No fim de 2008 comecei a usar, eventualmente, a bicicleta como meio de transporte aqui em São Paulo. Uma idéia bastante estúpida, considerando que a cidade – como o Tiago vem relatando na série “Congestão” – é um caos completo, e seu trânsito agressivo e violento desanimam até algumas pessoas a aprender a dirigir: preferem não correr o risco de transformar suas vidas num inferno ainda mais completo, como naquele desenho animado clássico do Pateta.

De lá pra cá, passei a usar a bicicleta com certa freqüência, primeiro num estilo ultra-urbano de lazer – pedalada na hora do rush, quando a cidade fica completamente parada e os corredores entre os carros formam uma pista estreita mas livre – e, mais recentemente, para ir trabalhar. Faço diariamente, ou quase, o trajeto Pinheiros-Vila Mariana-Pinheiros, o que me permite passar por dentro do parque do Ibirapuera a caminho do trabalho. Muito bom poder usar um parque como local de passagem – um lugar mais silencioso, calmo, arborizado e bonito do que as avenidas que o contornam.

No domingo passado, resolvi ir conferir a Ciclovia do Rio Pinheiros, um projeto do governo do estado e da prefeitura. É tão bizarro que tenho muito pouco a dizer.

Em primeiro lugar, é uma gambiarra que aproveita a pista de manutenção entre o rio e a linha de trem. Passaram uma mão de tinta, instalaram uma cerca super frágil para impedir que alguém caia dentro o rio e meteram uns banheiros químicos a cada tantos quilômetros. Pronto: um equipamento de lazer feito no improviso, o que é sempre sinal de má vontade.

Em segundo lugar, a tal da ciclovia liga o nada a lugar algum. É uma faixa de 14km com saídas apenas nas pontas, e que termina – o punchline de mais essa piada macabra que o demotucanato  nos aprontou  - no aterro sanitário de Santo Amaro.

Em terceiro lugar, e ligado ao segundo, a ciclovia é só para lazer, e todo mundo sabe que a bicicleta precisa passar a ser seriamente levada em conta como parte da solução para o problema da mobilidade na cidade de São Paulo. Dizem que nas reuniões que a prefeitura promove sobre o tema jamais comparecem representantes da pasta de transportes, apenas o pessoal de lazer e cultura.

Em quarto lugar – a ciclovia, em toda sua extensão, margeia o que deve ser o maior esgoto a céu aberto do planeta. O cheiro é podre, fétido, nauseante, mistura de resíduo industrial e toneladas de dejetos humanos. O ponto de acesso da Vila Olímpia dá na Usina de Traição, onde a água é mais podre ainda, porque quase parada. Todo o passeio é temperado com um cheiro espesso de merda humana.

O que me leva ao quinto lugar – cadê o projeto de despoluição dos rios Pinheiros e Tietê, com grana japonesa e o caraglio, em torno do qual o Alckmin, quando governador, fez tanto estardalhaço? Um projeto sério como esse é colocado na gaveta, e esse factóide político o substitui.

Até as capivaras do rio Pinheiros sabem que o Serra e o Kassab não fazem o que deviam fazer

Acho que esse poderia ser um dos grandes emblemas do estilo de governar do demotucanato. Improvisada, a ciclovia satisfaz um eleitor que não sabe, nem nunca vai saber, quando está sendo feito de idiota. A inauguração da ciclovia serviu de palco para a velha e a nova direita de São Paulo – Serra, Kassab e Soninha Francine. Recebeu apoio do pessoal militante que, de tanta boa vontade, vira vítima muito facilmente.

Eu não tirei a foto, mas vou descrevê-la aqui para fechar o post: uma mulher, com seu marido, lá pela casa dos 40, bicicletas novas, cara de moradores do Itaim e eleitores do Serra e do Kassab, pedalando na ciclovia num domingo ensolarado, respirando merda e sorrindo. Tem monumento melhor ao estilo paulistano de ser idiota? Não tem.

Depravação e sadismo: "O ciclo da merda", segunda parte de Saló, de Pier Paolo Pasolini, inspira as políticas públicas paulistas e ilustra a complexa psicologia dos eleitores do estado