar, a seu carisma, mas também à sua insistência em provocar seus interlocutores independentemente do lugar que ocupem no espectro político. Sua incrível capacidade de dar respostas às questões mais atuais e urgentes –dos filmes mais recentes de Hollywood à crise econômica mundial, passando pelos fatos e factoides que enchem os jornais– o colocou no centro das atenções de um público ávido por explicações que desvelem a intricada natureza do capitalismo global.

Para Zizek, tudo sob o sol é, segundo a expressão de Claude Lévi-Strauss, “matière à penser” – tudo é material para o pensamento, e tudo esconde (e revela, para o bom observador) as contradições da modernidade capitalista.

 

MARX E LACAN Zizek pôs em circulação uma abordagem crítica que combina marxismo filosófico e psicanálise lacaniana.

Essas perspectivas teóricas o habilitam a questionar discursos e realidades da sociedade capitalista como apenas uma parte de uma história malcontada: as promessas de liberdade e igualdade, inscritas na imagem que a sociedade burguesa construiu de si mesma desde a Revolução Francesa, são antes uma promessa jamais cumprida ou uma dádiva distribuída desigualmente entre exploradores e explorados.

Da mesma forma, democracia liberal e Estado de direito são antes formas de bloquear as energias utópicas liberadas pela revolução de 1789 e por outros “Eventos” (segundo a expressão de Alain Badiou empregada por Zizek) revolucionários, do que sua realização institucional. A história da sociedade moderna é, assim, uma história de usurpação de potenciais de emancipação, e cada volta no parafuso significa mais uma vitória do capitalismo.

A HIPÓTESE COMUNISTA É por isso que, para Zizek, a derrota histórica do comunismo não é a prova definitiva de que seu conteúdo utópico estivesse equivocado. Seu fracasso é antes sinal de que a ideia de comunismo carregasse consigo o potencial emancipador definitivo.

Assim, a “hipótese comunista” (outra expressão de Badiou) é atual: numa época em que a natureza, o código genético da espécie humana e as energias criativas dos indivíduos estão sob ameaça de apropriação pelo Capital (na forma de catástrofes ecológicas, da biotecnologia e da propriedade intelectual), é necessário recuperar a ideia dos “comuns”, cuja privatização devemos resistir a todo custo.

O preço de abandonar a hipótese comunista à lata de lixo da história, defende Zizek na coletânea de ensaios “Em Defesa Das Causas Perdidas” [trad. Maria Beatriz de Medina, Boitempo, 477 págs. R$], é transformar em realidade a profecia de Francis Fukuyama, para quem a derrota do bloco comunista sinalizou a vitória definitiva do capitalismo.

 

TERROR REVOLUCIONÁRIO Assim como a hipótese comunista precisa, para Zizek, ser recuperada, também a ideia de “terror revolucionário anti-humanista” precisa ser salva de seus detratores modernos. Historiadores conservadores como Edmund Burke viram na Revolução Francesa uma erupção de violência inumana. Essa imagem contaminou a própria ideia de revolução, colocando-a fora do espaço da política –legitimando a “democracia liberal” como única forma possível de ação na esfera política.

Mas é nesse “lado de fora” da política que o “terror” precisa se manter. A convergência completa de interesses entre o sistema político moderno –na forma atual das democracias liberais de massa– e o sistema econômico neutraliza o potencial transformador da democracia.

O terror, para Zizek, é a imposição “violenta” da vontade do povo sobre as esferas sociais que se autonomizaram e renovam eternamente as relações de dominação (em especial, a esfera econômica). Sem esse momento de imposição radical da vontade não há terror; sem terror não existe revolução e, sem revolução, não há emancipação.

A capacidade do sistema capitalista de reinventar-se, de domesticar energias utópicas e eternizar-se faz com que suas crises sejam apenas mais uma forma de se fortalecer, assim como o personagem Jason da série de terror “Sexta-Feira 13”, que é sempre (aparentemente) morto ao final dos filmes, para alívio dos personagens que escaparam da carnificina, apenas para retornar com sede de violência redobrada.

 

CRISE A perspectiva de recusa radical, no entanto –a desconfiança total das instituições do mundo moderno– prejudica o alcance e o interesse da própria crítica.

Em seu breve comentário da crise de 2008, recém-lançado no Brasil, “Primeiro como Tragédia, Depois como Farsa”, Zizek ironiza as propostas (“liberais”) de reformar as instituições de regulação da economia a fim de evitar que crises como essa se repitam.

Para ele, crises econômicas são manifestações das contradições estruturais do capitalismo, e nem a indignação moralista (a denúncia da “ganância” de Wall Street) nem as boas intenções liberais (maior regulação dos mercados financeiros) são capazes de evitar que voltem a acontecer. O fato, no entanto, de o sistema capitalista ainda estar sujeito a essas instabilidades mostra que, mais uma vez, as profecias e celebrações sobre o “fim da história” estavam equivocadas.

 

Desenho do Rafa Campos Rocha que acompanhou o artigo na Ilustríssima

LIMITAÇÕES Mas a repetição parece dar-se também em outro nível, no interior da própria crítica. O entusiasmo, ecletismo e vigor intelectual de Zizek nem sempre compensam as limitações de uma perspectiva crítica que parece cada vez mais autorreferente. Como nos exemplos mais pedestres do universo do pop, Zizek adquiriu o hábito de dar à sua audiência exatamente o que ela quer: uma repetição dos motivos pelos quais devemos adotar a postura de recusa radical e exigir nada menos do que a revolução total.

O caráter “totalizante” da crítica resulta em uma perspectiva que nivela tudo: a relação de Heidegger com o nazismo é redimível quando consideramos que ele estava impressionado com a radicalidade da recusa ao mundo moderno que parecia ser, ao menos a ele, Heidegger, o centro da agenda do partido nacional-socialista alemão. Para Zizek, ele andou certo, mas na direção errada, ao entusiasmar-se com a promessa de um Evento revolucionário –que, por ironia da história, se revelou assombrosamente o oposto.

Como muitos ídolos pop, Zizek sabe colocar diante de si uma imensa máquina de promoção que coloca em segundo plano o que deveria ser o centro de seu espetáculo: suas intervenções são infelizmente cada vez mais previsíveis, quando não superficiais (em seu livro há pouca ou nenhuma novidade que ajude a compreender e enfrentar a crise de 2008).

VISÃO SOMBRIA Acima de tudo, a crítica da democracia e a defesa do “terror” coloca Zizek no campo oposto àquele onde se esperaria encontrá-lo. Não é de hoje que a esquerda radical flerta com teorias do poder conservadoras que, de Thomas Hobbes (1588-1679) a Carl Schmitt (1888-1985), dispensam noções de legitimidade, participação e autonomia em nome de uma visão sombria do poder político como uma força que emana de si mesma e que opera não a partir de processos intersubjetivos racionais, mas segundo a imposição de uma vontade soberana.

Não é à toa que Zizek encerra “Em Defesa das Causas Perdidas” elencando as exigências igualmente sombrias que se impõem a nós se quisermos evitar a catástrofe ecológica: além da justiça igualitária, que deverá exigir sacrifícios de todos, e de um “voluntarismo” que confere legitimidade a “decisões coletivas em grande escala”, devemos recuperar as figuras do “terror”, na forma da “punição impiedosa” dos que violarem as medidas impostas (com “controle tecnológico dos que desrespeitarem as leis” se necessário), e da “confiança no povo” – cuja manifestação, segundo Zizek, é a reativação de “uma das figuras do terror igualitário-revolucionário”: o informante.

É irônico, para não dizer decepcionante, que as energias críticas do pensamento radical estejam voltadas à defesa da agenda totalitária e policialesca da delação e da punição violenta. O fantasma de Carl Schmitt parece rondar a esquerda radical, e não necessariamente na forma de assombração.

O fim de 2010 não foi legal, preciso reconhecer. Fechei pra balanço, parei tudo para lamber umas feridas, mas virou o ano e ano novo, como dizem, é vida nova. Pensei nesse postzinho modesto, um guia para quem mergulhou, bateu no fundo, mas tá subindo de volta. Espero, sinceramente, que não seja o caso de nenhum dos queridos e queridas companheiros e companheiras desse blog.

Um beijo pros anjos do meu Samu particular, serviço de resgate emocional como eu não imaginava existir.

Feliz ano novo a todos.

1o movimento: Tá estranho.

2o movimento: Putz, fodeu.

3o movimento: Carai.

4o movimento: Bom, paciência.

5o movimento: Quer saber? Foda-se.

6o movimento: E depois virar fotografia.

Desde o começo do ano, tenho tocado a revista Novos Estudos, publicada pelo Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, o Cebrap, aqui em São Paulo. A Novos Estudos está prestes a fazer 30 anos, uma façanha para publicações desse tipo no Brasil: desde sua criação, em 1981, a revista procura ser um espaço multidisciplinar de discussão de temas cruciais da atualidade nos campos da política, economia, cultura e sociedade, brasileira e mundial.

Tenho me esforçado para manter o padrão de qualidade da revista: ensaios e artigos científicos originais, que contribuam de forma definitiva para suas áreas e que ajudem o público leitor a entender melhor a realidade em suas várias facetas, além da tradução de artigos com o mesmo perfil.

Na minha ainda breve gestão como editor, me orgulho de ter publicado nos três números de 2010 artigos como o relato sobre o terremoto no Haiti e suas consequências, pelo antropólogo da Unicamp e ex-editor da Novos Estudos Omar Ribeiro Thomaz (acompanhado de um ensaio fotográfico de Cris Bienrrenbach, da equipe de Omar, que registrou o terremoto); uma avaliação profunda e engajada do 3o Programa Nacional de Direitos Humanos, feita pelo professor Sérgio Adorno, da Universidade de São Paulo; e um ensaio de Jacques Rancière, sobre realismo literário e democracia, todos os três no número 86, de março deste ano. A edição de julho (87) trouxe um dossiê de avaliação do governo Lula, com artigos de Glauco Arbix (sobre política de ciência, tecnologia e pesquisa), do embaixador Rubens Ricupero (sobre política externa), do professor Ricardo Abramovay (sobre políticas de desenvolvimento sustentável) e uma análise política de Fábio Wanderley Reis, além de ter colocado pela primeira vez à disposição do público brasileiro traduções para o trabalhos do historiador da ciência norte-americano Steve Shapin, um artigo sobre a “darwinmania” que tomou conta da Inglaterra em 2009 e o que ela revela sobre o entendimento (e principalmente a sobre a falta de entendimento) do lugar da ciência na cultura moderna e do seu conterrâneo e crítico e historiador da arte Michael Fried, sobre o filme Zidane, de Douglas Gordon e Philippe Parreno. E ainda um breve ensaio do sociólogo sueco Göran Therborn, onde formula uma tipologia da desigualdade.

O último número deste ano (novembro/88), que chega aos assinantes e às livrarias no fim dessa semana, me deixou bastante satisfeito, também: o número me parece bastante atual e atento a questões urgentes. Eugênio Bucci preparou uma análise sobre as experiência com TV pública no Brasil; Fernando Limongi e Rafael Cortez analisam os resultados das eleições de 2010; o professor André Singer dá continuidade às suas reflexões sobre o governo Lula em artigo sobre os rumos do PT; Eunice Durham resgata a trajetória das políticas educacionais das últimas décadas; Tadeu Chiarelli fornece algumas razões para que se comece a repensar as interpretações mais estabelecidas da arte moderna brasileira, e o eminente cientista social mexicano Victor Manuel Durand Ponte analisa a origem da presente crise social mexicana.

Ainda, a revista traz um dossiê com três artigos sobre Joaquim Nabuco, em homenagem aos 100 anos de sua morte, com artigos de Marco Aurélio Nogueira, Angela Alonso e Leslie Bethell. Por fim, a NEC (como carinhosamente a chamamos, pelo menos por escrito) de fim de ano traz um relato do dia a dia nos territórios palestinos e as limitações colocadas à vida cotidiana de seus habitantes pela política de controle territorial do governo israelense, escrito pelo intelectual palestino radicado nos EUA e professor da Universidade da Califórnia Saree Makdisi.

A arte da capa e o ensaio visual dessa edição ficaram a cargo de Fabio Zimbres, encerrando com classe o ano, que trouxe também os trabalhos de João Loureiro (no. 86) e Ana Prata (no. 87).

Assinar a revista é incrivelmente barato. Graças ao auxílio da Fundação Carlos Chagas, temos conseguido viabilizar a revista a um preço justo. Se você se interessou, considere a possibilidade de fazer uma assinatura.

Instituições de ensino e centros de pesquisa podem também receber, gratuitamente, uma coleção de Novos Estudos. É só pedir com jeitinho.

E, nessa sexta, a Novos Estudos e o Cebrap recebem o professor André Singer para o seminário “A segunda alma do Partido dos Trabalhadores”, às 16h. O evento marca também o lançamento do novo número da revista. Confira aqui o artigo de Singer.

Boa leitura.

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