Em 1943,um avião da Luftwaffe nazista cai em um deserto de rochas da Criméia com o então jovem telegrafista das forças armadas da Alemanha: Joseph Beuys . Fato ou não, a partir dali um artista criou uma mitologia em que a criatividade transforma os sentidos de alguns materiais e esse novo uso dos significados há de curar o mundo. O dever do artista passa a ser compartilhar relações criativas com as coisas.

Em 1972, Joseph Beuys já é o artista mais conhecido da Europa. Desenhista e escultor virtuose, tornou-se famoso pelo modo de agrupar os seus materiais artísticos e pelo sentido que dava a arte, vista mais como uma ação sobre o mundo comum que uma criação de alguma imagem em separado do mundo. Por isso, ele se recusava chamar as suas performances com esse nome. Para ele, tratavam-se de ações, ações efetivas de transformação do mundo.  Sua obra de arte já é uma maneira de militância. Ele atua em tudo que toca, como se sensibilizasse os objetos.

Suas aulas também pretendem ter o mesmo efeito. As aulas foram como quase todas as suas apresentações: uma forma de criar. Diante de uma sala super-lotada, por onde já haviam passado nomes da cultura alemã como o pintor Anselm Kiefer e Conrad Schnitzler do Kluster, por exemplo, ele criava um evento, uma forma de friccionar a criação com o mundo, como ele fazia com seus materiais.

Por isso, em 1974, ele abre a Universidade Livre Internacional, junto com o escritor Heinrich Böll, despreocupado com o estatuto das coisas e mesmo com a possibilidade de se fazer arte. Aliás, isso sempre me fez duvidar, mesmo sem saber nada de alemão, (aliás, talvez por isso) da interpretação da frase: “Jeder Mensch ein Künstler” como “Todo mundo é um artista”

O artista abriu um dos seus cursos com a frase, o que me parece, se traduzido desta forma, paradoxal.  Se Beuys buscava uma ideia ampliada da arte em que ela, no limite, deixaria de existir, para que deixar que seus alunos carregarem uma honraria tão putrefata?

Parece mais apropriada a tradução que vi no texto de Adolfo Vásquez Rocca, a tradução literal : “Cada homem, um artista”. Que se parece com: “Cada cabeça, uma sentença”. Mas embora afetasse dar tão pouca bola para a arte, em um artigo belíssimo, o crítico inglês David Sylvester revela o quanto disso era balela e quão grande era a cultura artística do alemão.

Em 2009, eu tento toda a sexta postar uma música neste blog. Sempre varia. Como a vida anda dura, na última sexta não deu, me atrasei e postei hoje. Acho que nunca postei algo tão heterodoxo com0 o que insiro hoje.  Às vezes sou motivado por razões afetivas, razões militantes ou pela vontade de mostrar algo que todos deveriam ver.

O motivo para este vídeo combina todas as razões apresentadas antes e mais algumas. Como não sei postar as músicas, sempre posto vídeos do youtube. Hoje, mais do que nunca, a imagem se faz necessária.Pois ela acontecerá em absoluto silêncio diante de um rosto. É quase uma experiência cageana. Diante de um silêncio tão dramático, a experiência se mostra arrebatadora, como diante do Laocoonte. Embora se pareça com os filmes de Andy Warhol, o filme apela aos sentimentos, diante de uma expressão fria. Ele nos encara, como se esperasse alguma reação. Ficamos diante do silêncio, e do aprisionamento do personagem Beuys em um espaço tão diminuto, a perceber tudo.

Beuys vem da experiência da Alemanha nazista. Que abalou a confiança alemã no progresso, na afirmação da ação e na racionalidade técnica como caminho para libertação das amarras primitivas. O que havia de mais sofisticado no saber técnico acabara de ser usado no extermínio e tornava-se uma intolerante forma de obscurantismo.

Portanto sua ação vai com bastante vagar, não descaracteriza os elementos orgânicos que usa. Ao colocá-los lado a lado, eles surgem, mais pacientes. Nota-se que com o tempo as imposições de suas atribuições funcionais vão sendo esquecidas. As partes passam a se energizar mutuamente, retirando os elementos de sua opacidade cinzenta e nos fazendo perceber nossa indiferença, que mediava nossa sensibilidade como escama.

Nessa busca de uma verdade das coisas, o artista procura estender as capacidades sensitivas do homem. Tal procedimento se estende para as “ações” do artista. É conhecido o episódio de sua conferência, onde ele convidou a audiência a aspirar o ar com ele, sentindo o que poderia existir de singular e intenso lá. É desse desejo de reconciliar o homem com seu mundo, em uma troca energética permanente, onde um revitaliza o outro, que parece se alimentar a obra de Beuys.

A redenção do homem com as coisas parece o fim que o artista queria nessa troca de forças. De fato ela não ocorreu. Mas a força de Beuys não se dá no campo das intenções. Provavelmente, nossa relação com o mundo hoje é mais predatória. Mas a obra de Beuys nos abriu a possibilidade de a arte se reconciliar com o mundo, tornando-se capaz de mostrá-lo reavivado a nós e vice-versa. Seus objetos, quando reunidos criam uma espécie de fricção, emque nada mais se apresenta como antes.

Hoje, o artista está em baixa na interpretação. Cansei de escutar aqui e acolá argumento sobre a fragilidade de seus argumentos e de suas profecias. Ele falava coisas que pareciam sem nexo, mostrava objeos que hoje parecem inocentes, mas de forma geral, foi um esforço de mudar o modo do homem lidar com os objetos com apenas um parâmetro no século XX: Picasso (o maior artista daquele século).

Mas duas coisas me parecem importantes:

1) Ele joga um balde de água fria naqueles que vêm a arte como um espaço de prestígio. Para ele a arte é uma coisa qualquer, que pode mudar a vida das pessoas, mas menos do que a atividade social e espiritual

2) Beuys é um artista virtuose, faz objetos preciosos. Quando discursa atua mais como profeta do que como artista, com todos os recursos cênicos e retóricos do profeta. Assim, como diria o Paulo Emílio sobre o Glauber Rocha, o profeta não está aí para acertar, mas para profetizar.